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Caprichos do destino

Parêntese #332

Seres carentes de sentido, temos a tendência a olhar a vida – a nossa e a dos outros – como uma sucessão de relações de causa e efeito, como se houvesse racionalidade no encadeamento dos acontecimentos. Expressões como “tudo tem sua hora”, “o que é para acontecer, vai acontecer” e outras do gênero povoam o nosso imaginário, reforçando a tentativa de encontrar determinação e sentido na nossa trajetória. 

No entanto, se você olhar com alguma isenção para o próprio passado, perceberá que são as contingências que dirigem a sua vida. Veja o caso do Luiz: aquelas férias na Praia da Armação, em que ele conheceu a Sandra, não eram para ter acontecido. Ele só acabou indo para Florianópolis porque a viagem para o Peru furou. A agência cancelou o pacote, quando as pessoas desistiram da excursão à Trilha Inca, por causa dos ataques da guerrilha do Sendero Luminoso.

O Luiz vai dizer que não tem nada de acaso – que se apaixonou pela Sandrinha por causa das covinhas que aparecem nas bochechas, quando ela sorri. Só que se ele tivesse ido para Machu Picchu – como era o programado, até começarem os atentados –, não teria encontrado a Sandra, que tinha ido acampar na Armação com a irmã e, possivelmente, seria outro o encantado pelas covinhas dela. Daí que eles não teriam juntado os trapos e tido as três filhas; nem o Luiz precisaria largar a faculdade e fazer o concurso para o Banco do Brasil, logo que ficaram sabendo que a Sandra estava grávida. Talvez ele nem lembre mais de que planejava morar em uma comunidade alternativa, na área rural de Porto Alegre.

Viu só? A vida que o Luiz e a Sandra vivem até hoje foi predisposta pelo Sendero Luminoso – um grupo guerrilheiro que praticamente nem existe mais. Quer coisa mais improvável? E esse encantamento dele pelas covinhas da Sandra só agrega mais uma camada de indeterminação a esse “destino”. Se, no embaralhamento imprevisível dos cromossomos, o gene das covinhas tivesse caído para a irmã dela, o Luiz poderia ter se casado com a Sara – ainda sob as bençãos do Sendeiro Luminoso! 

Somos o resultado do encontro fortuito de cargas genéticas distribuídas aleatoriamente – e de tantas outras heranças, que também nos chegam por vias não menos acidentais – e seguimos esbarrando pelo mundo ao sabor e dissabor das contingências. 

Você dobra uma esquina e pode encontrar um amigo que não via há anos; ou ser encontrado pelo motorista bêbado, responsável pelo seu atropelamento e por uma longa estadia no hospital. Você vai, por obrigação, a uma vernissagem e lá encontra um ex-colega, que lhe consegue um novo emprego e lhe abre uma nova oportunidade profissional. Ou não encontra o ex-colega, que deixou de ir porque ficou com dor de barriga, e você acaba torcendo o pé na escada – depois de vários espumantes. E com o pé enfaixado, fica sem poder ir para São Paulo, correr na maratona, onde encontraria um novo amor, ou seria assaltado no Bexiga, quando procurava uma pizzaria que lhe indicaram.

Os fluxos sinuosos do tempo sempre nos levam por lugares inesperados. Na contramão da teimosia de procurar um sentido metafísico para o que nos acontece, vemos que o previsível é sempre atropelado pelos acidentes do caminho. Por isso, contra todas as mistificações, temos que nos render ao que anunciou um notável sábio alemão: as coisas preferem dançar com os pés do acaso. Resta, então, reconhecermos humildemente que as contingências governam o que chamamos de destino.

Somos destinados ao improvável! 

As opiniões emitidas pelo autor não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.

José Mário Neves

Escritor e Doutor em Psicologia Social pela UFRGS.

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