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RegeneraRS quer financiar soluções climáticas construídas com populações afetadas

Fundo lançou edital em busca de ações para mitigar efeitos das chuvas do El Niño. Mais de R$ 3,2 milhões serão destinados ao RS

RegeneraRS quer financiar soluções climáticas construídas com populações afetadas
Foto: Cristiano Rangel / Regenera RS

Criado a partir de uma parceria entre Gerdau e Vale e surgido depois das inundações de maio de 2024, o RegeneraRS almeja viabilizar soluções em adaptação e mitigação climática. Em pouco mais de dois anos, já aplicou R$ 40,5 milhões em projetos do tipo e ainda há mais recursos a serem liberados: o grupo lançou o edital Teia – Sprint Água, iniciativa da Fundação Grupo Boticário, BRDE e RegeneraRS, que destinará até R$ 4,2 milhões para projetos de prevenção e mitigação dos impactos das chuvas intensas, proteção da biodiversidade e fortalecimento de organizações que atuam na linha de frente da resposta aos eventos climáticos extremos provocados pelo El Niño. 

Em conversa com a Matinal, a coordenadora do RegeneraRS, Manuela Fonseca, contou que o fundo busca projetos para ampliar a participação social na construção de soluções para a adaptação climática. “As comunidades que vivem nos territórios mais vulneráveis ainda são vistas apenas como beneficiárias das políticas, quando, na verdade, precisam ocupar um papel de protagonistas nesse processo”, disse. “Quando as soluções são construídas junto com os territórios, elas geram mais confiança.”

As propostas para o edital devem ser enviadas até o próximo dia 3. Do montante a ser disponibilizado, mais de R$ 3 milhões serão destinados a iniciativas em solo gaúcho, segundo o RegeneraRS. Interessados devem enviar a proposta a partir deste link. De acordo com o regulamento, conforme a categoria, podem se inscrever pessoas jurídicas públicas ou privadas – com ou sem fins lucrativos –, além de empresas especializadas. É necessária a vinculação da atividade com a preservação ambiental ou conservação da natureza. 

Leia a entrevista 

Matinal: Como ocorre o trabalho do RegeneraRS?
Manuela Fonseca:
O RegeneraRS atua como um fundo catalítico, mobilizando capital financeiro e social para apoiar a reconstrução e a regeneração do Rio Grande do Sul. Na prática, isso significa conectar diferentes atores, sociedade civil, empresas, universidades, poder público e organizações; e direcionar recursos para iniciativas capazes de gerar impacto estruturante e fortalecer a resiliência dos territórios.

O trabalho também envolve identificar demandas, apoiar organizações que já atuam nos territórios e construir parcerias para transformar recursos em soluções concretas. Um exemplo é a parceria com a Fundação Grupo Boticário e o BRDE no Sprint Chuvas do El Niño, que prevê até R$ 4,2 milhões para ações de prevenção e mitigação dos impactos das chuvas intensas, proteção da biodiversidade e fortalecimento de instituições que atuam na linha de frente dos eventos climáticos extremos.

Desde sua criação, o RegeneraRS já mobilizou mais de R$ 409 milhões para iniciativas de impacto, com R$ 40,5 milhões deliberados para projetos.

Matinal: Ao longo do trabalho, existe algum campo em que você percebeu uma carência maior? Qual?
Fonseca:
Uma das principais lacunas que identificamos é a necessidade de fortalecer a participação social na construção das soluções para adaptação climática. As comunidades que vivem nos territórios mais vulneráveis conhecem profundamente sua realidade, seus riscos e suas potencialidades, mas muitas vezes ainda são vistas apenas como beneficiárias das políticas, quando, na verdade, precisam ocupar um papel de protagonistas nesse processo.

Também percebemos que é fundamental ampliar as capacidades das organizações comunitárias e das lideranças locais, que são as primeiras a responder em momentos de emergência e que exercem um papel decisivo na prevenção e na mobilização das pessoas. Quando as soluções são construídas junto com os territórios, elas geram mais confiança, fortalecem o engajamento da população e têm muito mais potencial de produzir resultados duradouros.

É justamente essa lógica que orienta o Sprint Chuvas do El Niño. Além de apoiar iniciativas voltadas à conservação da biodiversidade e à adaptação climática, buscamos fortalecer organizações e lideranças que já atuam nos territórios, reconhecendo que são elas as protagonistas da construção de comunidades mais resilientes.

Matinal: A participação no POA Climate Action Week viabilizou mais apoios a projetos?
Fonseca:
Sem dúvida. A POA Climate Action Week é um espaço que fortalece conexões entre organizações, financiadores, poder público e lideranças dos territórios, mas, principalmente, valoriza a construção coletiva das soluções. Mais do que apresentar projetos, é uma oportunidade de ouvir quem vive os desafios diariamente e construir respostas em conjunto com essas comunidades, que são protagonistas da agenda de adaptação climática.

O objetivo é apoiar projetos que nascem dos territórios ou são construídos em diálogo com eles, fortalecendo organizações locais e soluções capazes de ampliar a resiliência das comunidades frente aos eventos climáticos extremos. Acreditamos que a adaptação climática só acontece de forma efetiva quando as pessoas deixam de ser apenas destinatárias das políticas e passam a participar ativamente da definição, implementação e acompanhamento das soluções que impactam seus próprios territórios.

Matinal: O fato de o evento ocorrer em um novo momento de atenção por conta das chuvas ajudou a construir mais entendimentos? Depois da enchente de 2024, já há uma consciência da relevância do assunto?
Fonseca:
A enchente de 2024 deixou muito clara a urgência da agenda climática no Rio Grande do Sul. Não começamos essa conversa agora: a tragédia já produziu uma consciência muito forte sobre a necessidade de preparação, prevenção e resposta mais coordenada.

Ao mesmo tempo, a possibilidade de novos eventos extremos mantém o tema em evidência e ajuda a transformar essa consciência em ação. O desafio agora é não trabalhar apenas depois que a emergência acontece, mas fortalecer continuamente a capacidade de prevenção, adaptação e resposta dos territórios.

Por isso, encontros como a POA Climate Action Week são importantes: eles ajudam a conectar os aprendizados de 2024 com iniciativas concretas para o futuro, reunindo diferentes setores para discutir governança, financiamento, inovação e o protagonismo das comunidades na prevenção e na resposta aos eventos climáticos extremos.

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Tiago Medina

Tiago Medina

Jornalista cofundador da Matinal, repórter e editor. Especialista em Jornalismo Digital e mestre em Planejamento Urbano e Regional (Propur/UFRGS). Ciclista, vencedor na categoria imprensa do prêmio CAU/RS 2024. Contato: tiago@matinal.org

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