Nascido em 1967, em São Gonçalo, no Rio, Marcelo Freixo cresceu no bairro do Fonseca, em Niterói. Historiador, consolidou sua trajetória social com a educação popular em presídios e mediação de rebeliões. A entrada formal na política ocorreu em 1996, quando concorreu a vereador em Niterói pelo PT. Posteriormente, trabalhou como assessor parlamentar de Chico Alencar na Alerj.
Em 2006, foi convidado a fundar o PSOL e disputar uma vaga como deputado estadual. Um evento trágico marcou esse período, que Freixo narra no livro da obra “Viver é perigoso: minha travessia no Rio” (Editora Planeta): o assassinato de seu irmão, Renato, por milicianos em julho daquele ano, meses antes da eleição.
Apesar do luto, manteve a candidatura como um compromisso contra a violência. “Eu estava na ponta, senti também o outro lado, o assassinato de um irmão. Sei o que é falar de segurança para uma família dilacerada”, descreveu na entrevista ao Matinal do hotel onde estava hospedado, em Porto Alegre.
Freixo estava na capital para o lançamento da obra em que conta como investigou as milícias quando elas ainda nem eram reconhecidas pelo nome. “Viver é perigoso” também consolida uma parceria de quatro anos entre Freixo e o jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso, autor de “República das Milícias” (Todavia, 2020) e “A Fé e o Fuzil” (Todavia, 2023).
Nesta entrevista, ele conta o Rio não instagramável, relembra o assassinato de Marielle e como a esquerda precisa debater segurança pública.
Abaixo, os principais trechos da entrevista editada para fins de clareza.
Matinal – Por que você tomou a decisão de escrever um livro?
Marcelo Freixo – Vivi muito intensamente o Rio de Janeiro nos últimos 20 anos, mas o livro reporta um tempo anterior. Muita gente falava: “Poxa, tem que ter um livro”, mas eu nunca fui muito certo dessa ideia. Depois da pandemia, o Bruno [Paes Manso] me procurou e surgiu a ideia de fazermos juntos. Conheci o Bruno no “República das Milícias” (Editora Todavia, 2020), um livro muito importante para a questão da segurança pública no Brasil, especialmente no Rio. Estou no livro dele. Depois ele fez “A Fé e o fuzil” (Editora Todavia, 2023). Confio muito no Bruno, a gente se dá muito bem. Brinco dizendo que a relação mais estável que tenho é com o Bruno. E aí ele falou: “Cara, vamos vamos tentar”. A [editora] Planeta topou, mas ficamos quatro anos fazendo esse livro. É um livro com muita responsabilidade, porque, em nenhum momento queremos piorar a situação do Rio, muito pelo contrário. A ideia do livro é dizer que o Rio tem saída, que o Rio tem solução. Sou muito apaixonado pelo Rio e foi bom o Bruno ser um paulista, porque equilibra um pouco essa relação de paixão – porque as paixões são sempre perigosas.
É um livro muito verdadeiro, muito intenso, mas é um livro que acredita no Rio. Porque o Rio está em disputa. Você não vai ganhar aquilo, você não vai mudar aquilo que você não reconhece. E o Rio não é instagramável sempre.
O Rio tem uma parte não instagramável, o Rio tem uma parte que não cabe no cartão postal. É sobre esse Rio que a gente mergulha, mas ao mesmo tempo apontando saídas e caminhos para essa travessia.
Matinal – Você comenta no livro que o assassino de Marielle Franco, Ronnie Lessa, não era um psicopata, era um cara assustadoramente normal dentro de uma cultura de “banalidade do mal”, trazendo o conceito da Hannah Arendt. Como ter essa percepção dos criminosos pode alterar a forma como o estado deve combater o crime organizado? Esse entendimento ajuda a traçar estratégias para esse combate?
Freixo – O livro começa com o julgamento do Ronnie Lessa. A gente fez questão de começar com isso. Tudo foi muito discutido. Se começávamos com a morte do meu irmão – tive um irmão assassinado pela milícia. Mas a gente achou que era importante começar pelo julgamento do Ronnie Lessa, não só pela questão da Marielle [Franco].
