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Cada uma que até parecem duas

Não é só nos programas de humor, na vida de verdade também tem muita gente que não vive sem um bordão. Nem sei se dá para chamar de bordão esses ditos populares que vão passando de geração em geração e que, dependendo da antiguidade, não fazem mais sentido nos dias de agora.  Mas continuam a ser repetidos, fazendo de cada situação um esquete – se d’A Praça é Nossa ou do Seinfeld, vai depender das referências de quem fala.

Tenho uma irmã que é a rainha do bordão. A Méia (ela não se abalou com a reforma ortográfica e manteve seu acento no ditongo porque, sem isso, viraria uma simples Meia) sabe absolutamente todos os ditados que os nossos pais, avós, bisavós, tataravós e lá vai bolinha usavam. Lá vai bolinha, aliás, é uma das expressões de que ela gosta. 

Se alguém vive um momento crucial, a Méia resume assim: está entre a cruz e a caldeirinha. Que cruz e que caldeirinha, são outros quinhentos. São outros quinhentos também é um bordão dela e serve para colocar cada coisa no seu quadrado – uma expressão já mais moderna, que, claro, ela também usa.

Para definir felicidade: faceira feito mosca em tampa de xarope. Eu nunca vi uma mosca em tampa de xarope e a imagem, para dizer a verdade, até me entristece. 

Se faz de morto para ganhar sapato novo – e uma outra variação de se fazer de morto que envolve (com todo o respeito) o ânus do senhor coveiro, mas que não cito aqui para manter o nível da coluna, define os santinhos do pau oco, os que se fazem de salame. 

E, assim, nenhuma frase fica sem ilustração.

A gente procura as palavras certas, quer ser original nos textos, mas a verdade é que tudo de original já foi dito em tempos mais ingênuos. Agora é reinterpretar ou copiar mesmo, na cara dura.

Ao fim e ao cabo, é isso.


O grande Julio Reny, lenda viva do rock gaúcho, precisa urgentemente de apoio para pagar as consequências de um espancamento covarde por parte do seu ex-empresário. Para colaborar, acesse aqui. Uma história de cair os butiás do bolso. 

As opiniões emitidas por colunistas não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.
Claudia Tajes

Claudia Tajes

Escritora e roteirista, cobre os assuntos mais atuais com humor inteligente e pitadas de ironia.

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