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Meu paciente chamado Guaíba

Parêntese #330

Meu paciente chamado Guaíba
Foto: Jonas Schen

Se eu pudesse, iria todos os dias à beira do Guaíba para caminhar e ver o pôr do sol. Afinal, é o nosso lago que deixa nosso porto alegre. Qual porto-alegrense não ama passear pelo Gasômetro, Embarcadero, Pontal e pelo Museu Iberê? Esse tipo de vínculo emocional é amplamente estudado. Espaços verdes (natureza) e azuis (aquáticos) reduzem mortes por todas as causas, doenças cardiovasculares e metabólicas, saúde mental (ansiedade e depressão), e, plausivelmente, câncer, doenças imunológicas e respiratórias, entre outras. É um bem-estar recomendado cientificamente. Surpreso? 

Além disso, essas áreas promovem conforto térmico (importante em tempos de mudança climática), equidade e melhoram a sensação de coesão social e democrática. Já o adoecimento desses espaços públicos pode piorar a violência e a saúde. Escrevo este artigo justamente porque esse lugar de amigos, águas e verdes – além de nos dar a água que bebemos – está sob uma ameaça que poucos compreendem.

Muitas pessoas com quem converso não ouviram falar do “Projeto Natureza”. Trata-se de uma nova fábrica de papel da CMPC (Compañía Manufacturera de Papeles y Cartones), antiga Borregaard, às margens do Guaíba. Na prática, funcionará como uma duplicação da fábrica já existente. Quem escutou, em geral, está satisfeito com os cerca de 25 bilhões de reais que prometeram investir. Os benefícios são alardeados pela grande mídia, e há até um raro e amplo consenso entre políticos de esquerda e direita para facilitar o empreendimento. Afinal, em ano eleitoral, quem pode ser contra dinheiro e empregos?