Tem um capítulo sobre a Marielle, que não é esse. Eu não quis tratar a Marielle pela sua morte, eu quis tratar a Marielle pela sua vida e pela sua força. A Marielle foi uma pessoa muito presente, muito importante na minha vida. A gente trabalhou juntos por dez anos. A gente não era só companheiros de trabalho. A gente era companheiros de vida. Marielle frequentava a minha casa. Era uma relação muito forte.
Então, o livro tinha que fazer essa homenagem de tratar da grandeza dela e não do fim da vida. Até porque ela acabou ajudando muito em tudo que a gente fez no Rio. Antes e depois, porque a morte da Marielle destampou um bueiro que não estava aparente para alguns no Rio.
É curioso porque o livro começa com uma frase que é da juíza, perguntando ao Ronnie Lessa, se ele estava vendo ela no computador – Lessa depôs preso. Ela pergunta: “O senhor está me vendo?” Achei aquilo muito bom para começar o livro, porque era a primeira vez que o Ronnie Lessa olhava para a justiça. Era a primeira vez que ele sentava no banco dos réus depois de ter matado tanta gente, depois de todo mundo saber que existia o Escritório do Crime (nome atribuído a grupos de matadores de aluguel e milicianos do Rio), depois de todo mundo saber quem era o Ronnie Lessa.
Para você ter uma ideia, quando a Mari morre, eu vou para o local do crime. Quando cheguei lá, ela ainda estava no carro, cheguei com a polícia – eu que avisei a polícia. E o delegado que estava presente, que era o Fábio [Cardoso], um conhecido meu, chegou comigo. A gente não sabia ainda se havia sido assalto, bala perdida, a gente não sabia nada. Não tinha ameaça contra ela.
Mas olhamos e os tiros eram todos sequenciados. Chamei o delegado, falei: “Que informação você tem?” Ele falou: “A informação que tenho é que o atirador não saiu do carro, ele atirou com o carro em movimento.” Chamei ele no canto e falei: “Bom, se esse cara não saiu do carro e atirou em movimento, ele é um exímio atirador.” Porque os tiros estão todos sequenciados, não tem nenhum tiro na parede, os tiros estão todos no carro, ele não errou nenhum tiro.
Aí o delegado olhou para mim e disse: “Marcelo, não tem cinco atiradores no Rio capazes de dar esse tiro.” “Isso é a obra do Escritório do Crime, né?”, perguntei. Ele respondeu: “Com certeza. Tem a assinatura deles.” E aí que entendo que o Escritório do Crime tinha matado a Marielle. Então, assim, é tudo muito forte. É tudo muito denso. A gente tem que combater o crime organizado, entendendo quem é esse crime organizado, onde ele está.
Presidi a CPI das Milícias, presidi a CPI do tráfico de armas. Isso tudo está no livro. Ali tem propostas concretas de enfrentamento ao crime. Você tem que ir no domínio de território, você tem que ir onde o crime se organiza, que são as finanças, é a grana. Crime organizado é sempre uma relação entre grana e poder. Por isso que ele está sempre dentro do estado, não está fora, não tem estado paralelo.
Matinal – Este é outro aspecto que você trata no livro. O que é um estado leiloado?
Freixo – Hoje, o tráfico de drogas é 10% do dinheiro do crime no Rio de Janeiro, 10%.
Não sei se em todo o Brasil, mas, no Rio de Janeiro, 10% da economia do crime está na venda de drogas. Ou seja, se hoje não tiver mais drogas no Brasil, o crime não perde nada. Está tudo está no domínio do território, nos monopólios do serviço. E quem inaugura isso é a milícia.
O tráfico tinha domínio do território para se proteger fisicamente, para vender droga. A milícia nasce com o combate ao tráfico para criar uma ideologia moral, de aceitação, mas ela é feita dentro do Palácio com políticos corruptos utilizando a polícia e dominando territórios e serviços. É a milícia que começa com esse domínio econômico de território e transforma isso em domínio eleitoral.
