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Candiota vive do carvão, mas enfrenta impactos na saúde e futuro incerto

Estudos associam a exploração do mineral ao aumento de risco de doenças e problemas cognitivos em crianças, enquanto moradores e trabalhadores se unem para buscar uma transição energética justa.

Candiota vive do carvão, mas enfrenta impactos na saúde e futuro incerto
Foto: Sílvia Lisboa

No passado, os mineiros costumavam levar gaiolas com canários ao descerem ao subterrâneo para minerar carvão. Pequenos, ofegantes e com metabolismo acelerado, esses pássaros serviam como as sirenes de agora: se parassem de cantar ou desmaiassem, era sinal da presença de gases tóxicos. Era preciso deixar a mina imediatamente.

Nas minas a céu aberto, como as da região de Candiota, que abriga a maior jazida de carvão do Brasil e duas usinas termelétricas, são os tuco-tucos que cumprem um papel semelhante ao dos canários. Primos das capivaras, eles quase nunca são vistos. São pequeninos e têm dentes afiados para fora da boca que servem como picaretas para cavar túneis subterrâneos. Mas sua presença, mesmo que discreta, serve como um biomarcador ambiental por estarem diretamente expostos ao solo, ao ar e às águas. 

Se a poluição os afeta, é sinal de que todo um ecossistema está contaminado e pode impactar também a saúde da população local.

Em Candiota, a população desses animais que emitem o som tuc-tuc que emana de debaixo da terra é menor, mais jovem – o que indica maior mortalidade – e seu DNA está contaminado por metais pesados em relação a seus parentes de Pelotas, cidade distante cerca de 130 quilômetros e sem atividade mineradora. Mas os resultados dessa pesquisa, publicada em 2000 e liderada pela bióloga e doutora em Genética e Biologia Molecular Juliana da Silva, não repercutiram como o canto  – ou melhor, o silêncio – dos canários nas minas do início do século 20.

“A contaminação dos animais demonstra que os poluentes estão circulando no ecossistema e podem atingir toda a cadeia biológica. Animais expostos podem acumular contaminantes e apresentar alterações fisiológicas e reprodutivas, funcionando como um alerta precoce de risco ambiental”, observou Silva, pesquisadora no Departamento de Genética, Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) à época da pesquisa. “Para os humanos, isso reforça a preocupação com a exposição crônica, seja por inalação de partículas, contato com o solo ou consumo de água e alimentos da região.”

O tuco-tuco do Pampa serve como um sentinela da poluição do carvão. Crédito: Ariadna Tripaldi / iNaturalist

A Matinal esteve em Candiota no início de maio para entender se a comunidade do município e da região, que abrange outros seis municípios, tem conhecimento sobre as pesquisas que analisaram os efeitos do carvão sobre a saúde da população realizadas nos últimos 20 anos. A reportagem faz parte da investigação transfronteiriça e colaborativa As ruínas do carvão. O projeto é liderado pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP) e reúne 12 veículos de comunicação sobre o fim da energia a carvão na América Latina.

A maioria dos entrevistados disse não ter nenhum conhecimento sobre os estudos, nem mesmo o prefeito Luiz Carlos Folador (MDB), no cargo pelo quarto mandato. Os agricultores de assentamentos de Hulha Negra, vizinha a Candiota, que se destacam pela produção agroecológica, também não se recordam de estudos sobre os riscos da poluição. 

Na Vigilância Sanitária de Bagé, maior município do entorno, com mais de 120 mil habitantes e cujos pesquisadores da Urcamp, uma das universidades locais, também estiveram envolvidos nos estudos em Candiota, também não há registro dos dados.

O único que lembrou das pesquisas foi o atual diretor de comunicação do Sindicato dos Mineiros de Candiota, Hermelindo da Trindade Ferreira. “Lembro quando a equipe começou com a pesquisa com os tuco-tucos e depois queriam fazer com as pessoas que moravam em Candiota para identificar a possibilidade de câncer”, disse Ferreira, que atua na manutenção das máquinas da Companhia Riograndense de Mineração (CRM) desde 2002. 

O engenheiro mecânico Hermelindo da Trindade Ferreira trabalha há 24 anos nas minas de Candiota e é diretor do Sindicato dos Mineiros. Crédito: Sílvia Lisboa

O início da carreira de Hermelindo Ferreira na estatal gaúcha de carvão coincide com o início dos estudos das biólogas Juliana da Silva e Paula Rohr em Candiota. O impacto nos tuco-tucos levou Silva a avaliar também a saúde dos mineiros.  

