Confira todos os textos da edição #334
- Beatriz Besen: “O engano está justamente na ideia de que a perspectiva política das pessoas sempre forma um todo coerente”, por Luísa Kiefer
- MPB: música parodiada brasileira – Parte I, por Breno Serafini
- Leitura, autoridade e mediação na era dos algoritmos, por Marcelo Santos
- Doutor, minha vitamina B12 está baixa!, por Enrique Falceto de Barros
- As missões e o arquipélago Guarani, por Artur Barcelos
- O rock gaúcho – Parte XV, por Arthur de Faria
- Dedos de sonhador, por Juremir Machado da Silva
- Calçola à mostra, por Claudia Tajes
- Sussuarana – Capítulo IV: 2019, por Alice Elnecave Xavier
- Antônio II: enfim chegamos ao novo sem abandonar o melhor da MPB, por Luciano Mello
- O prazer, para as seis cordas: resenha-ensaio sobre o show de Vitor Ramil em Florianópolis, por Diogo Araujo
- Cordel do Corte Raso – Capítulo 13, por Gonçalo Ferraz
Psicóloga e pesquisadora com uma trajetória marcada pela interdisciplinaridade entre a psicologia política e a sociologia, Beatriz Besen lançou recentemente o livro Novas Direitas: Juventude Além dos Extremos, pela editora Vozes. Nele, a autora investiga o engajamento crescente de jovens em movimentos conservadores, liberais e nacionalistas no Brasil e na Alemanha. Para isso, Besen entrevistou dezesseis brasileiros e alemães, de 18 a 32 anos, entre 2022 e 2023, com a premissa de escutá-los sem julgamentos, por mais que algumas posições ultrapassem as suas próprias convicções.
Na entrevista concedida à Matinal, Besen discorre sobre o crescimento das novas direitas entre os jovens nos dois países. A autora destaca que a adesão a esses movimentos não é meramente ideológica, mas um processo de formação marcado pela convivência entre valores conservadores e progressistas, desafiando a expectativa de uma coerência política absoluta. Ela defende a necessidade de regular as redes sociais e promover espaços de convivência com a diferença, sugerindo que a redução da polarização exige menos cobrança por posicionamentos precoces e mais foco no afeto e na pluralidade durante o desenvolvimento juvenil.
Confira a entrevista completa:
Luísa Kiefer – Como tua pesquisa te trouxe ao estudo da extrema direita?
Beatriz Besen – Sou psicóloga formada pela USP. Fiz minha trajetória, no começo, entre a psicologia social e a psicanálise. Logo depois de me formar, comecei a atuar na gestão pública como coordenadora de projetos em educação e cultura — um momento bem marcante em que trabalhei com projetos voltados para a juventude.
Quando fui fazer o mestrado, estudei os efeitos das memórias do passado na participação política dos jovens no presente. Foi ali que comecei a criar as questões que me conduziram ao doutorado e ao tema que hoje pesquiso.
Nesse meio tempo, fiz um segundo mestrado em Estado, Governo e Políticas Públicas, porque, como psicóloga que também tratava questões vindas da sociologia, sentia que havia uma certa lacuna. Tive uma trajetória bastante interdisciplinar. Hoje, com este livro e com a pesquisa de doutorado, me identifico mais com olhares que vêm da psicologia, mas as ferramentas e algumas análises da sociologia foram fundamentais para desenvolver a pesquisa.
Meu doutorado também foi na USP, na EACH [Escola de Artes, Ciências e Humanidades], em Mudança Social e Participação Política. Passei dois anos na Alemanha com uma bolsa da DAAD, pesquisando na Universidade Humboldt de Berlim e na Goethe de Frankfurt. Depois fiz um pós-doutorado no NEV-USP, o Núcleo de Estudos da Violência, e atualmente estou no NUPMOS, o Núcleo de Pesquisa em Psicologia Política e Movimentos Sociais da PUC-SP.
Essa circulação que hoje me faz estar nesse campo que não é tão grande no Brasil, que é a psicologia política: a psicologia utilizada para olhar para fenômenos políticos.
