Confira todos os textos da edição #325
- A cidade inventada por suas canções, por Alex de Cássio
- Complexo de Ismene, por Paulo Damin
- Os 400 anos das Missões Jesuíticas: o Rio Grande Guarani, por Artur Barcelos
- O rock gaúcho - Parte VII, por Arthur de Faria
- Milton Santos, geógrafo pensador do Terceiro Mundo, por Breno Pedrosa e Paulo Soares
- Minha mãe é professora... De português, por Bruno Negrão
- Mateando em Paris, por Juremir Machado da Silva
- Entre o mundo e eu – Capítulo V, por Marlon Pires Ramos
- O velho Beco do Rosário como leitura para vestibulandos na USP – Entrevista com Ana Luiza Koehler, por Luís Augusto Fischer
- Porto Alegre, 1912 – Miguel Weingartner, de cartunista a conselheiro municipal pelo PRR, por Arnoldo Doberstein
- Cordel do Corte Raso – Capítulo 4, por Gonçalo Ferraz
Nos dias atuais está em voga, na Universidade, a valorização das chamadas teorias pós-coloniais, uma tentativa de compreensão dos processos de dominação exercidos pelas metrópoles para com suas colônias e, posteriormente, dos países ricos sob os pobres. Contudo, já na década de 1970, o geógrafo baiano Milton de Almeida Santos (1926-2001) dedicou parte de sua trajetória intelectual para compreender a especificidade do, então, chamado Terceiro Mundo, que englobava países pobres que, geralmente, haviam sido colonizados. Problematizando teorias, conceitos e interpretações que advinham dos grandes centros universitários do mundo, Santos foi partidário da análise detalhada e exaustiva da realidade das grandes cidades de países da América Latina, África e Ásia.
Um marco importante dessa preocupação, certamente, foi sua tese de doutorado sobre o centro de Salvador, em que ele explorou o processo histórico de formação da capital baiana, com especial atenção às áreas onde se concentravam serviços e o artesanato. Posteriormente, Santos, ligado a Jânio Quadros, o acompanhou durante seu mandato como presidente do Brasil em algumas visitas oficiais a Cuba e a países africanos. Talvez essa tenha sido uma situação que teria instigado o jovem geógrafo a fazer uma comparação entre Salvador e as cidades latino-americanas e africanas. Tristemente, em função de suas relações políticas, Santos foi um dos perseguidos de primeira hora após a instauração do regime militar de 1964. Sua prisão causou comoção entre a comunidade intelectual soteropolitana, e, solto, o geógrafo vai para um longo período de exílio que duraria de 1964 a 1978.
Esse evento tem dois efeitos. O primeiro é que Santos teve a oportunidade de transitar pelas principais universidade do mundo na França e nos Estados Unidos, além de participar de grupos como o IEDES (sigla em francês para Instituto de Estudos de Desenvolvimento Econômico e Social) da Universidade de Paris I, o que o colocou em contato como uma série de especialistas sobre os países do Terceiro Mundo. Em segundo lugar, o exílio também permitiu que, em diversas ocasiões, nosso geógrafo estudasse e transitasse por países latino-americanos e africanos, além de ter trabalhado na Universidade Dar-es-Salaam, na Tanzânia.