A pesquisa, publicada na Environmental and Molecular Mutagenesis, avaliou 41 trabalhadores da CRM, envolvidos na extração e no transporte do carvão, e 29 indivíduos de Bagé e Candiota sem exposição ambiental aos poluentes do minério – tabagistas com consumo superior a 20 cigarros por dia foram retirados da amostra. Por meio da análise das células da mucosa bucal e de exames de sangue, as cientistas identificaram que os trabalhadores das minas a céu aberto também sofriam de danos genéticos, provavelmente causados pelo estresse oxidativo gerado pela exposição às misturas dos resíduos do carvão. Os resultados foram publicados em 2013,

Além dos efeitos genéticos identificados, Silva e Rohr também avaliaram um indicador de envelhecimento celular, os telômeros (extremidades protetoras dos cromossomos, que funcionam como as pontas de plástico dos cadarços, impedindo que o material genético se desfaça). Descobriram que os telômeros dos mineiros eram mais curtos do que na população não exposta, o que indica uma suscetibilidade maior ao desenvolvimento de doenças como o câncer. Os resultados dessa análise saíram na revista científica Ecotoxicology and Environmental Safety, em 2020.

Silva pondera que esses efeitos não são uma sentença, pois podem variar entre os indivíduos. “A constituição genética de cada pessoa influencia a capacidade de metabolizar substâncias tóxicas e reparar danos ao DNA. Variações em genes envolvidos na detoxificação (processo natural do corpo para eliminar toxinas) e nos mecanismos de reparo podem tornar alguns trabalhadores mais suscetíveis aos efeitos da exposição, enquanto outros conseguem lidar melhor com esses danos”, alertou a professora no Programa de Pós-Graduação Profissional em Saúde e Desenvolvimento Humano da Universidade La Salle, de Porto Alegre,  onde coordena o Laboratório de Genética Toxicológica. Mas já é consenso científico que a exposição contínua pode levar ao desgaste precoce da saúde. “Não se trata apenas de um risco teórico: há alterações biológicas mensuráveis nesses trabalhadores, o que justifica medidas de proteção, redução do tempo de exposição e políticas que busquem preservar a saúde ao longo da vida”, disse. 

Hermelindo Ferreira lembra que os resultados da pesquisa com os mineiros causaram apreensão entre os trabalhadores e na direção da CRM, que decidiu contratar outros pesquisadores para confirmar ou não os danos. Uma equipe de cientistas da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) – que posteriormente faria mais pesquisas na região – fez, então, um estudo semelhante ao de Silva, com 158 trabalhadores das minas, que foram divididos em três grupos conforme o grau de exposição ao carvão. Segundo o líder do estudo, o biólogo Flávio Manoel Rodrigues da Silva Júnior, os mineiros mais expostos apresentaram um aumento significativo das alterações genéticas nas células da mucosa bucal que estão associadas ao desenvolvimento do câncer se comparados ao grupo controle (residentes de Candiota). Mas, apesar de alterados, os exames ainda estavam dentro de um intervalo aceitável de acordo com a literatura internacional.

Os resultados acalmaram os trabalhadores. Na entrevista no sindicato, situado no Dario Lassance, o maior bairro de Candiota, que abriga uma escola e o pequeno comércio local, o chefe da manutenção técnica da CRM não descartou os problemas oriundos da mineração, mas acredita que eles ficaram no passado. “Antes se trabalhava de chinelo de dedo”, disse, sobre a falta de equipamentos de segurança e proteção. E relatou um processo que era uma fonte de contaminação ambiental: “a água das chuvas que enchiam as cavas ia direto para os leitos dos rios e para o solo, sem qualquer tipo de tratamento”. Hoje, segundo Ferreira, há bacias de decantação e tratamentos de filtragem, e a obrigação de, a cada hectare minerado, recuperar 13 hectares.

Para Ferreira, há muita desinformação e sensacionalismo nos estudos sobre os riscos. E citou um estudo divulgado em março pelo Centre for Research on Energy and Clean Air (CREA), elaborado em parceria com o Instituto Arayara, que o indignou particularmente – a mesma pesquisa foi citada também por outros moradores que olharam os resultados com desconfiança. 