A milícia é muito pioneira nessa nova organização do crime no Rio de Janeiro. E o tráfico hoje faz a mesma coisa que a milícia. Hoje não tem diferença entre tráfico e milícia nas suas operações financeiras. Hoje, o tráfico elege gente, elegeu o presidente da Assembleia Legislativa – Rodrigo Bacellar está preso, o TH Joias [ex-deputado estadual do RJ Thiego Raimundo dos Santos Silva] Na época da CPI, a gente conseguiu prender milicianos deputados. Hoje são pessoas do Comando Vermelho presas como deputados. Eles ficaram muito próximos em funcionalidade.
Hoje, eles dominam a internet, o gás, a farinha, dominam o monopólio do gelo, eles dominam todos os serviços, o transporte alternativo, todos os serviços daquela comunidade. E, ao dominar serviços, eles dominam o resultado eleitoral também daquele lugar. Então, é o domínio militar, econômico e social. A milícia, por exemplo: todo dono de milícia era dono de um centro social.
Isso a gente descobriu na CPI, por que, como toda máfia, um braço é do terror, e o outro braço é o da assistência. O livro mergulha nisso, este Rio de Janeiro que que não está no cartão postal.
Matinal – As investigações do assassinato da Marielle mostraram isso, em como o crime se infiltrou no sistema e adiou a punição do crime.
Freixo – O chefe da polícia [Rivaldo Barbosa] foi preso por obstrução. Foi o cara que eu liguei para avisar que a Marielle havia sido morta. A primeira pessoa que eu liguei foi ele. Não foi nenhum amigo. A Fernanda era assessora da Marielle e foi minha assessora, ela estava dentro do carro e me ligou.
Então, a primeira pessoa que liguei foi o Rivaldo [Barbosa], que era o chefe da polícia. E o Rivaldo foi preso por obstrução da investigação para não deixar chegar em quem chegou. Então, é muito séria essa relação de crime, polícia e política. “Crime, polícia e política não se separam”, é uma frase que usei na CPI das Milícias em 2008 e volto a usar no livro de novo.
Matinal – Como acabar com essa engrenagem econômica do crime que opera dentro do estado?
Freixo – A CPI das Milícias prendeu todo mundo. Durante a CPI, todos os membros foram presos. Foram 242 prisões. Foi preso deputado, vereador, todo mundo foi preso ali. Todo os líderes de milícias foram presos na CPI. Porque a gente montou uma força-tarefa junto com o Ministério Público, a Polícia Federal e a Polícia Civil – a Draco, a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado. A gente montou uma força-tarefa, criou um disque denúncia e chegou a toda a economia do crime: quem ganhava dinheiro, onde ganhava, quem era o braço político.
O delegado [Alexandre]) Capote, que foi delegado da Draco, falou pra mim o seguinte: “Dez anos depois, ainda uso o relatório da CPI das Milícias para continuar aprendendo miliciano.” Foi um relatório muito contundente. Ali a gente fez 58 propostas concretas para enfrentar a milícia que seguem valendo até hoje.
Primeiro, a retomada de território é uma questão central, não só para devolver dignidade à vida do morador que não tem a Constituição respeitada no seu dia a dia – 4 milhões de pessoas do Rio de Janeiro vivem sob o domínio do tráfico ou da milícia. É muita gente. Você não pode aceitar que 4 milhões de pessoas não tenham uma Constituição valendo é no lugar onde moram. Isso é muito grave. Isso é o crime afetando a democracia. Não afeta só a segurança, afeta toda a democracia.
Então, é desse ponto que a gente trata no livro. E as propostas da CPI das Milícias valem hoje para o tráfico. Tem que haver uma ação coordenada do Governo Federal com o Governo Estadual. É fundamental a Polícia Federal atuar com as polícias, é fundamental a inteligência do Exército atuar junto. É fundamental uma integração de inteligência e de ação, porque o crime do Rio de Janeiro é um crime internacional. O tráfico de armas e munições é nacional e transnacional.
É muito importante que o governo federal possa trabalhar com o governo estadual. Aí mora um problema: você não tem governo no Rio há muito tempo. Você tem oito governadores afastados e seis presos. Então, o Rodrigo Bacellar (hoje preso) seria governador do Rio de Janeiro se não fosse a Polícia Federal – ele era o presidente da Assembleia Legislativa e Cláudio Castro ia sair. Ou seja, um cara eleito pelo Comando Vermelho seria o governador do Rio. Este era o projeto de poder do grupo do Cláudio Castro.
