Pesquisadora da presença negra no espaço urbano de Porto Alegre, Daniele Machado Vieira tem se dedicado à construção de uma cartografia de territórios historicamente ocupados por mulheres e homens negros, resgatando a memória de espaços como o Areal da Baronesa, a Colônia Africana, a Ilhota e a Redenção. O mergulho em mapas, documentos, jornais, fotografias, crônicas e outras fontes revelou detalhes inéditos sobre o processo de desmantelamento e deslocamento das populações negras para as bordas da capital, cada vez mais longe do Centro Histórico.
“É uma história de dor e é uma história de perda de memória”, diz a geógrafa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), uma das entrevistadas do terceiro episódio do podcast O Fim do Futuro, parceria entre a Matinal e a Vós, disponível nas plataformas de áudio a partir de amanhã, dia 14 de maio. Na conversa com o jornalista Filipe Speck, Daniele fala sobre o processo de expansão da cidade e a remoção paulatina de populações negras para bairros distantes.
Para ela, a inundação de maio do ano passado nos ajuda a resgatar um pouco dessa geografia antiga da cidade, que passou por profundas transformações desde o tempo colonial, com abertura de ruas, canalização de rios, criação de aterros e outras obras.
Abaixo, alguns trechos da conversa:
Colônia Africana
A enchente nos rememorou uma geografia antiga da cidade, nos fez lembrar que a Ponte de Pedra não é só um enfeite, que ela tinha uma função na geografia da Porto Alegre do século 19, quando a cidade se expande e forma uma espécie de cinturão ao redor do centro. Um cinturão empobrecido e majoritariamente negro. O mapa de 1888 já traz dois desses antigos territórios negros delineados, a Colônia Africana e o Areal da Baronesa. Até 1950, a cidade acabava na Praia de Belas, então essa configuração não é algo de um passado tão longínquo.
Ilhota
Onde está hoje o ginásio do Tesourinha era a Ilhota, um território negro que passou por um processo de remoção para a área do bairro Restinga, à época um lugar distante e sem estrutura. Moradores não tinham escola, não tinham posto de saúde e estavam longe do emprego. Tudo isso é violento. E isso aconteceu em 1968, na época da Ditadura Militar, então não era simples se revoltar.
Arroio Dilúvio
Após a enchente de 1941, o Arroio Dilúvio começa a ser canalizado, pois era um ponto de repetidos alagamentos. Essa obra possibilitou dotar a área de infraestrutura, de uma série de equipamentos urbanos, o que daria uma vida tranquila para as populações negras que viviam ali. Mas não foi isso que aconteceu. Conforme apareceram as melhorias, essas populações começam a ser paulatinamente deslocadas por meio de diversos mecanismos, como o aumento de aluguel, por exemplo.
O Guaíba
É uma cidade que se expandiu e que cresceu sobre o rio. E foi muito triste ver ela sendo ocupada. Não queria concordar com isso, mas vimos o rio voltando ao seu curso natural. O mapa que eu desejo para daqui a 30 anos é de uma cidade solidária, onde pessoas não precisem ser removidas de seus lugares para dar lugar a outras. A gente não pode simplesmente alterar os lugares, pela sua população ou pelas suas práticas, com empreendimentos novos, com novos moradores que simplesmente desconhecem a vida daquele lugar, com o originário passando a ser um estranho.
Ouça o podcast: