Confira todos os textos da edição #330
- Jamil Chade: “Casa é onde a gente vai com as pessoas que a gente ama”, por Roberto Jardim
- Copa numa hora dessas, por Roberto Jardim
- As Copas do Simon, por Carlos Simon
- Álbum de recordações, por Eduardo Brigidi
- Os Guarani e seus mapas, por Artur Barcelos
- O rock gaúcho - Parte XI, por Arthur de Faria
- Meu paciente chamado Guaíba, por Enrique Falceto de Barros
- Terras raras: de patinhos feios a cisnes, por José Roberto Iglesias
- Entre o mundo e eu - Capítulo X, por Marlon Pires Ramos
- Na companhia de Cascudo, por José Botelho
- 1926 - A estreia da banda italiana de Otávio Rocha, por Álvaro Santi
- Cordel do Corte Raso — Capítulo 9, por Gonçalo Ferraz
Yvyrupa ra’anga. O Território Desenhado
“Autores de livros não religiosos, conheci eu a dois índios. Um que se chamava Melchor e escreveu A História do Povo de Corpus Christi. Era um volume de coisas muito variadas, já que registrava quando se fundou o povo de Corpus, por que foi transferido do Guairá, em que época se construiu sua igreja, as circunstâncias em que se inauguraram os altares, quais eram os limites do povo, segundo a tradição, quais eram os campos atribuídos aos moradores, qual era a tradição de que São Tomé havia estado entre os Guaranis, que pestes haviam afligido os moradores de Corpus. [...] O próprio Melchor havia enriquecido sua obra com um mapa elaborado por ele, no qual não estavam indicados os graus de Longitude e Latitude, que ele desconhecia, mas nele estavam assinalados com toda exatidão os montes, os arroios e os rios contidos dentro dos limites do povo. O outro livro foi escrito por um índio do povo de São Xavier...”
Quem era Melchor? Sabemos que era um indígena. Supomos que era um Guarani, pois do autor deste texto temos mais informações. Trata-se de José Manuel Peramás, jesuíta espanhol que chegou ao Rio da Prata em 1755. Foi professor na Universidade de Córdoba e redator de Cartas Ânuas, as cartas que relatavam os acontecimentos das Missões a cada triênio. E Melchor? Ele é mais um dos milhares de guaranis que aparecem incidentalmente nas crônicas, livros, diários, cartas e outros documentos escritos por jesuítas. Guaranis dos quais sabemos pouco mais do que seus nomes. Às vezes com algum protagonismo, como foi o caso de Sepé Tiaraju, uma exceção à invisibilidade geral de sujeitos indígenas nessa história. Porém, Peramás, sem saber, nos abre uma pequena janela nesse parágrafo. Uma janela para livros e mapas feitos por indígenas.