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O objetivo de "Exílio Brasileiro no Chile" é dizer aos jovens: “Isso aconteceu com colegas, amigos teus, contigo e tua turma”

Parêntese #332

Jornalista e escritor premiado, Paulo de Tarso Riccordi lança, no início de Julho, o seu primeiro livro-reportagem: O Exílio Brasileiro no Chile de Allende, pelas editoras Fundação Perseu Abramo (São Paulo) e Coragem (Porto Alegre). Ele estreou na literatura com o livro de folclore político Tenho Dito! publicado pela Tchê Editora, em 1984, e que está em sua 10ª.edição. A seguir vieram Na linha da rebentação. Os meninos guerreiros (Las Vegas: Amazon, 2021, edição eletrônica), Os meninos guerreiros (Editora Coragem, 2023, 2ª. edição) e O conto da charrete tão linda que ninguém podia comprar (editora Coragem, 2025).  A carreira literária já lhe rendeu importantes reconhecimentos em premiações nacionais e internacionais. Entre elas, o segundo lugar no 1º. e no 11º. Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, do Instituto Estadual do Livro e Universidade de Passo Fundo, em 1988 e 2009, e o 4º. Prêmio Internacional Pena de Ouro, para escritores de países lusófonos, da Casa Brasileira de Livros (2023).

O Jornalismo entrou na vida de Riccordi quando ele estudava Arquitetura, na Unisinos. “A primeira letra que datilografei em uma redação jornalística foi dia 2 de maio de 1972, no primeiro dia de existência do 1120 é Notícia, da Rádio Continental de Porto Alegre.” Ao falar de sua troca profissional, ele relembra um momento marcante da imprensa gaúcha.  

– Numa tarde, vinha caminhando pela Rua da Praia, lendo um prospecto do Senac sobre o curso de Culinária, minha outra paixão. Ali me parou meu primo (em segundo ou terceiro grau) Sérgio Quintana. Ele me disse: “A Rádio Continental está por começar um noticiário. Estão precisando de um radioescuta”. Fui lá. Começamos dia 2 de maio de 1972. No dia seguinte abriu a vaga de um dos redatores, que fora trabalhar em Publicidade em Minas Gerais, sua terra. Me ofereceram a vaga e amei aquele trabalho. Foi o fenômeno mais potente e interessante em rádio na década, liderado por Fernando Westfalen. 

Um ano depois, Riccordi foi demitido. Talvez sentido o que o esperava, dias antes se apresentara a Elmar Bones, na Folha da Manhã, pedindo emprego. “Ele me apontou o grande Osmar Trindade e disse que eu trabalharia com ele.” Ali começava outra etapa de sua vida profissional. “Na Folhinha foram cinco anos do mais completo curso de jornalismo, ética e humanidade em minha vida. Em 1974, pedi para passar para a Editoria de Política, com o João Souza, para cobrir a eleição mais importante desde o golpe de Estado, dez anos antes. Quando ‘caiu a casa’ na Folhinha e estive vetado em todas as empresas jornalísticas privadas do RGS por agitação político-sindical, fui para a TVE, com o generoso José Antônio Daudt. Foram cinco anos de construção de uma das melhores empresas públicas, a mais criativa e livre que tivemos. E participei da criação, pré-operação e primeiro ano do extraordinário Diário do Sul, expressão da alma do Hélio Gama e do Delmo Moreira.”

Anos mais tarde iniciou uma nova carreira, a de professor de Comunicação. Em 1985, ingressou, por concurso público, na UFSC – Universidade de Federal de Santa Catarina. Em 1988, passou a lecionar na Unisinos. De 1992 a 1998 esteve ligado ao CIESPAL – Centro Internacional de Estudios Superiores de Comunicación, com sede em Quito, capital do Equador. Ali foi professor do projeto de atualização de profissionais de telejornalismo dos canais da América Latina e Caribe.  

Antes de, há seis anos, começar a viver o “paraíso da aposentadoria”, coordenou, por dois períodos (1987-1989 e 2011-2014), a Comunicação da bancada do PT na Assembleia Legislativa gaúcha e prestou consultoria em Gestão e Planejamento e em Comunicação Governamental para 13 prefeituras de diversos estados, de 2000 a 2008.

