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Sobre as origens

Parêntese #317

Confira todos os textos da edição #318

Eu devia ter uns doze anos, talvez onze. Dia de sol, calor, final de dezembro. Era uma tradição daquela escola fazer um grande passeio no fim do ano para comemorar que todos seguiram vivos ao final de uma jornada letiva anual, sobretudo as professoras. Naquele ano, especificamente, eu tinha mais comemorações. Iria tocar em frente os estudos, romper com um paradigma familiar, seguir para uma escola maior, apostando num futuro menos oneroso que o de meus antepassados. Teria muitos aprendizados pela frente. Então, comemorava duplamente: minha vida até ali, e a vida que projetava adiante. 

Ela se chamava Jéssica e era filha do dono da distribuidora de esterco mais famosa da vila, o que lhe trazia atributos pouco atraentes, por mais que eu a achasse bela. Combinamos de nos beijar no tal Sítio da Bebel, durante o passeio. Um espaço retirado na cidade, destinado a receber pentelhos de todas as escolas do município na mesma semana, o que possivelmente era muito mais do que a capacidade do lugar permitia. O que também significava que a estrutura, limpeza, organização e manutenção do balneário ficava comprometida nos dias finais do ano. 

E assim foi. Tecnicamente, foi mais parecido com uma cena em que duas crianças brincavam de aposentar sua latência sexual. Bocas que se encontram e se tocam, submersas na piscina junto a uma centena de outras crianças, que na tenra idade ainda não dominam completamente seu aparelho urinário.