LK – Tua pesquisa foi desenvolvida tanto no Brasil quanto na Alemanha, a partir de 2013, um ano marcado, aqui, pelas Jornadas de Junho, e lá, pela a criação do AfD (Alternative fur Deutshland), partido da extrema direita. Quais são as principais semelhanças e diferenças? O que, em cada país, leva ao surgimento dessas novas direitas?
BB – A participação política na Alemanha está muito mais associada a partidos. No Brasil, você tem um partido muito fundamental que representa as esquerdas, mas não é o mesmo caso das direitas — aqui a participação está muito mais conectada a movimentos e grupos. Lá, a participação política muitas vezes se dá em instâncias locais ou nacionais do partido; aqui falamos de grupos que se proliferam e movimentos que se multiplicam com nomes diversos, alguns online, outros presenciais, alguns com candidaturas, outros apenas com presença online.
Na Alemanha, as trajetórias são definidas muito mais cedo. O sistema de seleção para as universidades não é pelo vestibular e não tem a mesma dinâmica de divisão entre o público e privado. Há percursos exclusivamente profissionalizantes, nem todo mundo vai à universidade, e as escolhas de caminhos de educação são feitas muito mais cedo. É um sistema que exclui mais cedo. Então lá, a questão da carreira ligada à política não aparecia tanto porque não parecia ser uma escolha possível. Muitos desses jovens ativistas que entrevistei tinham outras carreiras ou estavam nesses cursos profissionalizantes. No Brasil, com a expansão das universidades privadas e do acesso ao ensino superior, muitos jovens atrelavam esse ativismo à sua escolha de carreira [política].
Há também uma questão temporal. No Brasil, as eleições de 2018 foram muito marcantes, apontadas pela maioria dos jovens como um ponto de virada. Já na Alemanha, o grande ponto de virada apontado foi a pandemia. O discurso da AfD sobre a tirania do estado com as medidas sanitárias foi muito potente e capturou muito os jovens. Muitos começaram a participar em movimentos antivacina ou contrários às restrições sanitárias.
Temos, portanto, temporalidades diferentes de engajamento e uma proliferação comum de páginas e grupos durante o período da pandemia que, de modo geral, representa uma expansão das discussões políticas dentro do meio digital.
Há também a questão das agendas específicas de cada país — inevitável, mas que eu tento conectar a uma raiz comum: quem é o outro que te ameaça. Na Alemanha, esse outro é, de forma muito marcante, o imigrante. Surge ali a oposição entre os "normais" e os "estranhos culturais" – um binômio que, nas entrevistas brasileiras, aparece como o "cidadão de bem" e o bandido. O bandido não é alguém de fora, ele é parte da sociedade brasileira, mas é o indivíduo racializado, visto como inimigo, muito associado às pautas de segurança pública.
Nos dois casos, o movimento é o mesmo: a produção e identificação de ameaças. Mas o que também me chamou a atenção, foi um discurso comum a ambos os contextos: a ideia de que a família, dentro dos moldes que eles projetavam, estava sob ameaça, principalmente frente à ação dos movimentos feministas e LGBTQIA+.
O que era interessante, no entanto, é que esse posicionamento não conformava, necessariamente, a adesão a uma série de valores e agendas conservadoras. Muitas das mulheres antifeministas, por exemplo, ainda defendiam a independência ou autonomia da mulher e chegavam a apoiar o direito ao aborto. Discursos entendidos originalmente como progressistas também conformavam o vocabulário de alguns desses jovens. O que algumas pessoas chamariam de contradição, eu diria que é um padrão em grande parte da juventude: a combinação entre valores progressistas e conservadores.

LK – Como foi fazer essa escuta sem julgamento — que vem da clínica — num contexto polarizado?
BB – Existe um compromisso, também na prática clínica, de ter uma ética de cuidado com quem você atende e de cuidado de si — as duas coisas são importantes, e uma tem efeito sobre a outra.
Quando fui olhar para esse fenômeno, entendi que, para criar um bom espaço de encontro – principalmente para acessar as biografias e as trajetórias –, precisava evitar um ambiente de confronto. A ideia principal foi conduzir de uma maneira aberta, com perguntas voltadas a estimular a fala, puxando pontos que eles tinham trazido e não trazendo, inicialmente, pontos externos. Depois, ao final, apresentei perguntas mais diretas para investigar o campo da participação política atual.
