Eu ia escrever sobre o Ramagem, juro. O sujeito fugir para outro país e ser pego por uma infração de trânsito é mais que amadorismo, é burrice da braba. Se tem coisa que um fugitivo precisa fazer é andar na lei. Ora.
Só que na minha casa tem um movelzinho com fotografias, muitas fotografias. Estavam tão atiradas e há tanto tempo que começou a me bater o remorso pela bagunça. As fotos vão estragar, o passado vai se perder, etc., etc., etc. O remorso encontra as razões mais racionais para atacar o coração de alguém. O problema é que a hora de botar a mão na massa nunca parecia boa. De noite não, melhor com luz natural. Mas de dia sempre tem algum texto atrasado para entregar – o da coluna, por exemplo. O final de semana seria perfeito, só que depois de trabalhar a semana inteira existem coisas mais urgentes para se fazer em uma casa. Então, como quase sempre é regra, o destino decidiu pelo procrastinador. Vergado pelo peso de caixas e caixas de fotos, o velho móvel desabou. O momento ideal, enfim, havia chegado.
Mas quem é mesmo essa gente amarelada que me olha de dentro dos álbuns? Não conheço ninguém. Boa parte das fotos faria a alegria dos restaurantes italianos que usam retratos de casais e famílias na decoração das paredes. Deviam ser da minha avó, passaram para a guarda da minha mãe e acabaram descuidadas por mim. São muitos os retratos de mulheres que não sorriem, quase todas com uma dedicatória caprichada no verso. Com a amizade da Dolores. Com a admiração da Eulália. Com carinho da Isaura. Pessoalmente, jamais daria uma foto minha de presente, ainda mais se tivesse amizade, admiração e carinho pelo destinatário.
Vencida esta etapa, chegou a parte boa: organizar os conhecidos em novas e mais caprichadas instalações. São tantos os bebês gordões que dá para entender porque o móvel não aguentou o peso. Minha mãe vencendo um concurso de miss, era bonita, a diaba. Uma senhora de idade agarrada nas duas orelhas do meu jovem pai. Um tio com um bigode que faria a alegria dos modernos de hoje, outro de pantalonas e chinelo de couro. Os avós que sempre pareceram velhos, até quando moços. Meu irmão aos três anos de sunga, a única que ele usou na vida — e forçado por mim, até hoje ele me culpa pelo vexame. As três irmãs sempre de roupa igual, só mudava a cor. Fotos do primeiro dia de aula, marchando no 7 de Setembro, da Primeira Comunhão. Churrascos em família. O filho em todas as poses de super-heróis de todos os universos.
Eu ia escrever sobre o Ramagem, juro. Mas às vezes a história da gente parece mais reconfortante que as tretas da porta para fora.