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O mundo em que vivemos

Edição #318

O mundo em que vivemos
Stop war | Foto: Banksy.co.uk

Nem Ucrânia ainda ocupada, nem Irã se defendendo de Israel e dos EUA e atacando, nem guerras civis ou militares na África, ou Cuba pelas caronas, nada disso, ainda que tudo isso seja, para milhões de pessoas que querem se alimentar e ser felizes mas não podem, uma realidade imediata, irrecusável, atordoante, mortífera.

Vou logo para um percentual: no ensino à distância, o EAD, já majoritário no ensino superior no Brasil, contexto infernalmente picareta – ressalvadas as escassas exceções de praxe – neste exato contexto houve 41,6% de desistências por parte dos alunos, segundo o levantamento mais recente, de 2024. Livre mercado.

Aí salto para a revelação da identidade individual, para a identidade CPF, do artista Banksy, presença maior no debate sobre arte no mundo em que vivemos. Pela segunda vez uma reportagem chega ao nome de um certo Gunningham, de Bristol, Inglaterra. É importante essa revelação? Eu cá pensando que sim para conversar com ele, saber como é que ele bolou as tantas maravilhas que já fez. Mas é porque só com esse nome oficial se poderá certificar a autoria de algumas obras tidas como dele. Certificação que é essencial para vender as obras. O mercado.

Atravesso a rua para a entrevista com Dara Khosrowshahi, presidente do Uber, o dono da poha toda, iraniano emigrado para os EUA. Simpático, articulado, declara-se cumpridor das leis sejam elas quais forem. Diz que uns 85% dos brasileiros (entre os quais o acima identificado) já usaram seus serviços. E observa que o Brasil é o país onde mais corridas o Uber faz em todo o planeta. O planeta.

Pego um jatinho e vou para a Flórida, que se chama, na língua espanhola em que a palavra nasceu, Florida, exatamente igual ao nome daquela pracinha do Floresta, ali na Farrapos. Fico sabendo que Martha Graeff, namorada ou ex do notório Daniel Vorcaro, quase foi beneficiária de uma mansão adquirida por lá por uns 85 milhões de dólares. Era, pelo que leio, uma jogada para botar uma graninha assim fora do alcance da justiça. Ela teve dúvidas sobre o que significava. E, como se fosse eu quando quero ajuda numa tradução encruada, ela foi ao Chat GPT em busca da resposta para a dúvida sobre o que significava ser beneficiária da estrutura que o amado estava bolando para a operação. Não aos seus advogados, mas ao Oráculo. 

Me recolho à insignificância ao me dar conta de uma ausência eloquente, no noticiário atual: um total de zero políticos ou personalidades da província de São Pedro é mencionado nas notícias sobre o andamento das coisas relevantes do país. Nenhum senador, deputado, nem o governador e eterno candidato, nota de pé de página piedosa, empresário grande. O Rio Grande amado quieto, sem voz.

Luís Augusto Fischer


Nesta edição

A começar por uma efeméride, sem comemorá-la: em Nosotros, los cretinos de siempre, o produtor cultural Carlos Villalba escreve sobre o golpe militar na Argentina, deflagrado há 50 anos.

Outro acontecimento recente e horroroso – além daqueles que despertaram a atenção de Fischer, logo acima – foi a cena em que, na Assembleia Legislativa de São Paulo, a deputada Fabiana Bolsonaro (PL), se pintou com tinta preta em um ato racista. A situação ganha análise de Márcio Chagas e Thiana Orth em Entre a tela e a tribuna, o racismo segue sendo espetáculo.

Para aliviar as coisas, trazemos ensaio de Arthur de Faria para a série Disco a Disco, sobre a obra de Chico Buarque. Por um tempo, o projeto ficará de molho, enquanto os autores (Luís Augusto Fischer e Arthur), se dedicam a outras iniciativas. 

Quem também se despede, por ora, é Carlos Gerbase. Na última crônica da série Histórias de Autógrafos encontra-se a obra O sensual adulto, de André Czarnobai.

Lucas Luz apresenta o terceiro texto em que conta a história do projeto Gema, agora com foco no encontro com o músico Juliano Trindade “Bonitinho”, e Marina Ruivo segue narrando a trajetória do jornalista Carlos Heitor Cony.

Em um baú mais literário, ensaístico e poético: Helena Terra compartilha o oitavo capítulo do folhetim A medida das coisas humanas; Marco de Menezes leva o leitor para passear com poesia e imagens em Um tigre em Manoel Viana; Evandro Machado Luciano mergulha na própria memória, entre a infância, o racismo e a vontade de ser escritor e Fernando Seffner fala do Efeito dito natural, e inesquecível; a finalera é com o poema Ode Fálica, de Walmir Ayala, de 1968.

Boas leituras!