Agora, aposentado, dedica-se a escrever, “em tempo quase integral”, contos e novelas. Também escreve e desenha no Grifo-jornal de política e humor. Ele confessa ter “uma vaga esperança” de, no próximo ano, receber o primeiro prêmio jornalístico de sua carreira, com o livro-reportagem O Exílio Brasileiro no Chile de Allende, que será lançado em Porto Alegre no dia 2 de julho, às 19h, no Clube de Cultura, na Avenida Ramiro Barcelos, 1853. Depois haverá uma sequência de encontros, “daqui até o Ceará”, em cursos de pós-graduação e com grupos de pesquisa acadêmica sobre direitos humanos, ditadura, exílios, verdade, justiça e reparação.

Parêntese — O primeiro destino dos exilados pelo golpe cívico-militar de 1964 foi o Uruguai, para onde foram políticos e sindicalistas. O segundo, a partir de 1971, foi o Chile, que abrigou acadêmicos, artistas, cientistas, estudantes e militantes de organizações clandestinas. O que te motivou a escrever especificamente sobre o exílio chileno?
Paulo de Tarso Riccordi
  O exílio uruguaio foi basicamente de brizolistas, homens acima dos 40 anos de idade. Já o Chile atraiu principalmente jovens. O grosso do movimento estudantil carioca, paulista, gaúcho, pernambucano subiu a Cordilheira. Todas as organizações políticas estavam lá. E pelo menos uma nasceu no Chile (o Ponto de Partida, “bisavô do PSol). Embora brevíssimo (1.042 dias), o período do governo da Unidade Popular foi a experiência mais excitante de um governo declaradamente marxista, constituído através de eleições gerais e democráticas. Foi uma Meca para minha geração e quase toda a esquerda mundial.

Mas há um motivo mais pragmático: escrevi este livro porque foi uma atraente pauta jornalística. Numa visita ao Estádio Nacional, acompanhando Raul Ellwanger, ele me disse: “eu estive aqui com Bobi (Roberto) Metzger na véspera do golpe para assistir um jogo de futebol da seleção do Chile” contra o que deveria ter sido a seleção do Brasil, mas se reduzira a um combinado do interior do Rio Grande do Sul. “E dois dias depois Bobi estava de volta aqui como um dos presos do golpe de Estado”.

Não é uma pauta irrecusável? Pois desde aquele momento me atirei de cabeça nessa pesquisa. Naquele próprio dia, ou no seguinte, fomos à Biblioteca pública e começamos a pesquisar os detalhes daquele jogo. Fomos à Biblioteca Nacional, à Biblioteca da Universidade do Chile, ao Instituto Pedagógico, ao Arquivo Nacional. E na chegada a Porto Alegre, dias depois, realizei as primeiras entrevistas com gaúchos e gaúchas, que lá estiveram como exilados, e (com) a chilena María Izabel Ibarra Toro.

Um segundo motivo foi o de querer contar como minha geração viveu e lutou. A maioria das pessoas que entrevistei tinha 25 anos, pouco mais, pouco menos, naqueles dias.

Outro aspecto foi a forma. Sempre desejei escrever um livro-reportagem. É um formato clássico no jornalismo, lamentavelmente raríssimo no Brasil. Certamente, sem que algum dos jornais em que trabalhei financiasse, seria impossível fazê-lo antes da aposentadoria. Desde então eu buscava uma pauta que coubesse no formato que eu já decidira desde a pré-adolescência. Em 1959 o repórter irlandês Cornelius Ryan publicou O mais longo dos dias, seu livro-reportagem sobre o Dia D, 6 de junho de 1944, quando milhares de soldados aliados invadiram a Europa pelas praias da Normandia para atacar as tropas de Adolf Hitler. Anos depois meu pai comprou a primeira versão em português; foi uma iluminação para mim. “Em algum dia vou escrever algo assim”, decidi. E então eu estava com a pauta, o formato e a técnica em minhas mãos. Era começar a entrevistar e escrever. Foram mais de 70 entrevistas entre uma e três horas e meia de duração, três a quatro vezes mais de degravação, reentrevistas de checagem de informações, pesquisas em arquivos da Comissão Nacional e comissões estaduais da Verdade, íntegra de audiências no Senado do Brasil e dos Estados Unidos, dissertações acadêmicas, arquivos de jornais e revistas do Brasil e do Chile. Ao final disso, jornadas de 10, 12 horas de escrita.

