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Há par e ser: África e o Sul Global na Bienal de Veneza

Parêntese #326

Há números que parecem suficientes.

Na 61ª Bienal de Veneza há treze pavilhões africanos e vinte e nove artistas presentes na exposição internacional de 2026. Os números chegam limpos, organizados, quase elegantes. Como se a presença pudesse ser medida em estatística. Como se existir fosse ocupar espaço numa planilha internacional de prestígio. Mas, dos 13 países africanos, apenas dois estão nos núcleos históricos centrais da Bienal: Egito, no Giardini, e Marrocos, no Arsenale, enquanto os outros 11, o equivalente a 84,6% das participações africanas, estão espalhados por palazzos, fundações e edifícios descentralizados em Dorsoduro, Cannaregio, Castello e outras áreas da cidade. Entre os países latino-americanos e caribenhos ocorre dinâmica semelhante: apenas Brasil e Uruguai aparecem no Giardini, enquanto Argentina, Chile, México, Panamá e Peru ocupam o Arsenale, e cerca de metade das representações latino-americanas e caribenhas permanece dispersa em espaços temporários ou periféricos. A distribuição física mostra uma geopolítica sobre investimentos e políticas institucionais existentes nos países de origem. Mesmo que a Bienal amplie significativamente a presença do Sul Global por força dos curadores, essa ampliação não corresponde necessariamente a uma redistribuição equivalente de centralidade institucional e capital simbólico. Números não são suficientes para falarmos de presença. É na relação que os sentidos acontecem.

A arte acontece justamente onde os números falham. E onde a neutralidade não se sustenta. Há algo não quantificável quando se fala em construção de subjetividade.