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A medida das coisas humanas: Capítulo VI

Parêntese #316

A medida das coisas humanas: Capítulo VI
Imagem: tadah / Pixabay

Confira todos os textos da edição #316

Nem sempre o grupo completo está na sala quando chego. Além de elas não serem todas da mesma galeria, os crimes as dividiram, algumas trabalham dentro do presídio e chegam em cima do nosso horário ou com um minutinho que outro de atraso. De qualquer forma, por prudência, a porta da biblioteca fica sempre aberta. Só devo fechá-la se houver alguma confusão no lado de fora. Coisa que a agente prisional que estiver conosco saberá coordenar. De uns tempos para cá, às vezes, ficamos sozinhas: elas e eu. E, por incrível que pareça, sinto mais paz sem uma pessoa armada nos observando, mesmo porque, entre as agentes, tal qual entre as presas, os temperamentos e índoles variam e nem todas me olham com simpatia. Na hora da revista, isso fica muito claro. Embora haja um protocolo a ser seguido, ela nunca é igual. Duas vezes, fui revistada pela que chamou Rita de ‘monte de banha’. Com seu olhar ateu, ela parece saída de um filme de guerra. Talvez, se sinta em um. Vai saber.

Sei que preciso levar para a terapia essa sensação de mais bem-estar sem uma autoridade armada até os dentes por perto. Tem gente que me chama de cega por ir, de livre e espontânea vontade, para um lugar de que todo mundo quer distância. Janaína, não consigo chamá-la de Vesga, apelido que ela leva com bom humor, recebe apenas a visita da mãe. Ao contrário do que eu imaginava, amizades, no sistema prisional, não se encaixam no conceito de afeto. Tem de ser parente até o segundo grau ou companheiro ou companheira com vínculo comprovado para se cadastrar e receber a carteirinha de visitante, algo cruel e injusto se a gente pensar que nem todo mundo tem pai, mãe e alguém para chamar de seu.

Eu cairia em uma solidão compulsória se fosse presa. Sou filha única, meus pais já morreram e de Rodrigo não posso ouvir falar, ainda que Tati insista com seus ‘Rodrigo disse isso e aquilo’. Outro dia, pensei que ela pode estar apaixonada por ele. Ele sabe ser sedutor. E sabe ser um asco. Usando um vocábulo atual, posso dizer que, além de narcisista e invejoso, Rodrigo é tóxico. Um episódio ilustra bem: “Paula, você fica muito magra com esse vestido preto”, ele me disse na sexta-feira à noite em que apareci maquiada, com os cabelos escovados e superperfumada. “Paula, você fica muito gorda com esse vestido preto”, ele me disse na sexta-feira seguinte, sem perceber que eu me produzira rigorosamente igual. Uma hostilidade tão primária. Foi fácil responder: “Bem, meu, é melhor você se decidir, porque a mulher que está aqui, está com a mesma roupa, os mesmos cabelos e o mesmo peso da semana passada”. Rodrigo detestava quando, em vez de falar ‘meu bem’, eu dizia ‘bem, meu’. Segundo ele, uma predisposição minha para a marginalidade.