Confira todos os textos da edição #326
- Ferreiros de Potengi e a cidade que não dorme, por Daisson Flach
- Sobre Tasso Bangel, por Arthur de Faria
- Crônicas animais - A corda é o vínculo, por Marília Kosby
- Há par e ser: África e o Sul Global na Bienal de Veneza, por Samantha Buglione
- Espaço e tempo na era das plataformas: contribuições de Milton Santos para compreender o Brasil contemporâneo, por Wagner Nabarro e Natalia Sá Britto
- Do lado de cá do arroio, por Evandro Machado Luciano
- As primeiras reduções do Tape, por Artur Barcelos
- Entre o mundo e eu - Capítulo VI, por Marlon Pires Ramos
- Cordel do Corte Raso - Capítulo 5, por Gonçalo Ferraz
Por que se fala no sul do Brasil em “Primeira Fase” e “Segunda Fase” das Missões Jesuíticas?
Mudar tudo, não mudar nada.
Garanto, além disso, a Vossa Reverência que de nenhuma outra parte (senão daqui) haverá entrada mais segura até eles. Assim nos asseguraram os habitantes do Paraná, os quais têm amizade com eles, e alguns também parentesco, e estão continuamente traficando com eles. Foi necessário construir este povo desde seus fundamentos. Para cortar a costumeira ocasião para o pecado, resolvi construí-lo à maneira dos povoados dos espanhóis, para que cada um tenha sua casa, com seus limites determinados e sua correspondente cerca, para impedir o fácil acesso de uma à outra, como era antes, proporcionando inevitável ocasião para a embriaguez e outros crimes.
Oito de abril de 1614. O padre Roque González de Santa Cruz escreve uma carta ao Padre Provincial informando de seus planos em fazer contato com os Guarani do rio Uruguai. Toda a região em torno dos rios Paraguai, Paraná e Uruguai era território Guarani. Muitos eram aparentados, circulando entre as bacias dos rios, em visitas e festins. Ele conta ainda que tratava de modificar os hábitos familiares dos Guarani para combater o que entendia ser contrário à moral cristã.
Em um parágrafo ele nos revela que as Reduções seriam um espaço de transformação dos laços sociais dos Guarani, como as amplas casas coletivas, por exemplo. Mas também deixa transparecer que o Tape, as terras a leste do rio Uruguai, eram parte de um território Guarani amplo, com redes de contatos, trânsito, trocas e parentesco. Essas redes favoreceram a entrada dos missionários nas aldeias.
A chegada dos padres era precedida por indígenas cristãos, que conversavam com os caciques, anunciando que havia alguém querendo conversar. Às vezes a recepção era cordial, às vezes tensa. Aceitar a vida em Reduções era algo no mínimo dramático para os Guarani. Contudo, para alguns era uma opção a ser experimentada. Assim, com o passar dos meses e anos os caciques se tornaram os responsáveis por organizar, ou melhor, reorganizar os territórios.