Confira todos os textos da edição #327
- Milton Santos: a permanência dos conceitos, por Mario Lahorgue e Victor Hugo Oliveira
- O rock gaúcho - parte VIII, por Arthur de Faria
- Muito antes de Trump – a trama milenar entre Armênia e Irã, por Daniel Scandolara
- De Antigo Tape à Banda Oriental do Rio Uruguai, por Artur Barcelos
- Cordel do Corte Raso - Capítulo 6, por Gonçalo Ferraz
- Entre o mundo e eu – Capítulo VII, por Marlon Pires Ramos
- Porto Alegre, 1913 – A inauguração da Confeitaria Rocco, por Arnoldo Doberstein
- Tudo é falso, tudo é verdadeiro: resenha do novo filme de Jim Jarmush, por Guto Leite
- Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo: “Segurança pública precisa ser tratada como política de Estado”, por Luís Augusto Fischer
*Esta resenha tem spoilers. Esta resenha não tem spoilers.
O filme mais recente de Jim Jarmusch, Pai mãe irmã irmão (2025), articula três histórias independentes. Na primeira, um filho e uma filha visitam o pai, que aparentemente precisa de ajuda, mas que na verdade leva uma vida confortável e de possíveis prazeres. Na segunda, duas irmãs fazem sua visita anual à mãe, rígida e ciosa da etiqueta, mas escritora de romances eróticos. Por fim, um irmão e uma irmã gêmeos visitam o apartamento vazio dos pais mortos em acidente de avião - o quanto os pais são legais ou não legais (e mesmo ilegais) fica em suspenso enquanto os filhos recuperam pela memória os laços entre si e com eles.
O sentido do filme, contudo, atravessa as três histórias. De modo mais imediato, pelos elementos recorrentes entre elas: a luminária, a água, o brinde, algumas expressões específicas, etc.; como se as vidas ecoassem umas nas outras. Um desses elementos, os jovens andando de skate (únicas cenas que se dão em slowmotion), sugere que podemos partir dessa metáfora para uma segunda leitura, mais profunda. Os ecos entre as cenas revelam a natureza estética, armada, fílmica das histórias. Para dizer o óbvio: não estamos acompanhando pessoas, estamos vendo um filme. Nos três casos está em jogo uma imagem e uma contra-imagem, o que sabem de si e de seus pais e uma outra versão dessas pessoas. Mais do que um jogo realista de descobrir a essência da aparência, estamos diante da impossibilidade mesma de chegarmos a uma verdade cabal.