Confira todos os textos da edição #326
- Ferreiros de Potengi e a cidade que não dorme, por Daisson Flach
- Sobre Tasso Bangel, por Arthur de Faria
- Crônicas animais - A corda é o vínculo, por Marília Kosby
- Há par e ser: África e o Sul Global na Bienal de Veneza, por Samantha Buglione
- Espaço e tempo na era das plataformas: contribuições de Milton Santos para compreender o Brasil contemporâneo, por Wagner Nabarro e Natalia Sá Britto
- Do lado de cá do arroio, por Evandro Machado Luciano
- As primeiras reduções do Tape, por Artur Barcelos
- Entre o mundo e eu - Capítulo VI, por Marlon Pires Ramos
- Cordel do Corte Raso - Capítulo 5, por Gonçalo Ferraz
No Cariri cearense, ao pé da Chapada do Araripe, há uma cidade que não dorme. O retinir de ferro sobre ferro perfura a noite sertaneja no maquinismo inconstante e orgânico de um estranho relógio que marca o tempo como uma respiração.

Na madrugada sertaneja, a sinfonia das forjas afugenta os agouros. A cidade se sabe guardada pela Égide forjada pelos Ciclopes da terra mítica de Suassuna. Os ferreiros de Potengi fazem soprar os velhos foles que avivam o sol íntimo e vermelho da forja. O calor do carvão em brasa amolece o ferro que, em mãos hábeis e vigorosas, ganhará forma e têmpera. Sincronizadas duplas alternam golpes precisos de marretas e martelos, moldando o metal incandescente que as tenazes sustentam sobre maciças bigornas. Pequenas estrelas se espalham a cada estridente impacto. Constelações surgem e se apagam no breu das oficinas.