Esta reportagem integra a newsletter Climática, produzida pela Matinal com apoio do Instituto Serrapilheira.
As chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2024 resultaram em mais de 15 mil deslizamentos. É o maior número já registrado em um único evento climático no Brasil, segundo dados do Instituto de Geociências (IGEO) e do Centro Estadual de Pesquisas em Sensoriamento Remoto e Meteorologia (Cepsrm) da UFRGS.
Mais de 10 mil propriedades rurais em 150 municípios foram atingidas por movimentos de massa, nome técnico que engloba deslizamentos e fluxos de detritos e lama. O mapeamento contabiliza 15.376 cicatrizes – marcas deixadas pela movimentação – e 16.862 pontos de ruptura – áreas de encosta onde começaram os movimentos de descida –, formados entre 27 de abril e 13 de maio de 2024.
A área estudada pelos pesquisadores da UFRGS é de aproximadamente 18.000 km², onde estão localizadas as bacias hidrográficas Taquari-Antas, Caí, Sinos e Pardo, e os rios Alto e Baixo Jacuí e Vacacaí-Mirim, conforme nota técnica publicada em abril de 2025 pelo IGEO e Cepsrm. Mais da metade dos movimentos de massa ocorreram na bacia Taquari-Antas.

A região da escarpa sul do Planalto Meridional torna-se especialmente suscetível a deslizamentos por conta de seu relevo – que forma uma espécie de grande “escadaria”, intercalando terrenos de maior e menor inclinação, formados ao longo de processos geológicos de milhões de anos.
Alternam-se áreas de declividade acentuada, com maior presença de mata nativa e protegidas pelo Código Florestal Brasileiro, e estratos mais planos, com ocupação humana intensificada a partir dos processos migratórios oriundos da Europa.

“Essa ocupação pode ser feita de uma maneira em que haja convívio com o risco. Mas com as mudanças climáticas e a previsão de aumento dos episódios e da intensidade das chuvas, fica ainda mais evidente que esse convívio exige uma integração de práticas de monitoramento e prevenção da comunidade, da gestão pública e da ciência”, afirma Clódis Andrades Filho, docente do Programa de Pós-Graduação em Sensoriamento Remoto (PPGSR) da UFRGS.
O pesquisador ressalta outro fator que integra esse contexto: o avanço das monoculturas em direção à região Nordeste do estado, onde antes havia vegetação nativa da Mata Atlântica, com potencial de intensificar eventos extremos devido à perda dos banhados de altitude – com grande capacidade de retenção da água das chuvas – devido à substituição por áreas de plantio.
“Há um tensionamento dos monocultivos nas áreas mais altas na região Nordeste, que é quase uma fronteira agrícola no Rio Grande do Sul, onde predominava campo nativo, e que faz parte do bioma Mata Atlântica. Quando há exposição desse solo, numa próxima chuva, ele pode ser levado, aumentando a carga das águas que descem para os rios”, explica Clódis, que coordena o laboratório Latitude, dedicado ao sensoriamento remoto e às dinâmicas da paisagem.
Sensores e participação comunitária

Nova Petrópolis foi o 8º município do RS mais afetado pelos deslizamentos em 2024, com 562 propriedades atingidas. “O Distrito de Boêmios foi o mais impactado pelos movimentos de massa em Nova Petrópolis. Então surgiu a ideia de realizar um projeto para aquisição de sensores de movimentação do solo e estação meteorológica”, explica o geólogo Peter Klaus Hillebrand, que vive no Distrito de Boêmios.
Ele é o idealizador de um projeto-piloto de monitoramento e educação comunitária para prevenir os riscos dos movimentos de massa, com atenção especial às áreas rurais do município, que até então contava com apenas uma estação meteorológica instalada no centro da cidade.
O sistema é composto por uma estação meteorológica que gera dados sobre chuva, temperatura, vento e umidade do solo e uma rede de inclinômetros, que detectam a movimentação dos terrenos – dois desses sensores já estão em operação e outros seis serão instalados ao longo da pesquisa em áreas com diferentes características geológicas.
“O sistema já está conectado com a Defesa Civil Municipal, que recebe todos os dados e tem a possibilidade de emitir alertas, e vai ficar cada vez melhor com a ampliação do sistema”, explica Clódis, que co-orienta a pesquisa de mestrado de Hillebrand com o professor Ruy Paulo Philipp. No segundo semestre, a totalidade do sistema será entregue ao município e à Defesa Civil de Nova Petrópolis.
Os sensores também permitirão novos estudos sobre a dinâmica dos movimentos de massa – um dos efeitos de eventos hidrometeorológicos que devem se tornar cada vez mais intensos e frequentes com as mudanças climáticas. Os pesquisadores afirmam que a iniciativa pode servir de modelo para outros municípios que enfrentam riscos geológicos.