Parêntese – Em que ano foi esta visita?
Paulo de Tarso Riccordi –
Visitei o Estádio em quase todas as viagens ao Chile, desde 1992. Com cada companhia vinha uma carga de informações e de sensações muito diferentes. Desde visitas "racionais", para visualizar e me situar fisicamente nos locais de que ouvira falar, até visitas emotivas, acompanhado de familiares de um dos heróis da resistência, passando por uma vigília com Raul Ellwanger durante o velatón na noite-madrugada de 11-12 de setembro de 2014, ato altamente emotivo. Nas noites de 11 de setembro, familiares de vítimas da ditadura se reúnem diante dos locais onde seus queridos foram assassinados, acendem velas na calçada (daí, velatón) e viram a noite em denso silêncio, lembrando dos seus. No Estádio, acendem velas nas grades da calçada, na Escotilla 8, acesso ao setor preservado como era em 1973, nos vestiários (camarines) e num local próprio para isso, junto às arquibancadas preservadas, de madeira. Enquanto fotografava, não conseguia parar de chorar. É um silêncio acusador.

Outro local impossível de resistir ao choro é a calçada da Rua Londres, 38. Aí, num lindo casarão de um pequeno núcleo inglês, funcionou um centro clandestino de tortura, assassinato e desaparecimento de militantes do MIR. Sua calçada é pavimentada com paralelepípedos, vários deles substituídos por plaquetas com nome, nacionalidade e datas de nascimento e morte de dezenas de jovens assassinados nessa casa pela DINA, a máquina clandestina de matar que se reportava exclusivamente ao ditador Augusto Pinochet. Sobre cada plaqueta os familiares acendem velas na madrugada do velatón, por memória, verdade, justiça e reparação.

Parêntese —Trabalhas com o número de 4 mil exilados no Chile. Como chegaste a este número? 
Paulo de Tarso Riccordi –
Esse é um número impossível de determinar com relativa precisão - mesmo àquela época. A Embaixada brasileira fechou-se aos exilados (o fascista prevaricador embaixador Antônio Cândido Câmara Canto recusou até mesmo a certificar a nacionalidade de filhos de exilados brasileiros nascidos no Chile).

O que se tem são estimativas com o cruzamento de diferentes fontes. Começaram em 7 mil e foram sendo depuradas seguidamente, a partir das listas nominais de presos no Estádio Nacional, listas nominais dos que saíram do país, através das embaixadas da Argentina, Panamá, México – até aqui, exilados políticos; mais brasileiros estudantes nas Universidades de Santiago, Osorno, Valparaíso. Outros brasileiros, que não estiveram presos e não foram registrados lá, entraram e saíram sem registro por fronteiras terrestres. E há ainda número bem maior, que não teve nenhum contato com a polícia de lá: os que entraram e saíram do país como turistas ou como professores ou servidores de organismos internacionais, como o professor Ernani Maria Fiori, Paulo Freire, Almino Afonso, Geraldo Vandré, Ferreira Gullar, Sílvio Tendler. O trânsito político de “barras limpas” (mas com atividade política de ligação) entre Chile e Argentina e Europa também era constante.

Assim fomos depurando e chegamos a essa aproximação, provavelmente ainda superlativa, do número, máximo, de 4 mil brasileiros que viveram no Chile naquela década.

Parêntese — O Chile foi o país que abrigou o maior número de exilados brasileiros?
Paulo de Tarso Riccordi
  Sim. Mais que o Uruguai. O Chile e suas forças armadas tinham grande tradição democrática (para vermos como a autoimagem da casta política e jornalística com frequência não revela a realidade). E o presidente democrata cristão Eduardo Frei (que depois apoiou o golpe contra Allende) inspirava muita confiança.

