Confira todos os textos da edição #330
- Jamil Chade: “Casa é onde a gente vai com as pessoas que a gente ama”, por Roberto Jardim
- Copa numa hora dessas, por Roberto Jardim
- As Copas do Simon, por Carlos Simon
- Álbum de recordações, por Eduardo Brigidi
- Os Guarani e seus mapas, por Artur Barcelos
- O rock gaúcho - Parte XI, por Arthur de Faria
- Meu paciente chamado Guaíba, por Enrique Falceto de Barros
- Terras raras: de patinhos feios a cisnes, por José Roberto Iglesias
- Entre o mundo e eu - Capítulo X, por Marlon Pires Ramos
- Na companhia de Cascudo, por José Botelho
- 1926 - A estreia da banda italiana de Otávio Rocha, por Álvaro Santi
- Cordel do Corte Raso — Capítulo 9, por Gonçalo Ferraz
O segredo do Bixo era simples: ao invés do rock tropicalista e superelaborado que faziam no Liverpool, um rock’n’roll mais stoniano, com eventuais voos progressivos no clima das bandas inglesas da época, como o Yes. Em comum em ambas as bandas, um suingue muito acima da média do “rock brasileiro”. Incendiado pela guitarra de Mimi, cozinhado por Marcos e Edinho e com um espetacular performer à frente: Fughetti, sabendo cada vez melhor aproveitar a imagem de fauno que os longos cabelos e a barba considerável já lhe davam, pulando ensandecido pelo palco.
Mas mudaram não só na música. Também, e muito, nos temas das suas letras.
Mimi:
Na real, no Liverpool, nós éramos adolescentes suburbanos, classe média, brancos, com aquela coisa de escola-futebol-música... Nós tínhamos tudo pra ter um comprometimento com os principais temas sociais, direitos... mas a gente nem pensava nisso. A gente só queria curtir o timbre da guitarra, aquele som da Gretsch do George Harrison... Mas, mesmo assim, a gente tinha uma identificação com o “mau comportamento” entre aspas. O nosso repertório, quando a gente começou a tocar nas reuniões dançantes, era The Birds, por exemplo. Que veio do movimento folk. E, fazendo um parêntese, o folk era um movimento organizado, auxiliar do partido comunista nos anos 1950 lá nos Estados Unidos. (...) A gente tocava Stones também. (...) Não entendia muito as letras, mas o movimento anti-bom-mocismo já nos atraía. A gente sempre teve um pouco de rebeldia.
(...)
Ainda assim, o Liverpool cantava o amor. Já o Bixo da Seda não. A gente já tinha mais noção das pessoas ricas, das pessoas pobres, de quem roubava, quem não roubava, a ditadura castigando, censura... a gente ficou mais de olhos abertos. Tinha uma noção da vida, contra o conservadorismo. O Fughetti sempre teve isso, sempre foi muito rebelde. (...) O Fughetti tinha um temperamento incrível.