Fundada sete décadas atrás e com atuação marcante no principal evento cultural de Porto Alegre, a Feira do Livro, a Câmara Rio-Grandense do Livro tem, pela primeira vez em sua história, uma mulher à sua frente ao longo do próximo biênio. Roseni Siqueira Kohlmann assumiu o cargo no último dia 1º e já pensa nas marcas que quer deixar: o fortalecimento do livro como instrumento de transformação social.
Para ela, formada em administração e atual gerente editorial da Federação Espírita do RS, a chegada de uma mulher à presidência da CRL representa uma conquista a todas que colaboraram na trajetória da instituição: “A Câmara Rio-Grandense do Livro sempre contou com uma presença feminina muito atuante, competente e comprometida”, disse ela, em entrevista ao professor Luís Augusto Fischer.
Devidamente empossada, Roseni projetou uma expansão da Feira do Livro de Porto Alegre e comentou sobre o desafio de diálogo entre o mercado de livros impressos e digitais, já devidamente estabelecidos, em sua avaliação. “Em um mundo cada vez mais acelerado, o livro segue sendo um espaço de pausa, reflexão, pensamento crítico e construção da cidadania”, apontou ela, que destacou a realização de feiras locais, na Restinga e na Zona Norte, como iniciativas nesta direção.
Leia os principais trechos da entrevista
Luís Augusto Fischer: Como é ser a primeira mulher a dirigir a Câmara Rio-Grandense do Livro, e, portanto, ser virtualmente a primeira mulher a comandar o processo da nossa Feira do Livro?
Roseni Siqueira Kohlmann: Ser a primeira mulher a dirigir a Câmara Rio-Grandense do Livro é desafiador, mas, ao mesmo tempo, representa uma conquista para todas as mulheres que fazem parte da cadeia do livro. Mulheres que ainda lutam para serem reconhecidas, mesmo reunindo conhecimento, dedicação e cuidado com o livro, desde a sua produção até a chegada ao leitor, cada uma em sua função – como escritoras, editoras, distribuidoras, organizadoras de feiras.
Após sete décadas sob direção majoritariamente masculina, nós mulheres estávamos ali, aguardando a oportunidade de assumir, pois a Câmara Rio-Grandense do Livro sempre contou com uma presença feminina muito atuante, competente e comprometida. Teremos um mandato pautado pela escuta, com um olhar atento para novos públicos, novas parcerias e novas formas de diálogo.
Fischer: Tu tens uma longa história no mundo do livro, não é?
Roseni: Comecei, há cerca de 20 anos, a trabalhar com o livro, atuando inicialmente na área comercial. Com o tempo, senti que era possível fazer mais. Trabalhar com um material tão nobre quanto o livro exigia aprofundamento e aprendizado contínuo. Passei, então, a estudar a cadeia do livro e me apaixonei por todo o processo e pelas possibilidades que ela oferece, percebendo o quanto ainda pode ser melhor explorada. Nesse caminho, identifiquei-me com a edição de livros, área na qual me especializei e sigo em constante atualização.
Sempre mantive um contato próximo com a Câmara Rio-Grandense do Livro, inclusive porque a Federação Espírita do Rio Grande do Sul, instituição onde trabalho, participa desde a primeira Feira do Livro de Porto Alegre e, ao longo do tempo, as histórias dessas duas instituições foram se entrelaçando.
Há cerca de dez anos, integro a diretoria da Câmara Rio-Grandense do Livro. Já atuei como representante dos distribuidores, como secretária e, nos últimos quatro anos, como tesoureira – período em que adquiri um profundo aprendizado sobre toda a estrutura da Feira do Livro de Porto Alegre, reconhecida como a maior feira do livro da América Latina.
Fischer: A CRL anda bem? Institucionalmente está tudo encaminhado ou há frentes de trabalho importantes em sua estrutura e realidade administrativa?
