Pular para o conteúdo

PUBLICIDADE

A nova Irlanda escrita por mulheres

Parêntese #316

Confira todos os textos da edição #316

Uma nova Irlanda é tecida por mãos femininas. Se até pouco tempo o termo "literatura irlandesa" parecia elegante mas empoeirado, citado em raras conversas sobre James Joyce ou Samuel Beckett, hoje a história é outra. Nos últimos anos, o mundo tem celebrado a projeção de inúmeras autoras irlandesas. Do fenômeno Sally Rooney a Claire Keegan e Doireann Ní Ghríofa, o que vemos emergir são vozes tão originais quanto ambiciosas: projetos marcados por altíssima qualidade literária, cujas reflexões éticas e políticas subvertem os códigos da escrita feminista convencional.

Mas é difícil dizer o que seria uma “literatura feminista tradicional. Como prática histórica, o feminismo se desdobra no interior de contextos particulares, reagindo a urgências culturais e políticas que se transformam com o passar do tempo. Ninguém contesta, por exemplo, o papel de figuras como Jane Austen e Clarice Lispector na história da literatura feminina. Seria um erro ingênuo, no entanto, imaginar que ambas exploraram a condição da mulher da mesma forma, almejando efeitos simbólicos e políticos semelhantes.

Acontece que a heterogeneidade não elimina de todo a igualdade. Entre os feminismos, existem diversos valores e práticas compartilhados. Na literatura engajada, no cinema e na música das últimas décadas, é clara a consolidação de algumas convenções estéticas e narrativas utilizadas em prol da luta pelos direitos da mulher. E é precisamente esse conjunto de manobras críticas, essa “tradição”, que as escritoras irlandesas vêm desafiando.