Confira todos os textos da edição #328
- A invenção do futebol, por Sergio Faraco
- Nenhum futebol é neutro: o dia em que Maradona venceu a Inglaterra, por Marcelo Argenta Câmara
- A vida cotidiana nas Reduções, por Artur Barcelos
- Muito antes de Trump: a trama milenar entre Armênia e Irã - Parte 2, por Daniel Scandolara
- O rock gaúcho - parte IX, por Arthur de Faria
- Você demitiria um amigo?, por Rafael L. Kasper
- O prazer da escuta, por Chris Cidade Dias
- Cordel do Corte Raso - Capítulo 7, por Gonçalo Ferraz
- Entre o mundo e eu - Capítulo VIII, por Marlon Pires Ramos
- Um Noé de muitos nomes, por Luís Augusto Fischer
Da simplicidade à suntuosidade
“Trinta são os povoados nos quais há cerca de cem mil almas. [...] Todos os povoados estão construídos segundo o mesmo plano. As ruas são retas, com dezesseis a dezoito varas de largura. Não há casa nem quarteirão sem seu corredor de três ou mais varas de largura, de modo que, ainda que chova, pode-se caminhar por qualquer lado ao redor das casas. Iguais são todas as casas dos índios em altura e largura, sendo esta de sete varas em quadro; dentro delas, os dormitórios estão separados por meio de esteiras e couros. Todos possuem leito, não sobre tábuas, mas suspenso. Chamam-no de hamaca [rede], e mede quatro ou cinco varas de comprimento e duas de largura. Também os espanhóis a utilizam. No verão é fresca. No inverno acrescentam uma esteira, ou também brasas por baixo. [...] e assim o fazem no campo, porque, além das casas do povoado, têm suas habitações no campo para cuidar das hortas.”
Essa singela descrição das casas dos Guarani nas Reduções foi feita em 1764 pelo padre José Cardiel. É preciso ter em conta que Cardiel está relatando como estavam dispostos os povoados das Missões 150 anos após aquelas primeiras Reduções que haviam sido fundadas a partir de 1610 no antigo Guairá, ou 140 anos a contar das primeiras Reduções do Tape, iniciadas em 1626.
O que esse trecho nos revela sobe a vida cotidiana nas Reduções? Que apesar de um longo convívio e da implantação de uma malha urbana ordenada, com ruas, praça, igreja e outras edificações, os Guarani preservaram seu modo de habitar tradicional. As casas mantiveram o princípio de coletividade das famílias extensas. As casas amplas foram sendo substituídas por casas compartimentadas, com paredes internas que tratavam de isolar famílias nucleares, de pai, mãe e filhos.