O Projeto-Piloto de Educação e Monitoramento Comunitário Rural: Vida Segura e Resiliente inclui a realização de cursos e atividades de capacitação da comunidade, voltados não só ao sistema de monitoramento como também à observação do entorno para identificar riscos. A desestabilização de terrenos pode ser percebida, segundo Clódis, por indícios como a inclinação de parreirais, árvores e postes. Outro exemplo é o surgimento ou a interrupção de vertentes d’água, que em alguns casos indicam movimentações no subsolo e riscos potenciais.
A observação da paisagem também possibilita adequações no uso de propriedades que possuem áreas de maior e menor risco geológico, considerando esse fator para que os locais mais seguros sejam priorizados para a construção de residências.

O financiamento da iniciativa foi obtido através da Associação dos Descendentes de Imigrantes da Boêmia (ADIB), entidade com sede em Nova Petrópolis que promove a história e cultura da região europeia hoje pertencente à República Tcheca. Em contato com representantes do país europeu, a ADIB obteve um aporte de 112 mil reais do governo tcheco para o desenvolvimento do sistema.
Propriedades e estradas vulneráveis

Com base em dados do Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (Sicar), o IGEO aponta que houve movimentos de massa em 10.212 propriedades rurais do estado. Veranópolis (1.180) e Bento Gonçalves (1.101) lideram o ranking das 10 cidades com mais propriedades atingidas por movimentos de massa, seguidas por Caxias do Sul, Cotiporã, Pinto Bandeira, Agudo, Roca Sales, Nova Petrópolis, Putinga e Fontoura Xavier.
Os deslizamentos e fluxos de detritos também impactaram 2.430 trechos de estradas. “O desastre do ano de 2024 destacou a vulnerabilidade da infraestrutura viária em áreas de relevo declivoso e a importância de um planejamento que vise a prevenção ao risco de deslizamentos nessas vias, que são responsáveis pela mobilidade de moradores, trabalhadores e turistas nos municípios e entre as regiões do estado”, conclui a nota técnica.
Os pesquisadores do IGEO acompanharam de perto o evento climático de abril e maio de 2024 e desde então realizam avaliações de riscos geológicos em municípios gaúchos, colaborando com diferentes instâncias do poder público. Além da ampliação dos sistemas de monitoramento, recomendam-se obras de pequeno porte, como a construção de canaletas para drenar a água das chuvas, fazendo com que um terreno não concentre água em pontos frágeis. Também é possível usar pedras para formar contenções que minimizem a movimentação de determinados terrenos.
Um dos focos das pesquisas atuais do Instituto de Geociências e do Centro Estadual de Pesquisas em Sensoriamento Remoto e Meteorologia é identificar áreas do estado com maior suscetibilidade a novos deslizamentos, à luz do que foi observado em 2024 e de mapeamentos, modelagem computacionais e trabalhos de campo.
Para Clódis, a Defesa Civil terá um papel cada vez mais central no monitoramento dos movimentos de massa, contando com o apoio de instituições de pesquisa e a ampliação das estações meteorológicas e dos sistemas que analisam as movimentações do solo. A participação ativa das comunidades, como no projeto-piloto de Nova Petrópolis, é outro elemento fundamental para a efetividade das medidas de prevenção.
O pesquisador ressalta ainda a importância dos quadros técnicos dos municípios, que foram decisivos para a resposta ao evento extremo de 2024. “Fez muita diferença municípios com profissionais minimamente capacitados, com formação para lidar com as situações de emergência e recuperação, capazes de utilizar os nossos dados para elaborar planos e captar recursos de recuperação”, afirma o pesquisador, que também integra o projeto Previne Taquari-Antas.
A iniciativa pretende desenvolver estratégias para prevenção, alerta e resposta a eventos extremos geo-hidrológicos, visando a redução de riscos associados a inundações, enxurradas e movimentos de massa na bacia hidrográfica do Taquari-Antas.
O projeto conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) e reúne pesquisadores da UFRGS, da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), do Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) e da TideSat Global Tecnologia e Desenvolvimento.
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Esta reportagem integra a newsletter Climática, que tem o apoio do Instituto Serrapilheira e visa ampliar a compreensão sobre o clima. Além de explicar conceitos centrais, a newsletter aponta os principais desafios e soluções relacionados às mudanças climáticas nos contextos urbanos e apresenta uma curadoria de notícias sobre o clima. A iniciativa inclui também o podcast O Fim do Futuro, primeiro podcast original Matinal, produzido em parceria com a Vós Social, que investiga como Porto Alegre mudou – ou não – um ano após a enchente de maio de 2024