Confira todos os textos da edição #318
Nosotros, los cretinos de siempre, por Carlos Villalba
Entre a tela e a tribuna, o racismo segue sendo espetáculo, por Márcio Chagas e Thiana Orth
Histórias de Autógrafos: André Czarnobai em “O sensual adulto”, por Carlos Gerbase
O efeito dito natural, e inesquecível, por Fernando Seffner
Sobre as origens, por Evandro Machado Luciano
Um álbum duplo, por Arthur de Faria
Projeto Gema – Dez anos: Ato III, por Lucas Luz
Cony 100 anos – Uma coisa diferente, por Marina Ruivo
A medida das coisas humanas – Capítulo 8, por Helena Terra
Um tigre em Manoel Viana, por Marco de Menezes
Ode Fálica, de Walmir Ayala
Quem diria que uma apresentação musical no presídio pudesse ser concorrida como um show internacional no Beira-Rio! Por pouco não fiquei de fora. Depois de eu muito implorar, uma assistente social avisou que a direção havia liberado a minha entrada. “Mas, por favor, não converse com ninguém, nem com os músicos nem com as suas alunas”, ela me disse. Cumprimentá-las, posso?, perguntei, certa de que ela diria que sim. Deu de ombros, meio no padrão Tati, o que interpretei como um mantenha-se silenciosa e invisível.
Minha percepção de invisibilidade se transformou desde que comecei o projeto. O apagamento é geral entre as mulheres que cumprem pena. Minhas alunas não conseguem usar essa palavra. Talvez não faça parte de seu vocabulário. Talvez ela doa demais. O fato é que, aos poucos ou nem tão aos poucos, todas as encarceradas desaparecem de si mesmas, ou despem-se, como se as identidades que tinham no lado de fora fossem uma peça de roupa e pudessem também ser uniformizadas. O tratamento é igual para todas. Ninguém escapa das mesmas rotinas, dos mesmos vazios, dos mesmos não tenho mais uma profissão, não faço nada, cumpro pena. Exceto Janaína com sua pseudocarreira de bibliotecária.
Eu não tinha me dado conta de como nos identificamos a partir do que fazemos. Você trabalha em quê? O que você faz? Esse tipo de pergunta está sempre entre nós, e com tanta força, que a maior parte pouco consegue dizer algo sobre si mesma sem recorrer à sua experiencia profissional. Eu tentei me definir sem usar a mínima informação curricular. Não tive sucesso. Sucesso é uma palavra sem significado em um mundo sem trabalho. E um mundo sem trabalho é um mundo mais vulnerável. Entre as paredes de uma penitenciária, a fragilidade, apesar das grades, dos muros, das portas de ferro, dos detectores de metais, é gritante. Parece que tudo, inclusive nós, pode ruir a qualquer momento.