Roseni: A Câmara Rio-Grandense do Livro vive um bom momento. Conseguimos mapear grande parte de seus processos e estamos em constante adequação e aprimoramento. Trata-se de um organismo complexo, que envolve desde a gestão administrativa dos associados, passando pelas leis de incentivo, até a organização da Feira do Livro e do projeto Abril Livro – mês dedicado a atividades de incentivo à leitura. A propósito: em 2026, o projeto Abril Livro contará com duas feiras do livro no formato da Feira do Livro de Porto Alegre, realizadas em duas localidades da capital: a Zona Norte e a Restinga.
Fischer: E pensando na Feira desde já: como tu avalias a Feira do Livro depois da tragédia da enchente? Voltamos a ter um tamanho parecido ao que tínhamos antes? Como foi o desempenho dessa última edição?
Roseni: A Feira de 2025 foi muito positiva, contamos com 82 bancas na Praça. A programação foi intensa, e as bancas tiveram público constante, o que gerou vendas e ampliou a divulgação do livro. Em 2024, ano marcado pela enchente, tivemos a participação de 77. Em 2025, esse número cresceu e, para 2026, a previsão é de um aumento de aproximadamente oito novas bancas.
Além disso, no dia 9 de dezembro, realizamos o Repensando a Feira, quando recebemos um retorno muito estimulante dos nossos associados participantes.
Fischer: A Câmara tem algum plano específico para enfrentar as dificuldades atuais? Aliás, quais são os principais obstáculos que agora se atravessam no caminho do livro? O fator “digitalização do mundo” está estável?
Roseni: Os principais obstáculos que hoje se colocam no caminho do livro estão ligados a um conjunto de fatores estruturais, culturais e econômicos, entre eles, destacam-se a diminuição do hábito de leitura, as desigualdades de acesso ao livro, os altos custos de produção e distribuição, além da necessidade constante de formação de novos leitores, especialmente crianças e jovens.
A digitalização do mundo não deve ser vista apenas como um obstáculo, mas como um fenômeno já estabilizado e incorporado ao cotidiano. O, o livro impresso segue tendo um papel central na formação do leitor, na educação e na experiência sensível da leitura. O digital, por sua vez, ampliou formatos, linguagens e possibilidades de acesso, mas não substituiu o livro físico; eles coexistem e se complementam.
O desafio atual entre impresso e digital está na capacidade do setor do livro de dialogar com novos públicos, compreender diferentes formas de consumo cultural e fortalecer políticas de incentivo à leitura. Em um mundo cada vez mais acelerado, o livro segue sendo um espaço de pausa, reflexão, pensamento crítico e construção da cidadania.
Fischer: Relativamente ao Brasil como um todo, a CRL terá algum papel para mediar entre as editoras locais e os mercados do centro do país?
Roseni: Trabalharemos para que a Câmara Rio-Grandense do Livro tenha um papel estratégico nesta mediação. Atuaremos como ponte de diálogo, articulação e representação, criando oportunidades de visibilidade, circulação e negócios para a produção editorial gaúcha por meio da participação em feiras, eventos nacionais e internacionais, rodadas de negócios e parcerias institucionais, a Câmara Rio-Grandense do Livro trabalhará para ampliar o acesso das editoras locais a novos mercados, ao mesmo tempo fortalecer a identidade e a qualidade da produção regional.
Fischer: Tua gestão terá alguma marca específica? Qual será?
Roseni: Meu mandato à frente da Câmara Rio-Grandense do Livro será marcado pelo compromisso com a formação de leitores e com o fortalecimento do livro como instrumento essencial de transformação social. A, acredito que incentivar a leitura, desde a infância e a adolescência, é o caminho mais sólido para a construção de uma sociedade mais justa, crítica e humana. Pretendo utilizar todos os meios possíveis de incentivo à leitura, ampliando o acesso ao livro e aproximando jovens desse universo que forma, acolhe e emancipa. O livro não é apenas um produto cultural, mas uma ferramenta de conhecimento, cidadania e desenvolvimento social. Nosso trabalho será pautado pelo diálogo, pela construção coletiva, fortalecendo a cadeia do livro em todas as suas dimensões e valorizando quem faz o livro acontecer, do autor ao leitor.