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Mateando em Paris

Conto completo sobre a experiência de ler Dom Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes

Mateando em Paris
Apreciando memórias do pampa, na capital francesa. Elaboração da imagem: ferramenta de inteligência artificial.

Sombras de Dom Segundo

Faltava menos de um ano para eu chegar aos 65. Estava em Paris, numa quinta-feira, não chovia, mas já era o céu chumbado do final de novembro. Saí de meu hotel, cuja marca era ter sido morada do poeta Rimbaud em algum momento das suas incursões desesperadas à capital, situado ao lado do hotel onde García Márquez produziu uma narrativa pungente e dolorosamente bela que ainda gosto de reler para me surpreender com a precisão: Ninguém escreve ao coronel. Atravessei a praça da Sorbonne Velha, onde estudei, e desci pela Saint-Michel como se procurasse o meu destino numa esquina.

Fazia alguns meses que eu convivia com uma nova e incômoda convicção, a de me ter tornado velho de um golpe, de um tranco só.

A vida toda havia pensado que na velhice teria de amarrar as pontas do meu passado de guri deslocado, criado parte do tempo na campanha gaúcha, onde era visto como urbano, até maturrango, parte do tempo na cidade, onde era suspeito de ser grosso, um tímido e simpático guascão.

Cresci na fronteira com o Uruguai dos tuparamos, dos 33 valentes orientais e dos panchos calientes pensando em partir, sabendo que um dia iria embora para cumprir o que sentia instintivamente como minha obrigação e fatalidade. Assim seria a minha trajetória, sempre meio de lado, de viés, em diagonal, torto.

As últimas folhas das árvores amarelavam o chão do Quartier Latin como se fossem um tapete para amaciar a dureza dos meus passos e dos meus pensamentos.

Era estranho estar ali e, como tantas outras vezes, pensar em Palomas, na Florentina, na Madureira, no Upamaroti, enfim, nesses lugares que tinham marcado a minha infância com a crueza das paisagens rurais da fronteira oeste do Rio Grande do Sul.

Desde muito cedo eu sabia que não viveria como um gaúcho de cepa, cujo exemplo era meu pai, o Cabo Vito, nem como um homem da cidade. Sem qualquer poesia, eu teria pela vida toda a campanha, o pampa, na alma e a alma no pampa.

Um ser de transição. 

Sem prestar atenção no caminho, por onde me acostumara a andar nos últimos trinta anos, me vi às margens do Sena. Afastei os pensamentos com alguns minutos de contemplação da reconstruída Notre-Dame, exposta, ao fundo, como uma imagem imponente de si mesma. Depois, escolhi a minha esquerda e fui me perdendo entre os bouquinistes, os livreiros da beira do rio. Soprava um ar frio, embora suportável, longe dos dias gelados que logo chegariam, e eu me sentia tranquilo para bisbilhotar caixas que muitas vezes me deixavam indiferente. Foi nessa distração que encontrei uma edição francesa de Don Segundo Sombra, traduzida por Marcelle Auclair, de 1932.

Não pechinchei sem achar caro, emnbora acima das minhas despesas corriqueiras. Paguei e procurei o café mais próximo para mergulhar no passado. A leitura do livro de Ricardo Güiraldes, quando eu tinha 17 anos, havia me deixado catatônico: eu me via em cada episódio narrado e, ao mesmo tempo, fora de todos eles. Poucos livros me impressionaram tanto, poucos livros me arrancaram tantas releituras, poucos livros me fascinaram assim.

Não percebi que me instalara no Café Ao Sul.