Segundo o cálculo feito pelo Arayara e o CREA, a poluição do complexo carbonífero já teria causado 430 mortes prematuras entre 2017 e 2025. Com base nestas estimativas, poderão haver até 1,3 mil mortes e prejuízos de R$ 11,7 bilhões (cerca de US$ 2,3 milhões) em saúde até 2040, não só na região, mas em outros países fronteiriços, como Uruguai, Argentina e Paraguai. 

Outro resultado analisou a quantidade de partos prematuros e crianças com baixo peso, outros dois desfechos associados à exposição aos poluentes do carvão. Ferreira assistiu à palestra pelo YouTube e disse ter ficado indignado com os dados. “Eles compararam com a cidade de Santa Maria, que tinha um índice maior de bebês prematuros do que Candiota. Não fez sentido”, diz o sindicalista. Ele disse não ter entendido por que a pesquisa considerou os dados do município alterados se estavam abaixo dos de Santa Maria.

Cientistas presentes no dia da apresentação dos resultados também teceram críticas ao estudo no sentido de que faltou considerar também os impactos positivos (como a geração de emprego e renda) do carvão e tratar a poluição como um risco adicional, já que não existe poluição zero. O epidemiologista Carlos Dora, ex-coordenador global de Saúde e Meio Ambiente da Organização Mundial da Saúde (OMS), sugeriu que a avaliação de impacto incluísse também processos de escuta e participação da população local, indo além dos modelos puramente científicos e matemáticos. Este é o ponto que mais gera ressentimento sobre os dados de risco ambiental entre os moradores, que lamentam não serem ouvidos. “Parece que aqui só tem sequelados, e isso não é verdade. É mais sensacionalismo do que algo sério”, disse Ferreira. 

A desconfiança em relação a algumas pesquisas e à ideia de que a poluição faz parte do passado tornaram a preocupação com o tema secundária. Mas os achados levaram, em 2012, o Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Sul (MPT-RS) a abrir uma investigação sobre a conduta da Companhia Riograndense de Mineração (CRM) e da usina termelétrica de Candiota que queima carvão para gerar energia. O inquérito ensejou um termo de ajustamento de conduta (TAC), que foi assinado pelos diretores da termelétrica de Candiota, ainda controlada pelo governo federal. A estatal CRM, no entanto, se recusou a assinar. Por meio da sua assessoria de imprensa, a mineradora disse não ter assinado porque “o cumprimento da legislação é obrigatório e deve ser observado independentemente da formalização de um TAC.” 

A negativa da estatal levou o MPT a ajuizar uma ação civil pública contra a mineradora de carvão em agosto de 2019. A CRM foi condenada a cumprir uma série de obrigações para a proteção dos mineiros, mas recorreu da decisão. A ação está parada desde 2022 e aguarda decisão definitiva no Tribunal Superior do Trabalho (TST). 

Segundo o MPT, uma das falhas mais graves constatadas na mina foi a falta de proteção contra a poeira da mineração: as máquinas, pisos e corrimões eram tapados de sujeira e não havia medidas de umidificação para controle da dispersão do pó. “Todo o ambiente de trabalho no complexo de esteiras transportadoras é um ambiente degradado, sucateado, escuro, sujo, perigoso e extremamente hostil ao trabalhador”, apontou o MPT. Quanto aos exames médicos, havia falta de medidas preventivas concretas quando os resultados de exames (como espirometria) apresentavam alterações. 

A CRM disse à Matinal que, após a decisão em primeira instância, “passou a implementar medidas de aperfeiçoamento operacional e ambiental, inclusive em pontos que extrapolam exigências legais expressas”. A empresa não atendeu ao pedido de visita à mina.

Crianças contaminadas por chumbo

O alerta dos tuco-tucos de que a contaminação havia alcançado todo o ecossistema de Candiota também foi identificado pela equipe do biólogo Flávio Manoel Rodrigues da Silva Júnior. A pedido do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), uma equipe liderada pela enfermeira Ana Luiza Muccillo Baisch e por Rodrigues, ambos da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) à época, realizou uma série de estudos com a população de Candiota e de outros seis municípios no entorno. A investigação começou pouco depois das pesquisas de Juliana da Silva e Paula Rohr e seguiu por dez anos, até recentemente. 

