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Tão longe, tão perto: qual a relação da Antártica com os ciclones no sul do Brasil?

Pesquisadores da UFRGS que integraram a Expedição Antártica explicam o comportamento de dinâmicas atmosféricas da região – e por que a emergência climática exige compreender melhor as relações entre o continente gelado e a América do Sul

Tão longe, tão perto: qual a relação da Antártica com os ciclones no sul do Brasil?
Venisse Schossler (de azul) e equipe do Centro Polar e Climático da UFRGS realizam coletas de gelo no Glaciar Mertz. Foto: Anderson Astor e Marcelo Curia

Esta reportagem integra a newsletter Climática, produzida pela Matinal com apoio do Instituto Serrapilheira

O ciclone extratropical que atingiu estados do Sul do país nos últimos dias resultou em chuvas volumosas, vendavais e ressaca marítima. Fruto do encontro entre massas de ar quente e frio na região subtropical, esse tipo de evento deve se tornar mais frequente e intenso devido às mudanças climáticas. Para entendê-lo, é necessário observar o aquecimento do planeta e as dinâmicas atmosféricas e oceânicas de um continente que está mais próximo do Brasil do que costumamos pensar.

“Nenhum lugar do mundo – Austrália, Nova Zelândia ou África do Sul – é tão perto da Antártica como o sul da América. Porto Alegre está mais próxima do continente antártico que do Acre ou do Amapá, por exemplo. E assim como a Amazônia influencia nosso clima, a circulação atmosférica da Antártica também acaba influenciando diretamente o sul do Brasil”, afirma a climatologista Venisse Schossler, integrante do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Expedição Internacional de Circum-Navegação Costeira Antártica, realizada entre novembro de 2024 e janeiro de 2025, liderada por pesquisadores da universidade.

Venisse Schossler durante reunião a bordo do Akademik Tryoshnikov. Foto: Anderson Astor e Marcelo Curia

Um exemplo dessa influência se dá no contraste entre massas de polar oriundas da Antártica e de ar quente carregadas de umidade da região equatorial. Temperaturas mais destoantes intensificam as precipitações, como nas chuvas que provocaram a enchente histórica de 2024.

Essa diferença de temperaturas também favorece a formação de ciclones extratropicais – conhecidos como sistemas de baixa pressão, ou seja, regiões da atmosfera onde a pressão do ar é menor em relação ao seu entorno. Embora desempenhem papéis para o equilíbrio climático no planeta, os ciclones costumam ser associados aos danos que provocam em áreas urbanizadas.

Devido a uma localização geográfica que propicia o encontro de massas de ar quentes e frias, o Rio Grande do Sul está na rota desse tipo evento. Em 2023, foi registrada uma sequência de nove ciclones extratropicais no estado. O mais fatal, em setembro daquele ano, provocou enchentes no Vale do Taquari que resultaram em 54 mortes confirmadas – o maior desastre climático do estado até então.

O evento mais recente, no final de julho de 2025, gerou rajadas de vento superiores a 120 km/h que provocaram danos materiais em mais de 20 cidades, queda de árvores, falta de luz elétrica em mais de 340 mil unidades e desabamentos na plataforma de Atlântida (RS).

Ciclone extratropical (em verde e amarelo) junto à costa do RS no dia 29 de julho de 2025. Mapa: Universidade do Maine

“Foi um ciclone intenso, que se originou entre o noroeste do Rio Grande do Sul, o norte da Argentina e o Paraguai, atingindo seu ápice na costa, gerando ventos e tempestades. O contraste de temperaturas entre o norte e o sul da América do Sul conferiu intensidade à circulação atmosférica”, explica o climatologista Francisco Eliseu Aquino, que também integrou a expedição liderada pela UFRGS ao continente antártico.

O ingresso de frentes frias na América do Sul está relacionado à Oscilação Antárticauma alternância entre fases brandas e intensas de um cinturão de ventos ao redor do continente gelado – que concentra 90% do gelo do planeta em seus 13,8 milhões de quilômetros quadrados, equivalente à soma dos territórios de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai.

A duração de cada ciclo pode durar dias ou meses. Na atual fase de oscilação negativa, explica Schossler, ventos mais fracos no entorno da Antártica permitiram que o ar polar atravessasse o cinturão e se aproximasse do Cone Sul, provocando um inverno rigoroso e o frio do contraste de temperaturas propício a ciclones.

Estamos em um momento de Oscilação Antártica negativa, quase neutra, que permite às massas de ar frio chegarem às latitudes subtropicais da América do Sul”, afirma a professora. Nos últimos dias, uma dessas massas encontrou temperaturas mais elevadas. “O calor e a umidade vieram da Amazônia e do Atlântico, que está com a temperatura acima da média na região equatorial. Essas duas regiões forneceram calor e encontraram uma massa de ar frio. Quando isso acontece, há uma predisposição a formar ciclones”, completa Schossler.

