Confira todos os textos da edição #316
- Ganhos desconectados de avanços, por Nadejda Marques
- Meu bem, meu mal, por Graça Craidy
- A nova Irlanda escrita por mulheres, por Matheus Cenachi
- Sobrevivendo ao Dia da Mulher, por Chris Cidade Dias
- A alma de uma cidade à prova d’água, por Álvaro Magalhães
- Histórias de Autógrafos: Wander Wildner em “Canções Iluminadas de Amor”, por Carlos Gerbase
- A medida das coisas humanas: Capítulo VI, por Helena Terra
- Walter Galvani, um homem de paixões, por Nubia Silveira
- Narrativas híbridas, por Carlos André Moreira
- Resenha do Hercólubus, por Paulo Damin
Em 1978, tive a infelicidade de servir, contra a minha vontade, na Companhia de Comando da Terceira Região Militar, sediada no Quartel General da Rua da Praia. Um ano aprendendo a rastejar pelos três processos, pagando contas de oficiais e sargentos em bancos, organizando as fichas do Serviço de Inativos e Pensionistas do exército, limpando banheiros malcheirosos, tirando guarda em praças abandonadas e desvendando os mistérios da ordem unida. Sim, desfilei no Sete de Setembro. Sim, troquei de turno na faculdade de Jornalismo, passando para a noite, já que as manhãs e as tardes eram dedicadas à pátria amada. Sim, passei vergonha ao ir fardado às aulas quando não dava tempo de trocar de roupa. Enfim, tive desventuras em série vestindo verde-oliva.
Encontrei, contudo, uma coisa bacana no QG: meus colegas de infortúnio, os recrutas. Alguns eu já conhecia, pois também tinham estudado no Anchieta. Outros eram totalmente desconhecidos, mas ao longo do tempo tornaram-se amigos. Um destes era o soldado Wanderlei. Taciturno, olhar quase sempre para o chão, caminhar lento, como se não quisesse continuar andando pelo extenso corredor da companhia, rumo a mais uma missão de office-boy no centro da cidade. Os garotos mais fortes e mais capazes, militarmente falando, compunham o pelotão de defesa do quartel. Os demais, como os soldados Gerbase e Wanderlei, eram BGs, ou seja, bundas grandes, pois, teoricamente, ficavam muito tempo sentados, em trabalhos de escritório nas quatro seções do QG e nos demais serviços burocráticos.
Wanderlei Luiz Wildner, assim que saiu do quartel, começou a construir uma carreira no campo da arte. Primeiro como ator (com participações no super-8 Deu pra ti, anos 70 e na peça Trenaflor), depois como iluminador de filmes e shows (fez uma extensa turnê com Alceu Valença) e, finalmente, como cantor e compositor na banda Os Replicantes, em que eu era baterista e letrista. Nessa altura, em 1984, já não era o soldado Wanderlei, e sim o lendário vocalista Wander Wildner, uma garganta selvagem a serviço do punk rock.