Um dos estudos, publicado na revista acadêmica International Journal of Environmental Research and Public Health em 2022, avaliou desfechos neonatais e perdas gestacionais. Constatou-se que as crianças nascidas nestes municípios, cujas mães ficaram mais expostas a concentrações elevadas de poluentes no ar, tinham um risco maior de nascer com baixo peso (9,5%) ou serem prematuras (11,6%). Segundo Rodrigues, embora não sejam aumentos expressivos, o estudo confirmou que a poluição do carvão é um fator de risco para partos prematuros. As cidades do entorno, com a estrutura de saúde mais precária, foram as que registraram os piores índices.

Um dos resultados mais alarmantes foi a descoberta de que as crianças nascidas entre 2006 e 2009 da região apresentavam níveis de chumbo, um metal que causa danos neurológicos graves, acima do permitido na urina. A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que crianças em idade escolar podem ter, no máximo, um micrograma por grama de creatinina detectado na urina. 

Na região, foram encontradas crianças com até mais de 20 microgramas de chumbo por grama de creatinina, ou seja, níveis 20 vezes mais altos que o normal. Quanto mais próxima a criança vivia da usina termelétrica de Candiota, maior era o nível de chumbo identificado. O estudo foi publicado em 2022, na Environmental Science and Pollution Research.

O chumbo pode ser inalado ou ingerido pelo ar, comida ou solo contaminados – as crianças, por serem pequenas, ficam mais perto do chão. Os filhos de mineiros tinham concentrações mais altas do metal na urina, disse Rodrigues. “Um nível tão alto mostra que as crianças estavam expostas a concentrações elevadas de chumbo no ambiente”, explicou o pesquisador. O metal pode ter um efeito neurotóxico. No mesmo estudo, Rodrigues e Baisch detectaram que 23% das crianças avaliadas já apresentavam comprometimento da capacidade intelectual que pode estar associado à presença do metal pesado no corpo. 

Em entrevista a esta aliança jornalística, o biólogo, hoje professor da Universidade Federal de Alagoas, disse que Candiota vive uma dupla vulnerabilidade. “Existe uma vulnerabilidade química, em decorrência da exposição da população a essas substâncias, e uma vulnerabilidade socioeconômica, porque se trata de uma região muito carente”, disse Rodrigues, que também é 2º vice-presidente da Sociedade Brasileira de Ecotoxicologia. 

Dependência extrema

Ao mesmo tempo que as pesquisas mostram que a exploração do carvão está associada a impactos na saúde, Candiota vive a sina dos municípios dependentes de um único setor. O PIB per capita figura entre os 10 mais elevados do Rio Grande do Sul, e a média salarial é a maior do estado (4,1 salários mínimos). Mas essa riqueza não é bem distribuída. 

A prefeitura fica com cerca de R$ 3 milhões a R$ 4 milhões (entre 590 mil e 790 mil dólares) anuais oriundos da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem), equivalente a menos de 5% do orçamento municipal, e amarga baixos índices em educação, analfabetismo e saneamento básico (só metade das casas está ligada à rede de esgoto). 

A maioria das ruas do bairro Dario Lassance, antes uma vila rural, ainda é de chão batido – uma ironia para um município que abriga duas cimenteiras. Nele, há um tímido comércio local, casas de alvenaria e uma praça onde um dos medidores da poluição do ar fica ao lado da quadra de esportes (o trambolho leva o logo da Âmbar Energia, empresa do grupo J&F dos irmãos Wesley e Joesley Batista que opera a termelétrica Candiota III, e não informa a medição como seria o esperado).

Em mais um exemplo do desamparo, recentemente a Escola Estadual Jerônimo Mércio da Silveira, a maior do município, foi interditada por causa de uma pane elétrica e problemas no telhado. As aulas foram improvisadas na antiga sede da usina da Eletrobrás, um prédio úmido que parece abandonado, apesar de ser o centro cultural do município. “Eles estavam mal acomodados, mas a situação foi resolvida temporariamente”, disse o prefeito Luiz Carlos Folador. A solução foi acomodar as crianças em salas cedidas pela Âmbar Energia, dentro do complexo da usina. Só após pressão da comunidade escolar, a escola deve ganhar uma nova sede, bem mais ampla, mas que só ficará pronta em 2028. 

Antiga sede da Usina de Candiota hoje é um centro cultural e já abrigou adolescentes da maior escola do município que foi interditada. Crédito: Sílvia Lisboa

Outro sinal de vulnerabilidade é a falta d’água crônica na região. Os assentamentos da reforma agrária que ocupam uma área de mais de 70 mil hectares na região de Candiota tiveram de construir cisternas para armazenar a água das chuvas que rareiam no verão. Um levantamento da Matinal nos dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID) mostrou que, nos últimos 20 anos, Candiota decretou estado de emergência pela ausência de chuvas na metade deles. Segundo a Agência Nacional de Águas, a segurança hídrica é considerada baixa.