Como é que o governo federal vai trabalhar com um grupo ligado ao Comando Vermelho? A primeira coisa que o Rio de Janeiro precisa é ter governo, porque sem governo como é que você combate o crime? A Polícia Federal não tem policiais suficientes e não é ostensiva. O exército não pode cumprir um papel que não é o dele. Ele nem sabe fazer isso.
Aliás, o Rio é campeão de experiências de ocupação do Exército que deram errado. Eles não sabem fazer isso, não são treinados para isso, o armamento não é próprio para isso. Agora, a inteligência do Exército é útil. O Exército pode ajudar no combate ao tráfico de armas internacionais. Aliás, os Estados Unidos, em vez de ficar decretando o que é terrorista e o que não é, poderiam sentar com o governo brasileiro e combater o tráfico de armas, porque os fuzis vêm de lá.
Nós sabemos o terror que eles provocam. Isso é mais importante do que ficar debatendo conceito ou não de terrorista. Eles representam o terror na vida das pessoas e têm que ser enfrentados. Os Estados Unidos podem ajudar combatendo o tráfico de armas.
Não é quebrando soberania ou entrando nesse debate que não ajuda em nada que a gente vai avançar.
Matinal – Avançou muito depois da CPI, mas faltou alguma coisa? Falta muito?
Freixo – Era o governo Cabral. Entreguei o relatório da CPI nas mãos do Cabral, pessoalmente. Deputado sendo preso, vereador sendo preso. Eu entreguei na mão do Cabral, foi um trabalho da Assembleia Legislativa, não foi só meu.
Entreguei ao Cabral e disse: “você tem medidas a fazer”. Entreguei ao presidente da Câmara, ao ministro da Justiça, que era Tarso Genro na época. Todas as autoridades receberam as 58 propostas concretas. E o Sérgio Cabral fez outra opção, né? Como sabemos. Em seguida, ele foi preso.
Então, não só ele não combateu o crime, como ele acabou se beneficiando desse crime. Esse é um problema da milícia: não é só um grupo criminoso, é um grupo criminoso que elege a gente. A milícia é o primeiro grupo criminoso na história do Rio que entende que o seu domínio militar e o seu domínio territorial pode ser também um domínio assistencial e eleitoral.
A milícia investe na assistência e investe no domínio eleitoral. Ela elege gente. Imagina, fui deputado com o Natalino [José Guimarães], que era o dono da milícia de Campo Grande, chamada de Liga da Justiça, que tinha o desenho do Batman no muro das casas. Fui deputado com ele. Ele foi preso durante a CPI como deputado. O irmão dele era vereador, foi preso durante a CPI das milícias, e os dois eram policiais civis.
Como é que o morador reclama da milícia? Vai na delegacia? Vai no batalhão? Onde você vai? Para quem você liga? Esse é o estado leiloado. São agentes públicos comandando o crime num território.
Tem uma cena sensacional que eu descrevo no livro que tem uma inauguração de uma obra da CEDAE [Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro] em Campo Grande, em que Pezão era governador, e quem inaugura a obra é o Natalino e o Jerominho [Jerônimo Guimarães Filho, um dos fundadores da milícia Liga da Justiça]. Eles inauguram a obra, eles falam no microfone, eles apresentam o governador à comunidade. E eles eram policiais civis, eleitos na região, líderes partidários e donos da milícia, tudo junto. Então, enfrentar o crime organizado é enfrentar o crime organizado dentro do estado. Não tem estado paralelo, tem dois estados.
Matinal – O que vemos no Rio de Janeiro hoje e que tu descreve no livro, isso é fruto das milícias?
Freixo – A milícia nasce no início dos anos 2000. O que o Rio teve antes foram grupos de extermínio, que não têm a mesma natureza da milícia. O grupo de extermínio é de matadores contratados. Por exemplo, a chacina da Candelária, em que mataram várias crianças, foi feita por um grupo de extermínio. Então, eram geralmente comerciantes que pagavam esses matadores.
Mas era um crime menos organizado. A milícia inverte essa lógica. A milícia não é paga por ninguém. Você paga para a milícia, e eles dominam você.
