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Na companhia de Cascudo

Parêntese #330

Na companhia de Cascudo
Câmara Cascudo

Confira todos os textos da edição #330

Talvez o maior elogio que se possa conferir a um autor é dizer que sua obra nos ajuda a mitigar a solidão. Câmara Cascudo é um desses autores que me fizeram sentir menos só – em vários sentidos; porém um deles é o que importa aqui. Eu me refiro à solidão do brasileiro no Brasil. Pois o Brasil, enquanto conceito infinito de país, nos interpela com o paradoxo da imensidão e do extravio: é tão vasto e tão variado, tão irredutível à decifração formulaica, tão incomensurável na tensão da uno e do múltiplo, tão específico em suas partes, tão espalhado no sentido geográfico e cultural, que às vezes pode causar, pelo assoberbamento, uma ilusão de ausência. Pelo que experimentei na vida, um dos antídotos a essa eventual fantasmagoria do Brasil é mergulhar, o mais profundamente possível, no contraste dialético entre a familiaridade e estranheza: é compreender o quanto as partes mais distantes desse todo me estão próximas, e o quanto também eu estou próximo daqueles que talvez me achem distante e estranho. Esse efeito de totalidade no caos, essa pax brasiliana entre realidades e imaginações que se afastam e se aproximam, que colidem e engendram, eu o encontrei, entre outros, nas páginas do querido Cascudo – numa experiência de síntese realmente cardeal, sendo leitor e autor oriundos de algum Rio Grande, este do Sul, aquele do Norte.