Imediatamente após o golpe de 64, o Uruguai recebeu principalmente os brizolistas e os que orbitavam pela hipótese de reação armada imediata. E gaúchos em geral. A leva de 1964 dos que foram para o Chile, então importante centro de organismos internacionais de Planejamento, Pesquisa, Economia, como a Cepal, Flacso, Ilpes, foi composta por enorme grupo de cassados do tamanho intelectual de Paulo Freire, Ernani Fiori, Maria da Conceição Tavares, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra, Theotônio Santos. E pela parte do governo Jango, relativa ou completamente distante de Brizola e da luta armada, como o ex-ministro Almino Afonso e Darcy Ribeiro. A Argélia, pelas enormes diferenças culturais e políticas, abrigou poucos, principalmente ligados ao ex-governador pernambucano Miguel Arraes.

A leva dos cassados e perseguidos pelo AI-5, em 1968, enviou (ao Chile) maior número de professores e, a partir de então, os jovens, mas ainda não dos grupos da luta armada, que resistiram no Brasil até o início dos anos 70. A vitória de Salvador Allende (em 1970) fortaleceu o Chile como Meca da esquerda mundial. (Para lá foram) desde os brasileiros libertados em troca de diplomatas sequestrados até jovens estudantes e famosos intelectuais alemães, franceses, italianos, estadunidenses, sem qualquer problema com a polícia política de seus países. “Todo mundo” queria ver de perto a instigante experiência do Socialismo pelo voto.

Parêntese — Quantos exilados entrevistaste? Foi fácil localizá-los? Ouviste mais homens ou mulheres? Maior número de gaúchos? 
Paulo de Tarso Riccordi – Quase 70 em entrevista pessoal e direta, mais quatro que depois se arrependeram e pediram que eu não os/as citasse (outros cinco não aceitaram falar comigo), de mais 30 recolhi seus depoimentos às comissões da verdade, entrevistas para dissertações acadêmicas, reportagens em revistas, artigos e livros seus, documentários filmados. Quase metade são mulheres. Uns 15 ou 16, gaúchos.

Não (tive) nenhuma dificuldade em localizá-los, mesmo os que vivem fora do Brasil. Conhecia praticamente todos gaúchos e o Raul Ellwanger auxiliou muito com os do Rio de Janeiro. Eu já estava muito avançado com as entrevistas quando se constituiu um grupão de whatsapp para organizar a ida a Santiago nos 50 anos do golpe. Aí conheci os que me faltavam e criei um problema extra: a falta de espaço; o livro que saiu com 510 páginas, chegou originalmente a 1.005...

Parêntese - Cortar quase a metade do texto deve ter sido muito dolorido e trabalhoso. Como decidiste o que manter e o que suprimir? Pretendes usar o que foi retirado do texto final em alguma outra publicação?
Paulo de Tarso Riccordi –
Pois foi muito duro para o repórter, pesquisador. Mas aí incorporei o editor. O Elmar Bones ensinou sua equipe a "pentear a matéria", a "cortar por dentro", isto é, reduzir o número de palavras de cada frase, preservando a informação. Sempre é possível fazer isso e reduzir uns 30% do todo. Depois, se três, quatro fontes contam o mesmo fato, de locais e pontos de vista diferentes, o redator sintetiza, abandonando as citações. Dá mais um tanto. Mas, embora conservando informações e dados, é muito doloroso cortar falas em primeira pessoa; se perde muito da luz e cor. Principalmente quando se está descrevendo feitos com mais de 50 anos. Desde a primeira linha eu idealizei como público jovens de 25 anos (a idade média da maioria dos exilados do período do governo Allende), que conheçam pouco a história do exílio brasileiro. Eu precisava ao mesmo tempo contar, situar e explicar para alguém com quase nenhum conhecimento. 

O objetivo do livro é dizer: "olha, isso aconteceu com colegas, amigos teus, contigo e tua turma", enquanto namoravam e sonhavam, não com "personas" da História. Pode ser que percebam melhor assim.

