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Futebol caro, povo fora do jogo

Futebol caro, povo fora do jogo
Imagem criada por I.A.

O futebol sempre foi popular porque cabia no bolso e na rotina de quem trabalha. Ingresso acessível, arquibancada cheia, barulho constante e sensação de pertencimento. Isso está sendo desmontado. A declaração de Gianni Infantino, ao justificar os preços altos da Copa de 2026 com base na “alta demanda”, ajuda a entender o problema. Demanda não é critério social, é lógica de mercado. O futebol passou a ser tratado como produto de luxo. Quem pode paga, quem não pode assiste de longe, quando consegue assistir.

A FIFA e os clubes venderam a ideia de modernização, arenas novas, experiência melhor. Na prática, o torcedor comum ficou fora da conta. O sujeito que pega ônibus lotado a semana inteira não é mais o público desejado. Ele foi trocado por turista, pacote corporativo, camarote fechado. A arquibancada deixou de misturar gente e passou a separar renda. O futebol perdeu ruído e ganhou silêncio. Ficou bonito na foto e vazio de alma.

Isso não é exclusividade da Copa. Está nos campeonatos nacionais, no ingresso dinâmico, no preço das camisas, nos planos de sócio cada vez mais caros. O torcedor pobre virou obstáculo logístico. Não interessa ao modelo de negócio. Quando se fala em milhões de pedidos de ingresso, o que se esconde é a exclusão em massa. O estádio pode até vender bem, mas se afasta de quem sempre sustentou o jogo.

No Brasil, o impacto é maior porque a renda é menor. Aqui, o discurso da modernização pesa mais. Ingresso alto, transporte caro, comida cara. Ir ao estádio virou decisão calculada. Não é falta de amor ao clube, é falta de dinheiro. Por isso vemos jogos do Brasileirão com 15 mil, 20 mil pessoas em estádios que comportam o dobro ou o triplo. Flamengo e Corinthians ainda lotam com frequência, pela força popular e política agressiva de sócios, mas nem eles escapam do aumento médio de preços e do afastamento gradual do público mais pobre.

O resultado está aí. Arenas modernas, cadeiras vazias e clima frio. O estádio deixou de ser hábito semanal e virou evento ocasional. O futebol brasileiro sempre foi empurrado pela arquibancada, pelo ingresso barato, pelo torcedor em pé, pelo barulho constante. Quando esse público é afastado, o jogo perde pressão, perde identidade e perde sentido.

No Rio Grande do Sul, a situação é clara. Grêmio e Internacional têm estádios grandes e modernos, mas convivem com ocupação irregular ao longo do ano. Mensalidades altas, ingresso caro e custo de deslocamento afastam o torcedor popular. Beira-Rio e Arena só enchem em decisão ou clássico. No jogo comum, sobram cadeiras. O futebol gaúcho sempre foi de arquibancada forte. Hoje, virou evento seletivo.

O futebol pode até seguir lucrativo, mas sem povo ele se esvazia por dentro. Produto caro sobrevive, cultura popular não. E o futebol, gostem ou não os dirigentes, nasceu do povo e só faz sentido com ele dentro do estádio.

Nando Gross

Nando Gross

Jornalista e comentarista esportivo, com passagem por algumas das mais importantes emissoras de rádio do país. Contato: nandogrossjornalista@gmail.com

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