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Só sei viver em esquinas

[Instrução de uso: leia ouvindo Nascente] 

Só sei viver em esquinas
Fotos: Acervo pessoal

Na infância, antes de decifrar os ponteiros, aprendi a mensurar o tempo pelos sons que a cada meia hora se impunham na casa do Partenon. O relógio capela comprado na Casa Masson não ficava na sala, mas a poucos passos do quarto dos meus avós. Uma batida nas meias horas. Nas horas fechadas, o martelo vibrava as cordas quantas vezes fossem necessárias para traduzir a idade do tempo. Depois da meia-noite e suas intermináveis doze batidas, Cronos me prendia.

0h30

1h

1h30

Na casa da minha infância, apenas às duas da madrugada eu conseguia me libertar do tempo represado.

Na adolescência, aprendi a medir o tempo com as floradas das árvores. Meu primeiro relógio eu ganhei no estacionamento do Jornal do Comércio, na João Pessoa. Teve uma promoção na semana da primavera, e eles distribuíam mudas. Peguei dois ipês amarelos e plantei no pátio da casa do Partenon. Um na frente, outro no lado. Depois que a casa da esquina deixou de pertencer à família, em algumas noites de setembro eu dirigia até ela. Estacionava o carro e por alguns segundos, ou minutos, não sei precisar, relógios digitais são insuficientes, por breves instantes apoiava a cabeça na direção e ficava olhando o tempo desabrochado nas minhas árvores, na casa que não era mais nossa.

Hoje, quando o tempo parece um cálculo imperfeito de ausência e saudade, acompanho os botões do ipê amarelo que plantei no jardim do edifício onde moro, numa esquina, porque só sei viver em esquinas. Estão inchados, prenhes de tempo. Algumas pétalas já romperam o tecido aveludado. Ipês florescem porque acham que morrerão. Esse gesto agônico garante a vida que virá nas sementes que o vento espalhará.

Setembro acabou de começar, os ipês querem viver, e eu não desisti.

 

 

Vitor Necchi

É escritor e jornalista.

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