Parêntese — Como os brasileiros foram recebidos pelos chilenos? Qual o maior problema enfrentado para adaptarem-se à nova realidade
Paulo de Tarso Riccordi
 – Praticamente todos dizem que o Chile se transformou em sua segunda pátria, país em que foram extremamente felizes, onde teriam permanecido se não fosse o golpe de 1973. A adaptação foi instantânea, porque vinha envolta em euforia. O mais curioso foram os primeiros dias no país, ao se defrontarem com uma caminhada qualquer com centenas de pessoas com bandeiras vermelhas. Ficavam tensos, esperando a polícia “baixar”.

Atropelados pelo golpe de 1964, no início de suas adolescências, grande parte dos exilados brasileiros foi conhecer democracia e liberdade pela primeira vez lá, ainda que por breve período, e viveram alegremente as manifestações de rua (duas de 2 milhões de pessoas!) e os três anos de mobilização permanente, desde as comemorativas de 1970 até as tensas e armadas de 1973.

Como eram poucos gaúchos, a grande maioria era de pessoas que não conheciam neve, a curtiram como turistas. Desciam para rolar na neve nas praças.

Já os terremotos da madrugada de 5 de outubro de 1973 - de 6,7 graus de magnitude - os apanharam confinados às dezenas em cada vestiário do Estádio Nacional, onde não cabiam todos deitados ao mesmo tempo, com ninhos de metralhadoras na ponta dos corredores, para que não saíssem. "Era um ronco que vinha do interior da terra", "o estádio todo tremia". Quase nenhum conhecia um temblor. "Era assustador".

A neve era uma curtição, o terremoto, um pavor.

Parêntese — Como era a convivência entre os exilados? Havia alguma divisão entre eles? De que tipo?
Paulo de Tarso Riccordi –
Ainda que o Chile por um breve espaço de tempo fosse uma ilha de liberdade, os militantes de esquerda das várias nacionalidades que lá se protegeram tinham suficiente formação política para se manterem com um pé à frente e três atrás. A ultradireita da organização Pátria y Libertad circulava armada pelas ruas, tão livremente quanto a esquerda. Ainda no governo Allende, o estudante gaúcho Nilton Rosa da Silva foi morto por um tiro disparado de um grupo do PyL que ameaçava invadir e depredar a sede central do Partido Socialista. Caminhoneiros subsidiados pela CIA a mando do presidente Richard Nixon bloqueavam estradas para imporem escassez de alimentos e medicamentos e desgastar o governo da Unidade Popular.

Por princípio, as organizações de luta armada não viram e não foram vistas pelas demais. Seu objetivo era o treinamento físico com a perspectiva do retorno clandestino para a retomada da luta armada no Brasil. Os problemas de segurança nessas condições, por si só cruciais, estavam agravadíssimos, pela desconfiança e depois confirmação de fortíssima infiltração de espiões e de traições. O próprio cabo Anselmo esteve no Chile buscando atrair gente para arapucas no reingresso no Brasil e é o responsável direto por duas chacinas de seu pessoal pelo Exército. Mesmo as organizações não militaristas se preservaram e viviam em torno dos seus, criando ou fortalecendo no exílio as relações de amizade além das políticas.

Mas a maioria da colônia conviveu bastante. Havia dois grupos de futebol semanal, com a cerveja apenas fria depois, dois ou três grupos musicais, festas coletivas com a filharada. Muito namoraram e casaram com chilenas.

Mas os mais velhos, das primeiras levas, professores, consultores, assessores do governo Allende, conviveram intensamente. O ex-ministro Almino Afonso, a esposa Lygia e os quatro filhos eram vizinhos de Paulo Freire, Elza e seus também quatro filhos. "Cantavam muito, lá". Paulo Freire escreveu que o momento mais esperado da semana era o almoço de sábado, quando recebiam Ernani Maria Fiori, d. Hilda e filhos para conversas que se estendiam por toda a tarde. As famosas feijoadas dos Rabêlo eram um acontecimento de porta aberta para a colônia, para muito além de mineiros e cariocas.

A casa dos pais da chilena María Izabel Ibarra Toro, namorada do gaúcho Dirceu Messias, e a de Mário Maestri Filho e Sandra eram ponto de ancoragem de seus colegas alunos no famoso Pedagógico.

Parêntese — Como os entrevistados definiram o exílio, que viveram?
Paulo de Tarso Riccordi –
Para uns, foi um período de treinamento para reingressar no Brasil e reativar a luta armada – o que não aconteceu. Os que tentaram, foram levados pelo traidor “cabo” Anselmo diretamente para armadilhas do DOI/Codi do Exército.

Com o destroçamento das organizações brasileiras, a maioria tratou de viver a sua vida, acompanhar perifericamente a política chilena e as manifestações de rua, com comícios de massa. Outros se integraram aos partidos e organizações de esquerda, aos movimentos populares por moradia e terra.

 A maioria tratou de se integrar à sociedade chilena e desfrutar da liberdade política. Vários/as casaram lá.

No final do livro reproduzo frases de muitos, pinçadas de suas entrevistas, em que declaram que aquele foi o momento mais feliz de suas vidas. “A intensa fatia de nossas vidas”, como digo no subtítulo.

Parêntese — Quais as revelações dos exilados que mais te marcaram?
Paulo de Tarso Riccordi –
As mortes de Túlio Quintiliano e Wânio José de Mattos, as torturas a Dirceu Messias em “aulas” de militares brasileiros para chilenos foram atrozes.

Também, a lista de nomes de brasileiros expurgados do serviço público, proibidos de lecionar e estudar nas universidades do Brasil – e que o fizeram no exílio por duas décadas –, mostra o que o país perdeu em talentos e conhecimento com a ditadura.

Parêntese — Muitas das tuas fontes enfrentaram, além do golpe militar no Brasil, o do Chile. Que lições tiraram destes dois trágicos eventos
Paulo de Tarso Riccordi –
Vários (Raul Ellwanger e Nana Chaves, João e Janete Capiberibe entre estes) viveram três golpes de Estado.

Penso que perceberam o modus operandi dos Estados Unidos quando se sentem ameaçados em seu quintal. O emprego do medieval sítio a países para forçá-los à rendição pela fome, reutilizado no Chile de Allende e em Cuba, a cooptação de oficiais superiores das forças armadas e do corpo diplomático de países escolhidos como inimigos, o treinamento das polícias e das Forças Armadas para espionagem, infiltração, para técnicas de tortura. E depois da “terra arrasada”, o “apoio” à reconstrução através de financiamento e de empresas norte-americanas. Ganham na destruição e ganham na reconstrução do que destruíram. Nunca deixaram de fazer o mesmo.

Parêntese — O que mais marcou suas vidas no retorno ao Brasil? 
Paulo de Tarso Riccordi –
Meu livro cobre somente do golpe de 1964 até a saída dos brasileiros do Chile, terminando em 1974.

Parêntese — Começaste as pesquisas e as entrevistas em 2015. Qual o foi o maior desafio que enfrentaste para concluir o livro?
Paulo de Tarso Riccordi –
Para jornalistas da nossa idade, as questões técnicas e o volume de material apurado no Brasil e no Chile não é problema. O mais difícil foi a exigência física de escrever 12 horas, 15 horas contínuas, atravessar as madrugadas gaúchas trabalhando e convencer a coluna vertebral e o ciático a resistirem.

Com raríssimas exceções de pessoas que ainda não querem externar suas memórias, as fontes estavam muito abertas e dispostas a falar sobre aquele momento tão marcante de suas vidas. Muito jovens exerceram ao limite extremo seu poder de avançar em coerência com seus ideais e pagar o alto preço, principalmente físico, que isso significava. Mas, passados 50 anos, quase não ficaram dores físicas e todos os relatos eram descrições muito vivas daquele período tão marcante em nossa história. Praticamente não há quem tenha renegado aqueles ideais de homem novo e sociedade igualitária e justa. Grande parte enveredou depois para a vida acadêmica e há vários destacados intelectuais entre eles. As várias médicas e médicos desse grupo se destacam de seus colegas mais jovens por conservarem um espírito solidário, ético e empático com os pacientes mais pobres. São fortes defensores do sistema público de saúde. Os poucos que se converteram em gestores públicos igualmente mantêm essa marca.

 

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