Às 5h de 11 de setembro, na cidade de Portão, a família de João Batista Fernandes foi acordada por agentes da Polícia Civil. A cerca de oito quilômetros, na casa de Mariles da Silva, em São Leopoldo, a mesma coisa: gritos de “polícia, polícia” e a entrada na casa.
“A gente acordou com aqueles policiais quebrando o portão, estourando o portão eletrônico, quebrando a porta da casa, gritando”, relata Sílvia Kempfer, irmã de Fernandes. “Quase dez homens armados com aquelas armas na cabeça da gente”, conta Kempfer sobre o dia em que o irmão foi preso.
Naquela manhã, o Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC) da Polícia Civil deflagrava a operação Truck Hunters contra uma organização criminosa que utilizava galpões alugados para desmontar caminhões furtados, extorquir motoristas e repassar as autopeças. Em nota divulgada à imprensa no dia da operação, o delegado encarregado da Truck Hunters, Gabriel Lourenço, afirmou que o grupo investigado havia fraudado documentos de duas pessoas, com as iniciais J.B.F. e M.S., que não participaram dos crimes. A Matinal confirmou, ao acessar os documentos da investigação, que J.B.F. e M.S. são referências a João Batista Fernandes e Mariles da Silva.
Fernandes, 67 anos, e Silva, 38, não foram interrogados e ficaram 18 dias presos sem que a família ou os advogados tivessem acesso aos motivos da detenção. Nenhum dos dois possuía antecedentes criminais.
A investigação, inicialmente de responsabilidade de Lourenço, passou para o delegado André Serrão. Em 30 de outubro, 49 dias depois da prisão, ainda que a própria polícia apontasse que Fernandes e Silva haviam sido vítimas de golpe, Serrão recomendou o indiciamento de ambos junto de outras 26 pessoas. De acordo com o delegado, o idoso e a mulher seriam membros da organização criminosa. O Ministério Público tem até o dia 22 de novembro para se manifestar.
Na segunda (17), vestindo roupas pretas, cerca de 50 amigos e familiares de Fernandes se reuniram em frente ao prédio I do Foro Central de Porto Alegre com pedidos de justiça. Os pedidos buscavam sensibilizar o juiz Ricardo Petry Andrade, da 2ª Vara Estadual de Processos e Julgamento dos Crimes de Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro. Naquela mesma tarde, Fernandes e Silva foram comunicados de seu direito de ir à prisão domiciliar após mais de dois meses detidos na Cadeia Pública de Porto Alegre e no Presídio Estadual Feminino Madre Pelletier, respectivamente.
Amigos e familiares ficaram sabendo de encaminhamento de João Batista Fernandes à prisão domiciliar em meio ao protesto | Fotos: Pedro Pereira/Matinal
A defesa de Fernandes protocolou quatro pedidos de liberdade provisória entre o dia da operação e o dia 28 de outubro, informando as condições de saúde do idoso. A defesa de Silva solicitou sua liberação com base na relação da mulher com a filha, que tinha dez anos quando a mãe foi presa. Ainda assim, a liberação só ocorreu 67 dias depois. Fernandes deixou a prisão 10 quilos mais magro. Silva perdeu o aniversário da filha Beatriz, que completou 11 anos no dia 15 de novembro.
Natural de São Leopoldo, Fernandes reside em Portão desde os seis anos. Ele tem histórico de saúde frágil, sendo portador de neuropatia periférica, doença de Crohn, HIV, HPV e gastrite, dentre outras comorbidades. De acordo com a família, ele faz uso de cerca de 40 comprimidos diariamente. Consultas médicas foram desmarcadas. O celular pessoal com informações cruciais sobre sua saúde foi apreendido.