O comerciante, que antes pagava um grupo extremista para fazer um serviço, hoje paga a milícia para não perder o comércio. Porque a milícia domina o comércio. É uma inversão de papéis. Por isso, eu digo que a milícia não vem do grupo de extermínio. Ela é um avanço das relações entre política corrupta, polícia corrupta e domínio de território.
Matinal – A segurança pública permeia todo o debate da CPI e da tua atuação. Hoje ela é muito apropriada pela direita. Como a esquerda pode recuperar essa pauta?
Freixo – Essa pergunta é importante porque reclamo há 30 anos que a esquerda não debate segurança pública. Trabalhei por 29 anos no sistema prisional como professor, mediador de rebelião, presidente do conselho da comunidade. Vou fazer 60 e tinha 22 anos quando entrei pela primeira vez para trabalhar nas prisões.
Eu me formei um militante de direitos humanos e um estudioso de segurança pública não só nas bibliotecas. Eu estive na ponta, trabalhei nas prisões, tive um irmão assassinado. Eu senti também o outro lado, o que é falar de segurança tendo uma família dilacerada.
E eu sempre reclamei muito. Mas entendo o probema. A esquerda brasileira de hoje brota da luta contra a ditadura e se consolida na década de 1980, inclusive o PT. Imagina: você vence uma ditadura, você forma um partido político, o que você vai debater? Educação, saúde, terra, direitos. Você vai debater polícia saindo de uma ditadura?
A esquerda não teve nenhum tesão em debater polícia. Isso virou um grande problema, porque a segurança hoje é o direito humano número 1. Porque se você não tem segurança, você não tem direito à educação, à saúde, a nada – porque você primeiro tem de estar vivo.
A esquerda perdeu muito tempo debatendo coisas excelentes, mas não debatendo segurança. A direita se apropriou desse debate e dialoga com o medo das pessoas, que é um medo legítimo. Sentimos muito mais medo do que coragem. Somos humanos.
E a insegurança é um medo concreto. Você não quer que seu filho ou filha vá para a escola e você não tenha certeza de que ela vai voltar em segurança. Antes de você pensar se a escola é boa ou ruim, você quer que seu filho chegue bem. A segurança precede qualquer coisa.
Como a esquerda não entendeu isso e demorou a debater, perdeu espaço para a direita. A questão toda é que a direita entra nesse debate de uma maneira muito oportunista, muito eleitoreira e sem conteúdo. Porque a direita entra nesse debate através de um personagem lá do Rio de Janeiro, o Sivuca [delegado e deputado estadual, morto em 2021], que falava: “bandido bom é bandido morto”. Ele é um pai do bolsonarismo – acho que o bolsonarismo é anterior e nasce com Sivuca, não com Bolsonaro.
Os valores que permeiam o bolsonarismo – o justiçamento, o castigo físico, a vingança, a tortura, o tronco – vêm lá da colônia, é anterior. E no Rio de Janeiro, o pai disso é Sivuca com “bandido bom é bandido morto”. Qual proposta ele tem? Nenhuma. Qual política pública defendia Sivuca? Nenhuma. Ele dizia o seguinte: mata. Isso dialoga com o sentimento popular. Eu não aguento mais a violência, estou sufocado pela violência, eu quero mesmo que mate. Isso cria identidade com um sentimento popular. Mas isso não é política pública, não é disputa de política pública. Então, a esquerda precisa entrar debatendo eficiência. O que é eficiente?
Por exemplo: disputei uma eleição para governador do Rio de Janeiro com o Cláudio Castro, uma eleição que foi fraudada, anulada agora, mas, no meio daquela eleição, o Cláudio Castro fez uma chacina no Jacarezinho. Ele deu uma entrevista dizendo: “Se eu fizer mais duas chacinas, eu ganho a eleição no primeiro turno”. Ou seja, a chacina vira uma ferramenta eleitoral, não uma ferramenta de segurança pública. A chacina que teve no Rio de Janeiro agora: o que ela mudou? Qual índice de criminalidade foi alterado? Diminuiu o roubo de carga? Homicídio? Furto? Diminuiu o tráfico? Aquela facção ficou mais fraca? Nada. Absolutamente nada.
