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O prazer da escuta

Parêntese #328

Confira todos os textos da edição #328

Uma música antiga do Cartola diz que os moradores do morro da mangueira não sentem falta de nada, porque a lua, silenciosa, ouve as suas canções. Esse verso faz parte da canção Sala de recepção e me acompanha desde a infância.

Não tinha a dimensão absoluta dessa ideia até experimentar a ausência de escuta e perceber que a exceção é encontrar alguém capaz de nos ouvir. A maior parte das vezes falamos para ninguém. Isso fica claro nos grupos de WhatsApp onde cada um escreve sem ler a mensagem anterior e assim formamos uma onda de desencontros.

Nos mantemos ali, naquele grupo sem rosto, para pertencer apenas. Não para estar ou ser. Pertencer, ao lado da escuta, é o que queremos para ser gente. Está na nossa matriz. E vamos criando ambiente onde isso parece real, mas sabemos que não é. A Inteligência Artificial tem nos enganado um pouco — podemos conversar com ela, mesmo sabendo que sua existência é muito diferente da nossa.