Esta reportagem integra a newsletter Climática, produzida pela Matinal com apoio do Instituto Serrapilheira.
As vulnerabilidades sociais como um fator de agravamento dos efeitos da crise climática foi um dos temas do Climate Change Summit, realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) nos dias 2 e 3 de maio. O evento reuniu mais de 50 palestrantes para debater assuntos como aquecimento global, eventos extremos, pontos de não retorno, biodiversidade, alterações nos oceanos, transição energética e cidades resilientes.
Ao final do evento, a reitora da UFRGS, Márcia Barbosa, apresentou a Carta de Porto Alegre: Um Chamado à Ação, com propostas elaboradas pelos conferencistas para prevenir e mitigar desastres futuros – leia a íntegra aqui.
No painel “Mudanças Climáticas e Sociedade: Vulnerabilidades”, o professor Marcelo Kunrath, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS, ressaltou a distribuição desigual dos impactos e respostas às cheias de 2024. “As experiências que estamos vendo no âmbito do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre mostram que as vulnerabilidades tendem a marcar de forma muito significativa os efeitos dos desastres e a posição que as pessoas ocupam na ordem de prioridade”, afirmou o coordenador do debate.
“As respostas a esses desastres precisam considerar não só conhecimento, técnica e ciência, o que é fundamental, mas também as relações de poder e os interesses econômicos e políticos que têm efeito direto sobre a política de reconstrução e a prioridade no acesso a recursos do Estado”, completou.
Justiça climática
A apresentação da bióloga Lorena Fleury analisou os impactos da enchente de 2024 no Rio Grande do Sul. “Os bairros mais atingidos têm mais pessoas pretas e pardas, as mulheres são mais sobrecarregadas e expostas à violência e os tempos de resposta são bastante diferentes (entre diferentes grupos sociais). Os modos como se vivencia o desastre climático são atravessados pelo que temos nomeado de injustiças ambientais. Os mais atingidos têm raça, classe e gênero bem marcados”, destaca Fleury, que é doutora em sociologia e docente dos programas de pós-graduação em Sociologia e em Desenvolvimento Rural da UFRGS.
Para abordar a dimensão étnico-racial das inundações, a professora citou um mapeamento produzido pelo Observatório das Metrópoles que aponta um impacto mais agudo da enchente em bairros com uma concentração expressiva de pessoas de baixa renda e população negra – geralmente acima da média dos municípios, tanto em Porto Alegre como no Vale do Sinos. A análise converge com estudo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), divulgado nesta semana, que destaca o cenário de racismo ambiental do desastre de 2024 – saiba mais sobre o relatório a seguir.
Para Fleury, os debates sobre a crise ambiental devem ser orientados por ações baseadas na justiça climática: “Para além de um conceito abstrato, ela deve pautar a agenda de enfrentamento às mudanças climáticas. Temos cada vez mais dados e elementos de como esses marcadores sociais – raça, classe e gênero – fazem diferença e precisam estar no centro”.
A pesquisadora integra o grupo de pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade, que analisa instrumentos de política climática nos três níveis administrativos do país, e defende a transversalidade efetiva de políticas relacionadas às mudanças do clima, com um olhar para as experiências das pessoas em nível local.
“Quando o clima é tratado como uma caixinha à parte, perdemos a materialidade da vida cotidiana. Perdemos a possibilidade de vincular, por exemplo, as mudanças climáticas a processos como a demarcação de terras e uma série de outros instrumentos de política pública que estarão efetivamente vinculados às formas como as pessoas – especialmente pretas, pardas, povos indígenas, mulheres e pessoas de classes mais baixas – estão vivenciando cotidianamente em seu território”.
Fleury também destaca a necessidade de um novo “imaginário sociotécnico”, explicando que o conceito diz respeito a visões coletivamente imaginadas das relações entre sociedade e natureza que orientam projetos tecnológicos.
Como exemplo de articulação que busca esse novo olhar, a pesquisadora cita a Frente Popular de Enfrentamento à Emergência Climática no Rio Grande do Sul – coletivo de movimentos sociais e grupos atingidos pela enchente que busca unir conhecimentos técnicos, científicos, populares e tradicionais.
