Confira todos os textos da edição #327
- Milton Santos: a permanência dos conceitos, por Mario Lahorgue e Victor Hugo Oliveira
- O rock gaúcho - parte VIII, por Arthur de Faria
- Muito antes de Trump – a trama milenar entre Armênia e Irã, por Daniel Scandolara
- De Antigo Tape à Banda Oriental do Rio Uruguai, por Artur Barcelos
- Cordel do Corte Raso - Capítulo 6, por Gonçalo Ferraz
- Entre o mundo e eu – Capítulo VII, por Marlon Pires Ramos
- Porto Alegre, 1913 – A inauguração da Confeitaria Rocco, por Arnoldo Doberstein
- Tudo é falso, tudo é verdadeiro: resenha do novo filme de Jim Jarmush, por Guto Leite
- Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: “Segurança pública precisa ser tratada como política de Estado”, por Luís Augusto Fischer
“Naquele dia começaram também a chegar os do lado do Uruguai, que haviam viajado em balsa na companhia do padre irmão Medina, do padre irmão Joseph e do padre irmão Pedro. Então os portugueses dispararam seis tiros contra eles, mas, por ser larga a vista do caminho, não lhes fizeram nenhum dano. Neste dia também morreu um de São José, que havia adoecido pelo caminho e a quem haviam trazido, por causa do cansaço da viagem. Naquele dia também os portugueses baixaram aquelas duas bandeiras brancas hasteadas no outro dia acima do forte.”
Outubro de 1704. Uma força militar cercou a Colônia do Santíssimo Sacramento, enclave português fortificado na margem norte do Rio da Prata. O exército estava composto em sua ampla maioria pelos Guarani das Missões. Um deles, anônimo, participou da redação de um diário. O que faziam milhares de guaranis combatendo os portugueses nas terras a leste do rio Uruguai ao iniciar o século XVIII?
A resposta obriga um retorno de duas décadas antes dos acontecimentos de 1704. Os portugueses iniciaram sua ocupação do que chamariam Brasil, de fato, a partir da década de 30 dos anos de 1500. Do litoral, avançaram para o interior, paras os sertões. No final do século seguinte haviam ampliando em muito sua presença para além da incerta linha do Tratado de Tordesilhas, de 1494. Fizeram parte desse avanço as “Bandeiras” de São Paulo e São Vicente, que atacaram as Reduções dos Guarani entre 1620 e 1640, o que obrigou o abandono do Itatin, do Guairá e a transferência de famílias do Tape para a margem oeste do rio Uruguai, sem interrupção do uso do território.