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Entre o mundo e eu – Capítulo VI

Parêntese #326

Poemas da Recordação

Djavan sabe das coisas. Ouvi sua música quando cheguei. Natália estava lavando a louça, ouvia uma playlist no celular, acendeu um incenso para perfumar o ambiente.  Nos sentamos no sofá, o ambiente estava preparado para nossa conversa.

E a tua história, eu não sei

Mas me diga só o que for bom

Um amor tão puro que nem sabe 

A força que tem

É teu e de mais ninguém

Eu preciso te perguntar uma coisa. Você se arrepende da gente? 

A pergunta me acertou como um soco no meio da cara.

Não! Não mesmo. Eu acreditei nessa relação desde o início. Eu quis essa relação, eu acreditei nessa relação. Eu mudei por querer essa relação. Você viu. Eu tento ser a melhor companhia possível pra você. E você se arrepende? Pode falar.

Não. Eu amo a gente junto. Amo mesmo. Estamos construindo algo bom. Mas algumas coisas ainda não sei dizer. Vou tentar.

Pode falar, falei fazendo carinho na sua mão.

Eu amo tua sensibilidade comigo, com tua família, com os conhecidos. Teu jeito de ver o mundo. É muito bonito, tocante. Mas a questão financeira pesa. Muitas vezes eu paguei as contas sozinha. Fizemos muitas coisas junto, quando você tinha grana, nós dois curtimos muito. Mas o teu corre é instável. Uma hora tem; outra hora não. E eu banco tudo. Não tem problemas, só que tá ficando recorrente. Tu escreve, trabalha na livraria, mas é freela. E amanhã? E o futuro? E o nosso futuro? Eu penso muito nisso! E perguntei pra ti, lembra? Como você imagina daqui a 5 anos? Lembra o que tu falou? Eu sinto que tô com a corda no pescoço! Eu não consigo pensar no futuro. Eu não consigo respirar. Parece que tô sempre atrasado. Desculpa. Essa foi tua resposta. Pensei muito nisso. Sem perspectiva de futuro pra nós, acho que a gente não tem futuro.

Doeu. Ouvir doeu. Mal consegui respirar depois de ouvir e ver seu semblante desanimado.

***

Pilha uma pizza hoje? Aproveita que hoje é na minha comanda.

Hahahaha, eu aceito! Adoro uma pizza surpresa.

O céu de Porto Alegre brilhava diferente do comum. As estrelas, pontos brilhantes e intensos, nas alturas da R. Duque de Caxias. Olhando da Av. Borges, a paisagem era um desenho de Arte, as estrelas, os arcos do viaduto Otávio Rocha, o brilho das luzes, as pessoas, tudo parecia um filme, um sonho, algo difícil de acreditar que fosse real. E lá estava eu, chegando no Justo, apressado para não atrasar o encontro. Cheguei, notei o movimento das pessoas aumentando, pedi minha Ipa, e, por sorte, o sofazinho estava vazio. Cheguei, te espero no Justo. Estou sentado no sofá aqui dentro, mandei a mensagem. Poucos minutos depois ela chegou.

Eu vou rezar pra esse domingo não chover

Pois quero passear no parque novamente de mãos dadas com você

Mais um domingo sem você

Já não aguento mais

Mais um domingo sem você 

Isso já é demais

Natália chegou e seu superpoder apareceu de novo. O mundo ficou mais lento, ela se destacava de todos, e comecei a ficar embriagado no seu perfume. Mal ouvia a música do Jorge Ben Jor no ambiente, era só a Natália e o resto. Ela sentou, sem saber onde colocar as muletas, ficou na dúvida. Coloca aqui do meu lado, disse sorrindo. Ela retribuiu o sorriso com um obrigado discreto. Pediu sua cerveja pilsen. Olhamos as opções de pizza, ela foi rápida e certeira. Pizza de legumes defumados. Nem discutimos. Foi essa a decisão, a melhor decisão.