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Tudo é falso, tudo é verdadeiro: resenha do novo filme de Jim Jarmusch

Parêntese #327

Tudo é falso, tudo é verdadeiro: resenha do novo filme de Jim Jarmusch

*Esta resenha tem spoilers. Esta resenha não tem spoilers.

O filme mais recente de Jim Jarmusch, Pai mãe irmã irmão (2025), articula três histórias independentes. Na primeira, um filho e uma filha visitam o pai, que aparentemente precisa de ajuda, mas que na verdade leva uma vida confortável e de possíveis prazeres. Na segunda, duas irmãs fazem sua visita anual à mãe, rígida e ciosa da etiqueta, mas escritora de romances eróticos. Por fim, um irmão e uma irmã gêmeos visitam o apartamento vazio dos pais mortos em acidente de avião - o quanto os pais são legais ou não legais (e mesmo ilegais) fica em suspenso enquanto os filhos recuperam pela memória os laços entre si e com eles.

O sentido do filme, contudo, atravessa as três histórias. De modo mais imediato, pelos elementos recorrentes entre elas: a luminária, a água, o brinde, algumas expressões específicas, etc.; como se as vidas ecoassem umas nas outras. Um desses elementos, os jovens andando de skate (únicas cenas que se dão em slowmotion), sugere que podemos partir dessa metáfora para uma segunda leitura, mais profunda. Os ecos entre as cenas revelam a natureza estética, armada, fílmica das histórias. Para dizer o óbvio: não estamos acompanhando pessoas, estamos vendo um filme. Nos três casos está em jogo uma imagem e uma contra-imagem, o que sabem de si e de seus pais e uma outra versão dessas pessoas. Mais do que um jogo realista de descobrir a essência da aparência, estamos diante da impossibilidade mesma de chegarmos a uma verdade cabal.