A carência social de Candiota é compartilhada pelos municípios do entorno. De acordo com um levantamento feito por esta aliança jornalística na base de dados da Secretaria de Avaliação, Gestão da Informação e Cadastro Único (Sagicad) com base no governo federal, Bagé, Hulha Negra, Pinheiro Machado, Herval, Pedras Altas e Aceguá têm entre 17% e 33% da população dependente do Bolsa Família atualmente. 

“A vulnerabilidade socioeconômica é um fator extremamente importante. Na verdade, praticamente todos os estudos mostram que a vulnerabilidade socioeconômica é um pano de fundo dos problemas de saúde da população, e em vários dos estudos o impacto da exposição ambiental reflete em uma piora da condição de saúde da população”, avaliou o biólogo Flávio Manoel Rodrigues. 

O pesquisador disse ter entregue todos os resultados dos estudos ao Ibama e às secretarias de saúde e da educação, que facilitaram o acesso às crianças e às gestantes. Mas não soube de nenhuma mudança. “A cada troca de governo, as informações se perdem”, disse. “É muito difícil a população entender a exposição ambiental como algo prejudicial, pois o ganho econômico é concreto e imediato, e os riscos à saúde são invisíveis e se acumulam lentamente.” 

A impressão de Rodrigues foi verbalizada por Axel Costa, vereador em primeiro mandato pelo Partido dos Trabalhadores (PT), nascido em Bagé. “Eu não tenho como pensar no meio ambiente se eu não sei o que meu filho tem o que comer amanhã, se eu não sei se vou conseguir pagar o aluguel amanhã”, justificou, em entrevista à Matinal. “Pergunta para qualquer guri de 16, 17, 18 anos onde é que eles querem trabalhar?”

Costa conta com orgulho do emprego na usina termelétrica de Candiota como encanador industrial. “Já fui ambulante, barbeiro, lenhador. Mas aquele emprego dentro da usina me deu dignidade, deu dignidade para muitas pessoas”, disse. “Eu defendo pão na mesa do trabalhador.”

Certa vez, em uma reunião em Brasília, o vereador foi confrontado se sua defesa dos empregos nas usinas termelétricas não estaria protegendo empresas poluentes e adiando a necessária transição energética. “Aquilo ficou entalado em mim. Entendo muito a urgência da crise climática, precisamos ter sensibilidade a isso”, reconheceu. “Mas precisamos atrair outros empreendimentos para ter qualidade de vida e também oportunidades de trabalho.”

Incerteza tóxica

Uma transformação recente da paisagem parece também ter contribuído para mudar a percepção sobre os riscos da poluição. Quem chega a Candiota pela BR-293 quase não percebe as chaminés das usinas escondidas por trás de eucaliptos portentosos misturados a árvores nativas, como pitangueira e angico amarelo, plantadas pelos assentados em um dos projetos de reparação ambiental exigidos pelo Ibama às usinas. Na beira da rodovia, vinhedos e olivais transformaram a paisagem e modificaram a percepção da população. 

A vinícola Bueno Wines, de propriedade de Galvão Bueno, um dos mais famosos narradores de futebol do Brasil, fica a cerca de 9 quilômetros da usina Pampa Sul e 20 quilômetros da de Candiota III. No site da empresa, a região é chamada de a “Califórnia brasileira” por causa do terroir (conjunto de características do solo, clima e outros aspectos que dão identidade a vinhos e/ou cafés). 

Se a poluição “fosse tão intensa como propagam, o Galvão Bueno não fabricaria vinhos de 400 reais aqui”, disse Hermelindo Ferreira. Segundo a Associação Vinhos da Campanha Gaúcha, são 22 vinícolas na região. Entramos em contato com a Bueno Wines para entender se há preocupação com o impacto da poluição nos parreirais, mas não houve retorno.

Dados de monitoramento do Ibama com base nos relatórios da usina de Candiota III, no entanto, mostram que as emissões de poluentes seguem altas e, em alguns momentos, ultrapassam os limites permitidos por lei, ameaçando a renovação da licença da termelétrica, ainda sob análise do Ibama conforme esta reportagem da mesma série. “Ocorre que hoje, com os filtros nas chaminés, as emissões são de material particulado, como o PM 2,5, cujo tamanho chega a ser 30 vezes mais fino que um fio de cabelo, imperceptível aos olhos, mas não ao organismo”, diz o geólogo Rualdo Menegat, professor da UFRGS. Segundo o especialista, o material particulado é tão tóxico que é medido em partes por milhão. “Basta uma parte por milhão para causar dano às pessoas.”