Causas para além do clima
Professora de Geografia na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), Irasema Alcántara-Ayala propôs uma reflexão sobre os impactos das mudanças climáticas para além do clima, considerando as vulnerabilidades sociais como “epicentros” dos desastres e superando a noção de naturalidade dos efeitos da crise ambiental.
“É preciso transformar a visão de que tudo é ‘natural’ e de que o clima e a natureza estão contra a gente. Os desastres são processos sistêmicos que se desenvolvem ao longo do tempo. A história de nossas sociedades, seus modelos econômicos e políticos, suas ações e omissões no manejo do território exercem um papel fundamental na criação das condições de vulnerabilidade, exposição e, por fim, dos desastres”, afirma a professora.
Para Ayala, as respostas aos desastres climáticos precisam enfatizar um conjunto mais amplo de fatores que geram condições de risco. “Em alguns eventos, será muito importante analisar o papel das chuvas extremas, dos furacões etc., mas há uma parte que não se reconhece e não se aceita, com a intenção de evitar responsabilizações, que é o crescimento significativo da vulnerabilidade e da exposição”.
Novas e antigas vulnerabilidades
Corroborando as reflexões apresentadas no Climate Change Summit, o relatório Impactos das Enchentes no Rio Grande do Sul, produzido pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), ressalta que os impactos das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul foram desiguais, atingindo de maneira desproporcional grupos marginalizadas, como afrodescendentes, quilombolas e indígenas. Além de apontar um cenário de racismo ambiental, o estudo observa que os impactos podem chegar a populações que, até então, não se encontravam em situação de vulnerabilidade socioeconômica.
“A inundação do Rio Grande do Sul em 2024 demonstrou que eventos climáticos extremos podem, em poucas horas, colocar pessoas em situação de vulnerabilidade social, alterando drasticamente suas condições de vida e acesso a recursos essenciais. Tal fato reforça a necessidade de ampliar a abordagem dos mecanismos de resposta e proteção social para incluir novos grupos afetados pelos riscos climáticos”, afirma o estudo, citando como exemplo moradores de regiões costeiras que, mesmo sem enfrentar dificuldades econômicas, estão cada vez mais expostos a eventos extremos e devem ser contemplados no planejamento de respostas emergenciais.
O relatório também cita trabalhadores cuja subsistência está diretamente associada a ecossistemas naturais, como ocorre com as populações ribeirinhas que dependem da pesca. “A paralisação dessas atividades durante e após eventos climáticos severos tem impactos na segurança alimentar, na economia local e na sustentabilidade de comunidades inteiras. Da mesma forma, pequenos produtores rurais e agricultores e agricultoras familiares são ainda mais vulneráveis, uma vez que a imprevisibilidade climática afeta sua capacidade de produção, colocando em risco sua segurança alimentar e meios de subsistência”.
A CIDH defende, entre outras recomendações, que as políticas públicas de resposta a desastres climáticos sejam planejadas de modo amplo e participativo, considerando não apenas a população em situação de pobreza, mas também “comunidades e setores econômicos expostos à vulnerabilidade climática devido à sua localização geográfica, dependência de atividades produtivas sensíveis a eventos extremos e outros fatores de risco”.
O relatório detalha impactos diversos, que vão da perda de moradia ao acesso a benefícios sociais, sofridos em 2024 por diferentes grupos não hegemônicos. A íntegra da publicação está disponível aqui.
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Esta reportagem integra a newsletter Climática, que tem o apoio do Instituto Serrapilheira e visa ampliar a compreensão sobre o clima com um olhar voltado às cidades. Além de explicar conceitos centrais, a newsletter aponta os principais desafios e soluções relacionados às mudanças climáticas nos contextos urbanos e apresenta uma curadoria de notícias sobre o clima. A iniciativa inclui também o podcast O Fim do Futuro, produzido em parceria com a Vós Social, que investiga como Porto Alegre mudou – ou não – um ano após a enchente de maio de 2024.