Essa parte biográfica, hoje em dia, costuma ser mútua: parte deles também me pesquisou antes. Em certos momentos, por supor um posicionamento político da minha parte, surgia uma postura defensiva, ou seja, de buscar se explicar ou se justificar. Apesar de alguns acharem que isso poderia ser prejudicial à entrevista, entendo que o que se formava era um exercício autorreflexivo que também contribuía para que eu compreendesse como eles próprios viam suas escolhas e trajetórias.
LK – Esses jovens vão na contramão da expectativa de progresso. Quais são as raízes dessa expectativa?
BB – No pós-ditadura, os movimentos estudantis e as principais formas de organização da juventude política analisadas na literatura eram de caráter progressista. Havia um recorte: eram jovens de classe média e média alta, e quando se olhava para esses grupos, chamava-se aquilo de "juventude". O que se entende por juventude foi se transformando: hoje o conceito é mais amplo e não envolve apenas esses jovens.
A questão da participação política da juventude também era interpretada de forma a ter um viés muito forte de classe: as formas corretas e compreendidas como participação verdadeira, geralmente estavam relacionadas às classes médias e altas. E o que é interessante e controverso é que dois movimentos aconteceram ao mesmo tempo no Brasil: a proliferação dos movimentos baseados nos marcadores sociais da diferença e, logo depois, a expansão das novas direitas — que alguns chamam de direitas radicais ou extrema direita.
Esses dois movimentos marcam uma expansão da juventude ativista que pertence a diversas classes sociais. O que quero dizer com isso é que entendo que a expectativa de uma juventude cada vez mais progressista vinha desse olhar para os movimentos do pós-ditadura e da expectativa criada pelos consecutivos governos petistas.
De fato, muitos jovens aderiram a novas formas de ativismo e apoiaram causas e movimentos progressistas, no entanto, no presente também é bastante normal ver um jovem afirmando seu ativismo conservador, ou declarando abertamente que essa é uma posição de contracultura, uma rebeldia justamente contra essas expectativas sociais.
LK – Você chegou a alguma explicação para essa contradição? Ela tem a ver com o neoliberalismo, com as redes sociais, com a necessidade de ser autêntico?
BB – Acho que o engano está nessa expectativa de que os valores e as posiçõespolíticas das pessoas formem um todo coerente. Essa expectativa também se tornou, em parte, uma exigência de alguns movimentos contemporâneos. Nas entrevistas, apareciam relatos de jovens que se sentiram muito mais acolhidos nas direitas, descrevendo grupos em que opiniões divergentes coexistiam. Isso também ia ao encontro de outro elemento comum nas entrevistas: a entrada e aproximação com as novas direitas por meio de uma agenda específica. Fosse a questão das armas, a oposição ao aborto, o desejo de ser empreendedor… Essas questões costumavam ter amarrações com as trajetórias particulares, mas encontravam ressonância com os discursos e a abertura dos movimentos das novas direitas. Entendo que as redes sociais têm muita relação com isso também. Apesar das bolhas e do eventual processo de radicalização que um jovem pode viver, diariamente, ele é bombardeado por notícias e ideias de rápido consumo. Há pesquisas que indicam que muitos jovens se informam por meio do tiktok. Isso também explica essa mistura dos vocabulários. E um aspecto que busco enfatizar sempre, quando olhamos para a juventude, é que estamos falando em processos de formação política. Muitos estão explorando e tentando explicar as questões que atravessam suas vidas por meio desses inúmeros discursos e ideias que recebem e consomem diariamente.
LK – É um ponto bem interessante entender isso como processo de formação, e não como posição consolidada — diferente, talvez, de um adulto já conservador.
BB – Uma das questões que observo é que esses jovens também estavam respondendo às novas exigências neoliberais — à ideia do jovem protagonista, responsável, autossuficiente, autêntico, com sua própria marca.