Então, não tem nenhuma eficiência em termos de segurança pública, mas dialoga com o medo. E, ao mesmo tempo, a direita constrói a ideia de que a esquerda não concorda com isso, então a esquerda protege bandido, direitos humanos são para defender bandido. Porque quem não defende bandido quer matar, nós queremos matar, então estamos do lado do povo – por mais simplista que esse raciocínio da direita possa ser, ele tem eficiência eleitoral. Não tem eficiência na política pública, não vai resolver nada em um, dois, dez ou 15 anos.
Primeiro: a gente não pode mais se esconder do debate da segurança pública. Terão dois debates fundamentais esse ano nas eleições: segurança pública e comunicação. E eles estarão juntos.
Porque a segurança pública hoje também é sensação. Entram dois pontos: temos que discutir seriamente segurança pública e combate ao crime organizado. Acho que o governo federal avançou bem nas suas propostas, mas tem que avançar também na sensação de segurança. Tem um exemplo do Piauí que é muito positivo: através de tecnologia, o estado desenvolveu uma ferramenta que, quando um celular furtado ou roubado é reativado, a polícia entra em contato pelo WhatsApp e informa que ou a pessoa devolve o celular ou será acusada de interceptação.
Eu particularmente acho que furto e roubo de celular mexem muito hoje em dia com a sensação de segurança, porque todo mundo tem celular, é seu banco, suas relações.
Houve uma redução de 88% dos furtos e roubos de celular no Piauí. Isso mexeu completamente com a sensação de segurança da população. E aí, você pode fazer um outro debate mais qualificado de segurança. Porque uma população amedrontada é uma população que não vai debater eficiência, vai discutir vingança.
Matinal – No livro, abordas que tem muita preocupação com o Rio de Janeiro que vai deixar para teus filhos e netos. Você se sentiu amedrontado, ainda se sente? E se pudesse deixar um legado, o que tu gostaria de enxergar no Rio?
Freixo – Primeiro, eu torço para o Rio de Janeiro voltar a ter governo, mesmo que seja um governo que eu critique – seja de centro, até de direita, mas não de extrema-direita. Um governo que tenha república, que debata a segurança pública, um governo com pessoas que não representem o crime. Isso é fundamental. Você tem que fazer uma ponte no Rio de Janeiro hoje, juntar todo o campo democrático para o Rio voltar a ter um governo republicano. O Rio de Janeiro precisa sair da Colônia e entrar na República. Esse é um pacto que o Rio de Janeiro tem que fazer.
Quando o meu irmão foi assassinado, em 2006, eu estava em campanha para deputado e fui eleito naquele ano. Por isso fiz a CPI das Milícias. Foi o primeiro projeto de lei que assinei na vida, com três dias de parlamento. Aquilo mudou a vida do Rio de Janeiro – milícia não era nem crime, não tinha tipificação penal na época, o miliciano era preso em formação de quadrilha. Um monte de gente defendia a milícia, falava que era um mal menor. E a gente muda a opinião pública sobre a milícia, a CPI foi muito pedagógica.
Mas eu paguei um preço muito alto. No Rio de Janeiro, eu tenho muito cerceamento, o que tem a ver com o título do livro. O “viver é perigoso” não é literal – para muitos é, para mim já foi. Mas o sentido é de: o perigo que você escolhe correr, e não o perigo que te imputam na vida. A frase é do Guimarães Rosa, como eu falo na apresentação do livro. É uma escolha.
Tem um perigo que você pode escolher e que vai fazer a sua vida ter mais sentido. Viver, no sentido amplo da palavra, é perigoso por ser vida. Para ter sentido. Em alguns momentos da minha vida, topei correr risco, ainda corro. Senti medo, ainda sinto. Tenho cuidados. Não vou à praia, por exemplo, no Rio. Não é simples isso, mas não posso. Não posso andar sozinho. Tenho escolta, carro blindado, desde 2008. Não é que eu me acostumei, mas eu aprendi a viver assim. E não sei se algum dia será diferente. Minha filha não tem nenhuma memória do pai sem segurança. Tem um preço que se paga por isso.
Mas acho que, assim como Guimarães dizia que a vida exige coragem, o Rio também exige.