Pular para o conteúdo

PUBLICIDADE

A arte negra na Bienal de Veneza ou o tapete de minha avó

Parêntese #329

There is a reason, after all, that some people wish to colonize the moon,and others dance before it as an ancient friend. — James Baldwin, 1972

Em todo começo há palavras, disse Koyo Kouoh: “… as palavras são pontes para o outro, revelação de si (e quando) suspensas no ar, deslocando-se das línguas aos ouvidos ao sabor dos ventos, as palavras que penetram o solo como fertilizante clandestino, os seus sons, ritmos e melodias perfumando o ar…” criam e recriam mundos.

Inclusive aquelas que não nasceram para nomear povos são capazes de comportar (para o bem e para o mal) mundos inteiros dentro delas. Às vezes como uma espécie de uníssono em uma abertura estável e sem dissonância, tal qual uma marcha militar que silencia tudo à volta, mas também fala. Em outras, torna-se o território do possível, lugar para se poder existir, cuja posse com o tempo recriará sentidos. Neste parágrafo há três ideias que gostava de compartilhar a fim de pensar arte, negra, africana ou latina, ou apenas para falar do tapete de minha avó. A primeira é sobre a palavra herdada, a segunda sobre ressignficá-la e a terceira é o perigo.

Das palavras, Bantu, por exemplo, era apenas um modo simples de dizer "humanos” em muitas línguas da África Central e Austral, e Muntu “pessoa”. Há implicações práticas em demarcar diferença aqui, tanto quanto os sentidos próximos, mas diversos, da bios e zoe gregos. O diabo mora nos detalhes, diria minha avó. Mas Bantu e Muntu eram apenas palavras na boca de diferentes povos até que, no século XIX, o linguista alemão Wilhelm Bleek decidiu transformar o signo-palavra bantu numa categoria de organização de centenas de línguas africanas aparentadas (segundo ele) e de pessoas. No apartheid da África do Sul, os negros eram os bantus (cujo uso foi condenado posteriormente) ao lado dos coloreds e brancos.