Os debates sobre o clima colocam um número em evidência: 1,5ºC. Trata-se do limite para o aumento da temperatura média da Terra definido pelo Acordo de Paris, que precisa ser respeitado para minimizar os riscos e impactos mais contundentes das mudanças climáticas – cada 0,1ºC adicional pode afetar cerca de 100 milhões de pessoas.
Em 2024, ano mais quente já registrado na série histórica iniciada em 1850, esse índice foi ultrapassado pela primeira vez, com o planeta 1,55ºC mais quente em relação aos níveis pré-industriais, segundo a Organização Meteorológica Mundial. Em janeiro, o Serviço Copernicus (C3S) da União Europeia informou um aumento ainda maior: 1,6ºC de aquecimento.
Com mais da metade da população mundial vivendo em cidades, a elevação das temperaturas é um dos aspectos mais críticos das mudanças climáticas. Diante desse cenário, pesquisadores apontam a necessidade de um planejamento urbano que leve em conta a implementação e preservação de áreas verdes, corpos d’água e corredores ecológicos para um resfriamento do ar em até 5ºC.
A criação de refúgios climáticos também ganha evidência como forma de mitigar o calor nas cidades – um dos principais atores da cooperação internacional necessária para “mobilizar ações climáticas mais robustas e ambiciosas”, conforme o Acordo de Paris.
“Havia uma estimativa de que em 2050 poderíamos chegar em 1,5ºC, o que foi alcançado quase 30 anos antes”
Embora os dados de 2024 ainda não signifiquem o descumprimento do acordo global, a elevação acelerada da temperatura do planeta é um dos alertas mais significativos da crise do clima. O panorama é ainda mais alarmante considerando que a última década apresentou os 10 anos mais quentes já registrados.
O Brasil acompanha o cenário global. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a média das temperaturas em 2024 foi de 25,02°C no país, a maior desde 1961, primeiro ano da série histórica. Além disso, as cinco maiores médias brasileiras já registradas se concentram no período de 2016 a 2024.
“Provavelmente estamos acelerando esse aumento de temperatura. Havia uma estimativa de que em 2050 poderíamos chegar em 1,5ºC, o que foi alcançado quase 30 anos antes. É uma péssima notícia”, alerta o climatologista Luciano Zasso, professor do curso de geografia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em entrevista à Climática.
O alerta gerado pelos resultados de 2024 vem sendo reforçado com números de 2025, com o mês de janeiro mais quente já registrado no planeta. Em fevereiro, durante as ondas de calor que atingiram o Rio Grande do Sul, suspendendo o início das aulas da rede estadual, o município de Quaraí, na Fronteira Oeste, alcançou a máxima de 43,8ºC – a maior temperatura já registrada no estado pelo Inmet. Nesse mesmo período, Porto Alegre se tornou a capital mais quente do país.
Ilhas de frescor transformadas em ilhas de calor

Quando colocamos as cidades em foco, as altas temperaturas corroboram o quadro de emergência climática. O Relatório Mundial das Cidades 2024: Cidades e Ação Climática, do Programa da ONU para os Assentamentos Humanos, aponta que “as temperaturas mais quentes e o aumento da frequência e intensidade de ondas de calor podem levar a uma demanda maior de resfriamento, tensionando o fornecimento de energia elétrica, potencialmente levando a falhas e interrupções da rede”.
Vale lembrar que 55% da população mundial vive em áreas urbanas – e o percentual deve crescer para 68% até metade deste século. Na década de 2050, mais de 1,6 bilhão dos habitantes de áreas urbanas poderão enfrentar temperaturas médias superiores a 35ºC.
Um dos principais motores do aquecimento nos contextos urbanos, segundo o professor Luciano Zasso, é a substituição de vegetações por superfícies construídas. “Em grande escala, lugares onde antes havia áreas verdes e matas nativas são ocupadas por condomínios e áreas de loteamento pavimentadas com cobertura asfáltica e cimento. Isso é uma bomba-relógio. Ilhas de frescor urbanas são substituídas por ilhas de calor”, explica o pesquisador.
“Nitidamente é uma falta de planejamento urbano adequado. ‘Falta’ entre aspas, pois há um planejamento, mas pelo viés da exploração econômica, que não fecha com a necessidade urgente de reduzir esse aquecimento exacerbado, que começa pelos grandes centros urbanos, onde a vida econômica acontece. Precisamos manter as poucas áreas que ainda existem e criar novas ilhas de frescor”, afirma Zasso.
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Em Porto Alegre, a diferença entre árvores derrubadas pela construção civil e compensações do setor ilustra a fala de Zasso. Entre 2023 e 2024, 12.038 árvores foram cortadas na capital para dar lugar a construções. No mesmo período, somente 6.205 mudas foram plantadas, segundo dados da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus), obtidos em reportagem da Matinal via Lei de Acesso à Informação (LAI).
Um exemplo recente dos efeitos nocivos da derrubada de árvores foi constatado pelo Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (InGá) no Parque Harmonia, durante uma das ondas de calor de fevereiro em Porto Alegre. Em vídeo, o biólogo Paulo Brack registra a temperatura de 61ºC em uma área pavimentada e critica o corte de mais de 100 árvores realizado no local, concedido pela prefeitura de Porto Alegre à empresa GAM3 Parks.
As diferenças de temperatura também são observadas nas escolas. Segundo reportagem da Agência Pública, com base em pesquisa do Instituto Alana e do MapBiomas, 2,5 milhões de crianças e adolescentes do país estudam em instituições pelo menos 3ºC mais quentes que as cidades onde estão localizadas – em Porto Alegre 51,8% sofrem com essa situação.
Vegetação e corpos d’água reduzem temperaturas
Em meio às ondas de calor de Porto Alegre, o escritório de urbanismo, paisagismo e arquitetura Versa Urb publicou um estudo técnico que constata o papel decisivo da vegetação para temperaturas mais amenas na cidade. Com base em dados de cobertura arbórea do Diagnóstico Ambiental de Porto Alegre (LABGEO/UFRGS) e de temperatura mediana do solo entre 2014 e 2024 do satélite Landsat8, os mapas indicam uma correlação entre áreas com menor presença de vegetação e temperaturas mais elevadas.

