Há dois textos de Freud – Psicologia das massas e análise do eu (1921) e Mal-estar na cultura (1930) – que são fundamentais para elaborar uma leitura psicanalítica possível sobre a formação das tiranias (massas e líderes autoritários) que esgarçam o tecido simbólico, fazendo com que a violência, necessariamente recalcada, retorne como força destruidora dos laços sociais (segregação, racismo, misoginia). Vale lembrar que a produção de Freud no século XX foi atravessada por duas guerras mundiais e pelo surgimento de duas tiranias: o nazismo e o fascismo.
No texto Mal-estar na cultura, Freud analisa o conflito estrutural entre a pulsão de vida e a de morte. Nesse sentido, a cultura nasce como uma forma de deter a agressividade, porém nunca irá eliminá-la. Freud esclarece que a violência não desaparecerá, mas poderá ser recalcada, deslocada e até mesmo canalizada. Em resumo, quando a contenção simbólica esgarça ou falha, a pulsão de morte (destrutiva) retorna com a roupagem da barbárie.
Em Psicologia das massas e análise do eu, Freud demonstra que a organização de massas em torno de um líder autoritário se dá não apenas pela manipulação ideológica, mas por laços libidinais. A obediência é sustentada por um mecanismo psíquico central: a substituição do ideal do eu por uma figura externa que encarna a autoridade, a força e a promessa de proteção. Desse modo, a tirania encontra seu funcionamento não apenas na política, mas no próprio desejo humano.
Hitler, Trump e Putin, cada um em seu contexto histórico, funcionam como personagens de um ideal do eu coletivo. Eles são autoridades governamentais que encarnam uma fantasia de poder, força, de “homens de bem” e onipotência. Há sempre em seus discursos a promessa da restauração da ordem que fora perdida. Aliás, eles nomeiam os inimigos e autorizam a violência pelas massas.
Freud insiste que a civilização precisa renunciar aos “mandatos pulsionais”. O obstáculo é que a promessa autoritária transmite o contrário: o nacionalismo travestido de violência, a chamada “salvação nacional”. A banalização da violência que mascara o crime.
Desse modo, a massa identificada ao líder, ao ocupar uma posição infantilizada em relação a um pai primordial (autoritário), acredita nessa resposta mortífera ao desamparo estrutural, como se o sujeito encontrasse um lugar simbólico no laço social. Uma identificação que se funde com o tirano. A subserviência é experimentada como uma condição para viver. A obediência é vivida como virtude.
Enfim, é preciso lembrar que o tirano não cria a violência, ele a organiza ao ocupar o lugar do ideal do eu de uma massa que abriu mão de seus ideais para ser amada e protegida pelo líder autoritário. A violência não é oposta à civilização, ela é sua sombra eterna.