Na Europa, usa-se muito o conceito de normalização — aquilo que era absurdo se torna mainstream e começa a ocupar a esfera pública. Lá o olhar recai muito mais sobre a dinâmica partidária; como a gente não tem tanto essa marca, a gente tem que olhar para os movimentos.
LK – O que podemos perceber desses movimentos?
BB – Encontrei jovens que faziam parte de movimentos com militância de base e grupos de estudos, alguns já conseguindo inclusive monetizar esses espaços.Desde que comecei a pesquisar, ainda em 2020, sempre enfatizei muito a expansão de uma produção editorial conservadora e liberal/libertária. Esses grupos têm livros que são referências, eles têm autores, hoje em dia, já existe centenas de páginas de influencers ligados às novas direitas que falam só sobre leitura e se identificam como historiadores, filósofos, sociólogos e, até mesmo, psicanalistas.
É uma disputa. Tem gente batendo muito na questão do negacionismo científico, como se houvesse apenas um movimento de descrédito da universidade. Mas acho que isso é ambíguo — não é só esse movimento de descrédito, há a ideia de disputar por dentro também. Um dos jovens queria se tornar professor.
Isso vem, em parte, do Olavismo — essa ideia da batalha pela hegemonia cultural. Quem fala sobre esse movimento, do tecnoconservadorismo, é Pablo Ornelas. Ele analisa de maneira muito precisa esse entrelaçamento entre a lógica algorítimica, os discursos liberais e conservadores e os infoprodutos que circulam e conformam essas novas identidades.
Essa expansão editorial não é só no Brasil. Você tem um conteúdo conservador, libertário, liberal, de várias vertentes, que vai ganhando espaço e leitores. Um exemplo claro é Ana Campagnolo — gigante dentro do seu nicho, com editora própria, livros, eventos contínuos e interlocutores diversos.
LK – Você encerra o livro falando sobre diálogo e novas utopias — como fazer isso num mundo polarizado? Como podemos construir pontes nesse contexto?
BB – Eu acho que tem algo que a gente não pode se eximir – é preciso regular o acesso de jovens e adolescentes aos espaços digitais e aumentar a responsabilização das big techs pelos conteúdos circulados. Esse não é meu tema, mas há diversos estudos que evidenciam o quão danosa é a lógica algorítmica. Mas, dentro da minha área e dos meus temas, entendo que posso colaborar pontuando – assim como tenho feito nas escolas que me convidam para tratar dessas questões – que o confronto direto com ideias políticas opostas tem aprofundado a polarização. Ou seja, não é dando um novo pacote de ideias ou forçando uma nova identificação política que conseguiremos transformar esse cenário. O que defendo é uma menor exigência de identificação política tão cedo. Você não precisa, necessariamente, já se posicionar dentro de um espectro político. Entendo que é importante existir e garantir um momento de exploração. O que a gente precisa é da convivência entre diferentes, com direitos garantidos de maneira igual.
Quanto mais se isola o jovem em bolhas de convivência entre iguais, menos ele tem contato com o que de fato pode fazer ele ponderar: o afeto, a convivência com pessoas diferentes, a incoerência entre o que está sendo dito e o que ele vive.
Então, resumindo o que já coloquei, entendo que, por parte dos espaços e movimentos progressistas, necessitamos de menos exigência, compreendendo que os jovens estão em formação. Um jovem não precisa ser taxado como de extrema-direita ou fascista ao tomar uma posição conservadora. Ele precisa ser responsabilizado se circular ideias violentas, mas não precisa ser rotulado. Até porque esse rótulo pode apenas reforçar e conduzir à busca pelos seus pares, ou seja, a busca – geralmente online – por grupos e espaços que se apresentam com essas identidades.
Há grupos que estão discutindo masculinidades, outras experiências possíveis de gênero — e isso é necessário. Os jovens precisam falar sobre as experiências de "ser jovem” nessa sociedade. Isso é que também conquista nas redes sociais: perfis que vendem a ideia de proximidade, de troca. Mas isso precisa voltar a acontecer nos espaços presenciais, sem a mediação dos algoritmos e a filtragem de uma produção.
É difícil, porque quando falo dessa forma, pareço me eximir de colocar culpados. Mas entendo que isso significa colocar um compromisso social geral em relação à juventude.