Os efeitos positivos de áreas verdes para mitigar o aumento das temperaturas nas cidades foram analisados em um estudo internacional, que revisou 202 artigos científicos, com participação da Universidade de São Paulo (USP). O resultado indica a possibilidade de resfriamento da temperatura do ar em até 5ºC por meio de árvores, parques, telhados verdes e corpos d’água.
Neste artigo, o arquiteto Paulo Lima Loge e o professor André Luiz Lopes da Silveira, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, citam o exemplo da abordagem verde-azul, com intervenções mínimas para estabelecer corredores ecológicos e reduzir o impacto das altas temperaturas, além de outros benefícios.
“Porto Alegre está inserida num mosaico de paisagens que contempla os biomas Pampa e Mata Atlântica. O patrimônio natural da cidade possui os atributos necessários para a implantação de uma Trama Verde-Azul por meio de ações para diminuir o estresse térmico, realizar a drenagem urbana mais integrada com a natureza, gerir resíduos de modo eficiente, incentivar práticas de agricultura urbana sem defensivos agrícolas, gerar energia através da matriz eólica, biomassa ou solar, ampliar a infraestrutura de circulação por modais ativos, entre outras”, afirmam os pesquisadores.
Estratégias socioambientais também precisam integrar as medidas, segundo Zasso. “É preciso um planejamento das estruturas urbanas voltado à sustentabilidade socioambiental, abrangendo a ocupação e as atividades humanas e a preservação do meio ambiente, que passa diretamente pela questão climática. Precisamos nos adequar para que a situação não se torne completamente insustentável dentro de 30, 40 anos. Se não fizermos nada, vamos sucumbir”.
Refúgios climáticos
Para mitigar os impactos das temperaturas extremas na saúde coletiva, a criação de refúgios climáticos já vem sendo experimentada. Um exemplo é o Refugio360, desenvolvido por alunas e egressas da Faculdade de Arquitetura da UFRGS e contemplado como finalista do Concurso Internacional Ilha Climática Urbana. O projeto consiste em uma estrutura de andaimes com mecanismos para atenuar o calor por resfriamento do ar ou por sombreamento.

“Estamos articulando parcerias para executar um protótipo em Porto Alegre. Não se trata de uma solução definitiva para o calor urbano, mas um espaço de interação social, disseminação do conhecimento e conscientização”, explica a arquiteta Mariana Mincarone, que desenvolveu o projeto ao lado de Carolina Falcão, Sofia Idiart, Sophie Giasson e Rossana Acosta – com colaboração do paisagista Federico Gesualdi e do arquiteto Lucca Osellame.
Outro exemplo é a iniciativa catalã Rede de Refúgios Climáticos, que oferece conforto térmico durante episódios de calor e frio extremos utilizando locais já existentes, como bibliotecas, espaços esportivos, escolas, parques, pátios residenciais, entre outros.

Segundo o Relatório Mundial das Cidades 2024, Barcelona contava com 353 refúgios do tipo no ano passado, contemplando mais de 95% dos habitantes da cidade com espaços localizados a 10 minutos de caminhada de suas residências. A rede também oferece treinamento a profissionais de saúde para o atendimento de pessoas em situação de vulnerabilidade que não tenham acesso a esses ambientes.
O caso de Barcelona é um exemplo de como as cidades podem desempenhar um papel crucial no enfrentamento dos desafios do clima, como ressalta a brasileira Anacláudia Rossbach, diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (UN-Habitat).
“As cidades costumam ser culpadas, com alguma justificativa, pela perpetuação da crise climática, devido aos padrões elevados de consumo e produção de carbono que as áreas urbanas podem criar. Isso, no entanto, é apenas parte da fotografia”, explica a economista.
“As cidades já estão provando que é possível urbanizar de uma forma que beneficie, e não prejudique, o planeta. De redes de transporte elétrico a edifícios com eficiência energética, da restauração de ecossistemas à reciclagem, há uma série de caminhos que podemos seguir, os quais irão ajudar a conter os efeitos negativos da urbanização, ao mesmo tempo em que oferecem cidades mais seguras, saudáveis e habitáveis para aqueles que vivem nelas. Governos locais e regionais já estão liderando o caminho por meio de ações de adaptação e mitigação climáticas”, afirma Rossbach.
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Esta reportagem integra a newsletter Climática, que tem o apoio do Instituto Serrapilheira e visa ampliar a compreensão sobre o clima com um olhar voltado às cidades. Além de explicar conceitos centrais, a newsletter aponta os principais desafios e soluções relacionados às mudanças climáticas nos contextos urbanos e apresenta uma curadoria de notícias sobre o clima. A iniciativa inclui também o podcast O Fim do Futuro, primeiro podcast original Matinal, que será lançado em abril, em parceria com a Vós Social, que investiga como Porto Alegre mudou – ou não – um ano após a enchente de maio de 2024.