Confira todos os textos da edição #326
- Ferreiros de Potengi e a cidade que não dorme, por Daisson Flach
- Sobre Tasso Bangel, por Arthur de Faria
- Crônicas animais - A corda é o vínculo, por Marília Kosby
- Há par e ser: África e o Sul Global na Bienal de Veneza, por Samantha Buglione
- Espaço e tempo na era das plataformas: contribuições de Milton Santos para compreender o Brasil contemporâneo, por Wagner Nabarro e Natalia Sá Britto
- Do lado de cá do arroio, por Evandro Machado Luciano
- As primeiras reduções do Tape, por Artur Barcelos
- Entre o mundo e eu - Capítulo VI, por Marlon Pires Ramos
- Cordel do Corte Raso - Capítulo 5, por Gonçalo Ferraz
Ainda com as éguas do projeto Desdomar - desmontando o patriarcado a cavalo. Ainda com os homens ali.
Comecei o diário de campo daquele dia assim: “Vieram quatro homens e foi um show de horrores”. É a guerrilha incansável de sustentar o espanto ante o que parece uma realidade monolítica, opaca… Vazia? Eu ia escrever “morta”, mas a própria morte carrega em si metamorfoses radicais. E o cenário ali era de um conservadorismo degenerescente. Os homens são os aguerridos guardiões e perpetuadores dos valores de seus pais. Acontece que as mulheres, suas companheiras, namoradas, esposas, não se enquadram no modelo que eles costumam ter de suas mães, as “mulheres de antigamente”: abnegadas, dedicadas, silenciosas. Qualidades estas garantidas e asseguradas pelo “pulso firme” dos homens que os antecederam, ou seja, nada muito essencialmente feminino, mas masculinamente imposto.
Esse “pulso firme”, também chamado por eles de “papel do homem”, sustenta sua firmeza moral em valores que transitam por uma tríade, que encapsula a masculinidade como uma instituição total, conforme a narram nossos interlocutores. Chamamos essa tríade de “os três pros”: provedor - protetor - proprietário. Quando perguntamos o que é ser homem, quando é que alguém se torna homem ou o que torna alguém menos homem, nenhuma reflexão parece capaz de escapar dessa cápsula. Chegamos a cogitar que eles pudessem estar copiando a opinião um do outro, dada a ausência de singularidade e a aparente falta de intimidade com a própria subjetividade. Pedimos, então, que escrevessem, antes de comunicar oralmente suas reflexões, para evitar o plágio. Para nossa decepção, nada se alterou, todos dizem a mesma coisa: pagar as contas, cuidar da família, ter responsabilidade com os bens e patrimônio. Alguns afirmam que nunca tinham pensado sobre isso. Mas nem tudo acaba aí. Quando a conversa fica irreversivelmente obtusa, sabemos que é hora de acionar as éguas.