Foi identificada também a presença de metais pesados no Arroio Candiota, que levou o Ibama a orientar a proibição da pesca no manancial. A olho nu, no entanto, não há poluição aparente.

Metais pesados oriundos da mineração tornam a água ácida, e podem inviabilizar a vida de peixes no Arroio Candiota. Crédito: Sílvia Lisboa

Prazo final

Mas os moradores sabem que a queima de carvão para a geração de energia tem prazo para acabar por causa dos acordos internacionais para reduzir as emissões e estão preocupados com isso. Muito antes de a crise climática se tornar uma realidade, a região de Candiota já sofria com a falta de oportunidades. Agora as duas emergências se somam.

Diante da omissão do governo estadual, que até agora não apresentou um plano de transição justa anunciado há mais de um ano, mineiros, agricultores da reforma agrária, sindicatos, prefeituras e vereadores de municípios da região decidiram se unir para traçar planos concretos que precisam sair do papel nos próximos 14 anos. Nos últimos 14, agricultores ajudaram o complexo carbonífero a reparar o passivo ambiental – as termelétricas financiaram a recuperação dos campos castigados por voçorocas nos assentamentos e a restauração de nascentes (até agora, já são 179). 

Em um acordo com a usina de Candiota, iniciado em 2011, assentados lideraram a recuperação de mil hectares de áreas degradadas. Crédito: Escola Chico Mendes, Hulha Negra

O Instituto Cultural Padre Josimo, então encabeçado pelo Frei Sérgio, falecido em fevereiro deste ano, liderou a confecção de um caderno com propostas. “Essa diversificação é urgente para todo mundo que vive aqui”, disse Marcelo Bernal, engenheiro florestal e um dos coordenadores do instituto. 

Entre as propostas, o carvão segue sendo explorado, mas com outros usos que seriam menos poluentes, como a produção de gás e de fertilizantes. “O caminho que vislumbramos é a gaseificação, que já existe na China, na Alemanha, na Rússia. Já levamos o carvão de Candiota para a China, e ele se mostrou apropriado para a produção de metanol”, disse Ferreira. A prefeitura de Candiota e o Sindicato dos Mineiros são entusiastas dos projetos da Associação Brasileira do Carvão Sustentável (ABCS), mantida pelas empresas do setor, que prevê o estudo de métodos de captura de carbono e criação de novas plantas industriais para a produção de fertilizantes, um insumo básico que hoje o Brasil importa.

Outra sugestão é fortalecer as cadeias produtivas existentes, como a leiteira, a fruticultura e a produção de sementes e mudas – a região tem o maior aglomerado de assentamentos da reforma agrária do estado, que são referência na produção de laticínios e de sementes agroecológicas.

Mineiros e agricultores também articulam com o governo federal a possibilidade de transformar Candiota em uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE), atraindo empresas que queiram exportar a outros países sem pagar os tributos nacionais. As tratativas a respeito dessa proposta estão sendo feitas diretamente com o Ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), liderado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). 

O caderno intitulado “Transição Energética no Pampa Gaúcho – Projeto holístico estratégico para a sustentabilidade do bioma” está disposto na sede do Instituto, no bairro Dario Lassance. O panfleto com a proposta da ZPE também foi impresso. Os dois são distribuídos a quem chega a Candiota. 

Entre a herança do carvão e o futuro, a região busca um caminho.

Las Ruinas del Carbón

As Ruínas do Carvão é um projeto liderado pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP) em parceria com a Agencia Ocote (Guatemala), Baudó Agencia Pública (Colômbia), Concolón (Panamá), Contracorriente (Honduras), La Nación (Argentina), Matinal (Brasil), N+ Focus (México), Raíz Climática (República Dominicana), Reportea (Chile), Climate Tracker América Latina e Mongabay Latam sobre a transição para longe da energia a carvão na América Latina. Revisão jurídica: El Veinte.

Sílvia Lisboa

Jornalista, mestre e doutoranda em Comunicação pela UFRGS. Editora de reportagens investigativas. Contato: silvia@matinal.org

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