Confira todos os textos da edição #344
- Aiatolás da tradição: apontamentos para uma história natural, por Juarez Fonseca
- Quem tem medo da invenção?, por Jocelito Zalla
- A cerca de arame ganhou Wi-Fi: quarenta anos depois de “Aiatolás da tradição”, por Clarissa Ferreira
- “A grande salina”, de Ricardo Zelarayán, tradução e apresentação por Fabio B. Pinto
- Trilogia musical de Palomas, por Juremir Machado da Silva
- O cuidado pelas palavras: O manifesto de Irene Vallejo, por Helena Terra
- Astúcia brasileira, Luís Augusto Fischer entrevista Marcos Lacerda
- A dama da Duque – Capítulo IV, por José Roberto Iglesias
- Cordel do Corte Raso – Capítulo 17 – Parte I, por Gonçalo Ferraz
ZH | 14 de junho de 1986
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Imaginando que podem deter a marcha da História e impedir a liberdade criativa, atrasar o processo de evolução cultural e manter os seus autoprivilégios de donos da verdade, nos últimos anos começaram a levantar a voz no Rio Grande do Sul os aiatolás da tradição. Depois que o despertar da juventude se tornou nítido, ocupando espaços e apoiando, em palco e plateia, uma nova e moderna forma de cantar a sua terra e a sua história, esses conservadores julgaram aplainado o terreno para se manifestar, posando de professores e guardiões do templo. Eles já se arriscam a ressuscitar dogmas, reviver formas autoritárias de pensamento e, pouco a pouco, passam a se julgar proprietários das manifestações que dizem respeito ao cantar gaúcho. E vão ocupando postos de influência na organização dos festivais e em comissões julgadoras, meios de comunicação e instituições oficiais de qualquer âmbito – na maioria das vezes, fechando, limitando, ditando regras e formas de comportamento, atacando até agressivamente quem não aprendeu a ler por meio de sua cartilha. Por tudo isso, quem se julga no direito de criar com liberdade a música do Rio Grande do Sul, nela colocando angústias, paixões, denúncias, esperanças, desesperanças, temores e crenças quanto ao presente e ao futuro, deve reagir contra os “aiatolás” que contaminam a tradição com as suas brigadas repressivas.