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Narrativas híbridas

Parêntese #316

Confira todos os textos da edição #316

A divisão da arte em gêneros é hoje muito associada aos trâmites de mercado, mas a verdade é que o hábito de classificar uma obra em uma ou outra categoria remonta à Antiguidade. O que talvez tenha mudado de lá para cá é que os gregos, por exemplo, tinham uma sanha classificatória que almejava a dissecação racional de formatos, enquanto hoje muito do que se considera como gêneros e subgêneros são pensados em função do leitor, quase como – o que explica sua associação ao mercado – um guia de consumo, principalmente nesta nossa era do algoritmo em que páginas e redes de editoras e livrarias indicam livros baseados em sua semelhança superficial com outra coisa, como “se você gostou de Carla Madeira, vai adorar Colleen Hoover, e por aí vai.

Na coluna deste mês, fiquei pensando se isso seria de fato algo a ser levado em conta, já que hoje 1) o trânsito de obras por mais de um gênero é praticamente a norma na literatura contemporânea e 2) a vinculação de uma obra a um gênero específico não precisa ser um ponto relevante para uma apreciação crítica a não ser em recortes muito específicos.

A questão é que estes meus textos são híbridos eles próprios: escrevo misturando duas “facetas” de meu contato com as obras: a forma como deixo as leituras ressoarem em mim como crítico, mas sendo muito sincero com as impressões que elas provocam em mim como leitor – querer implicar que uma coisa não afeta a outra em alguma medida é, na minha opinião, fingimento ou ingenuidade. 

Falo disso porque dois dos livros lidos no fevereiro de Carnaval transitaram com maior ou menor sucesso por mais de um gênero. Ambos usam elementos bem demarcados do policial, mas partem deles para, no fim, produzir outra coisa. Em um caso acho que o resultado foi melhor que o outro. Uma terceira leitura concluída este mês é ela própria uma colagem metalinguística feroz – mas estou me adiantando. Vamos aos livros.