Imagem de CNH vencida foi utilizada para tentar alugar galpões
A investigação coordenada pelas delegacias de Polícia de Repressão ao Roubo e Furto de Cargas (DRFC) e pela de Repressão ao Crime Organizado (DRCOR) apontou que João Batista Fernandes “forneceu seus dados para o aluguel de imóveis onde eram realizados os desmanches dos caminhões” em setembro de 2023, com o uso de uma imagem de sua Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
A Matinal teve acesso aos documentos mencionados pela investigação. A CNH vencida havia sido entregue por Fernandes em maio de 2023 ao Centro de Habilitação de Condutores de Portão para emissão da nova carteira. Na decisão que confirmou o encaminhamento de Fernandes para prisão domiciliar, os juízes mencionam que o vencimento da carteira não pode ser considerado álibi para inocentá-lo: “O que foi utilizado não foi o documento físico, mas sim uma imagem digital, a qual pode ter sido capturada e armazenada muito antes”, descrevem em decisão emitida nesta segunda-feira.
Mensagens enviadas aos proprietários de um galpão em Viamão revelam uma tentativa de alugar o espaço em nome de Fernandes. Os suspeitos encaminharam o documento, informaram um endereço no bairro Canudos, em Novo Hamburgo, e afirmaram que o homem atuava como mecânico.
De acordo com sua família, Fernandes nunca residiu em Novo Hamburgo ou foi mecânico. Ainda, de acordo com o advogado de Fernandes, Adriano Luz, o galpão não foi alugado no nome dele, e sim de Ramon Backes, também apontado como “laranja” da organização criminosa.
Investigados usaram conta de luz no nome de Mariles da Silva
No caso de Mariles da Silva, a organização criminosa utilizou uma conta de luz em nome da técnica em radiologia como comprovante de residência para alugar um galpão. A assinatura de próprio punho na conta de luz no endereço leva o nome de Backes, sem confirmação por parte de Silva, titular do documento, de que ele residia na casa dela, em São Leopoldo. Ela afirma não conhecer o dono da assinatura: “Eu nem conhecia esse Ramon, nem sabia que morava para cá. Nunca vi na minha vida”, relatou ao advogado.
De acordo com o advogado Lucas Grawer, que representa Silva, os motivos para a prisão demoraram a ser expostos à defesa. “Foram 18 dias em que os advogados não podiam saber por que ela estava sendo presa”, afirma.
O advogado também questiona a ausência de interrogatório: “Depois que foram presos, nenhum deles foi interrogado. Nem se dignificaram a chamá-la para perguntar ou explicar”, contesta. O advogado de Fernandes confirma a informação de Grawer: “Foram quase três semanas que eles estavam em sigilo total. Ninguém tinha acesso a nada”, garante.
No inquérito policial, há uma menção à extorsão e estelionato como antecedentes criminais de Silva. Algumas páginas depois, há a informação de que a mulher não possui antecedentes, informação confirmada por seu advogado.
Polícia apontou fraude, mas seguiu com o indiciamento
Em nota divulgada à imprensa pelo delegado Gabriel Lourenço no dia da operação, o DEIC confirmou que os documentos de duas pessoas eram utilizados pelos criminosos: “A organização mantinha um sistema sofisticado para obtenção de documentos falsos. J.B.F. e M.S. tiveram suas identidades utilizadas fraudulentamente em diversos contratos de locação. A investigação encontrou cópias de documentos desses cidadãos nos celulares dos criminosos, evidenciando o uso sistemático de identidades de terceiros”.
A Matinal contatou Lourenço para confirmar os fatos apontados na nota, mas não obteve resposta. O espaço segue aberto.
Procurado pela Matinal, o delegado André Serrão afirmou que tanto Silva como Fernandes tinham indício de participação na organização criminosa.
Questionado sobre a existência de outras provas além dos documentos, sobre a ausência de interrogatório no caso e sobre a possibilidade de que os documentos tenham sido utilizados fraudulentamente, o delegado não respondeu. O espaço segue aberto.
Ele afirmou que “o relatório final de inquérito não replica tudo que foi investigado” e que não acompanhou o volume da investigação desde o começo. Segundo ele, agentes que conduziram a investigação o informaram “que diante da indagação, foi colhido o termo de permanecer em silêncio no dia da operação de todos os alvos”.
Fernandes, Silva e suas famílias agora aguardam o Ministério Público que tem até 22 de novembro para se manifestar, podendo oferecer ou não denúncia contra os suspeitos indiciados pela polícia.