Confira todos os textos da edição #326
- Ferreiros de Potengi e a cidade que não dorme, por Daisson Flach
- Sobre Tasso Bangel, por Arthur de Faria
- Crônicas animais - A corda é o vínculo, por Marília Kosby
- Há par e ser: África e o Sul Global na Bienal de Veneza, por Samantha Buglione
- Espaço e tempo na era das plataformas: contribuições de Milton Santos para compreender o Brasil contemporâneo, por Wagner Nabarro e Natalia Sá Britto
- Do lado de cá do arroio, por Evandro Machado Luciano
- As primeiras reduções do Tape, por Artur Barcelos
- Entre o mundo e eu - Capítulo VI, por Marlon Pires Ramos
- Cordel do Corte Raso - Capítulo 5, por Gonçalo Ferraz
O centenário do geógrafo Milton Santos é um momento privilegiado para a reflexão sobre o movimento de renovação da Geografia e da teoria crítica no qual teve papel determinante. Revisitar sua obra significa explorar uma ampla e complexa contribuição do pensamento social latino-americano para a compreensão crítica do capitalismo, do território e da modernidade. Não é por mero apreço que sua produção intelectual segue sendo reinterpretada à luz do século XXI: sua clarividência foi capaz de antecipar leituras sobre movimentos que, em seu tempo, apareciam apenas como vislumbres, mas que se tornaram elementos centrais da sociedade contemporânea.
Entre os maiores legados de seu pensamento, destaca-se o reposicionamento do espaço na teoria social crítica, que deixa de ser concebido como mero suporte ou palco das ações para ser entendido como instância constitutiva da própria sociedade. Nas palavras do autor, é o espaço que permite à “sociedade global realizar-se como fenômeno”. Essa concepção redefiniu os horizontes da Geografia ao revelar como o espaço geográfico participa ativamente dos processos de acumulação capitalista e de ampliação das desigualdades, materializando estratégias e intencionalidades sob a forma de objetos e ações, sem deixar de evidenciar que é também nele que emergem possibilidades de resistência e construção de outros futuros.
Sua trajetória intelectual, marcada pelo exílio e pela circulação entre diferentes países, permitiu uma visão singular das contradições entre o centro e a periferia do mundo capitalista. Por isso, insistia que interpretar o Brasil exigia mais do que a replicação de teorias estrangeiras: era necessária a produção de uma teoria crítica, engajada e intelectualmente independente, capaz de pensar a realidade brasileira a partir de suas próprias contradições históricas e territoriais. A este respeito, destacamos duas de suas obras, separadas por quase duas décadas, mas articuladas na busca pela construção de um método geográfico capaz de compreender a sociedade pelas relações entre espaço, tempo e técnica.