Contraste de temperaturas na América do Sul no dia 29 de julho de 2025. Mapa: Universidade do Maine

Já a oscilação positiva, preponderante nos últimos 50 anos, tendência atribuída aos danos na camada de ozônio e ao aumento das emissões de gases de efeito estufa, indica ventos mais fortes em torno da Antártica, capazes de concentrar o ar gelado ao redor do polo e empurrar água do oceano Austral – delimitado pelo paralelo 60 sul – em direção ao Atlântico. Essa movimentação oceânica tem contribuído para elevar as águas na costa sul do Brasil nos últimos anos.

Nível do mar em elevação

Expedição Antártica. Foto: Anderson Astor e Marcelo Curia

As dinâmicas atmosféricas e oceânicas da Oscilação Antártica somadas ao aumento global da temperatura das águas, que expande o volume dos oceanos, têm contribuído para elevar o nível do Atlântico na costa sul do Brasil. A alteração de nível ao redor do planeta não é homogênea, explica Schossler, devido a uma série de fatores que inclui essas dinâmicas.

Nos últimos 30 anos, sobretudo a partir de 2010, segundo a pesquisadora, houve uma elevação de 12 centímetros do Atlântico junto ao litoral sul do país, com prognóstico total de 20 centímetros no período que vai até 2070 – dois a mais que a previsão para as outras regiões da costa brasileira. 

O prognóstico de 20 centímetros, ressalta Schossler, deve impactar sobretudo áreas do litoral sul do país onde não há proteção de dunas, além de reduzir a faixa de praia, entre outros efeitos que poderão ser agravados por eventos extremos, como ciclones e tempestades. Cidades como Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre, conectadas ao Atlântico pela Lagoa dos Patos, também poderão ser impactadas por esse acréscimo no volume de água.

“Vinte centímetros podem não parecer tão representativos, mas são parte de um combo, já que os eventos também vão se intensificar com o aumento do nível do mar. É muito preocupante porque os modelos estatísticos fornecem previsões superficiais, que não dão conta de colocar todas as variáveis numa equação. São previsões de cenários péssimos, mas que poderiam ser muito piores se conseguíssemos colocar todos os elementos juntos e prever que um deles pode escapar muito da média, ao ponto de formar um cenário catastrófico”, explica a pesquisadora.

“A tendência estatística é seguir subindo, com maior contribuição da Antártica devido ao derretimento de gelo, geleiras e calotas, que vai acelerar o processo. É assustador, um reflexo direto do aumento exacerbado de temperatura global nos últimos 15 anos”, completa Schossler.

Expedição encontrou Antártica mais verde – e isso não é um bom sinal

Expedição Antártica. Foto: Anderson Astor e Marcelo Curia

A partir de resultados preliminares da Expedição Antártica, que percorreu mais de 29 mil quilômetros a bordo do navio quebra-gelo russo Akademik Tryoshnikov, já foi possível constatar a intensificação do derretimento de geleiras na ilha Rei George – onde se encontra Estação Antártica Comandante Ferraz, pertencente ao Brasil –, a formação de córregos de derretimento sobre geleiras e plataformas de gelo e a expansão de áreas cobertas por musgos, líquens e gramíneas – indicando que algumas áreas estão passando mais tempo sem cobertura de gelo e sendo colonizadas por esses organismos.

Navio Akademik Tryoshnikov. Foto: Anderson Astor e Marcelo Curia

As observações vão ao encontro de dados sobre a redução da cobertura de gelo marinho na Antártida. “De 2017 para cá, estamos vivendo a menor extensão do gelo marinho do último século”, explica Aquino. Em junho de 2024, a extensão de 12,2 milhões de quilômetros quadrados ficou 12% abaixo da média do mês no período entre 1991 e 2020. O recorde da série histórica ocorreu em 2023, quando houve redução de 16%.

A missão à Antártica liderada pela UFRGS envolveu 57 pesquisadores de sete países (Argentina, Brasil, Chile, China, Índia, Peru e Rússia). Entre eles, 27 brasileiros vinculados ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera e a projetos do Programa Antártico Brasileiro. A equipe internacional coletou mais de 90 metros de testemunhos de gelo e sedimentos e realizou 19 atividades para determinar temperatura, salinidade e acidez do oceano Austral em diferentes profundidades (até 2 mil metros). A expedição também obteve amostras da superfície do oceano e lançou 43 balões atmosféricos.

Roteiro da circum-navegação. Arte: Expedição Antártica/Divulgação

A iniciativa foi financiada pela fundação suíça Albédo Pour la Cryosphère, dedicada ao estudo e à preservação das massas de neve e gelo, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs).

Os materiais e dados coletados estão sendo analisados por laboratórios no mundo todo para estudar o impacto das mudanças climáticas nas geleiras e ecossistemas costeiros da Antártica, mapear hotspots de biodiversidade e coletar dados sobre a poluição por microplásticos, entre outras pesquisas. Os cientistas também buscam ampliar a compreensão sobre o papel do oceano Austral e do continente antártico para o equilíbrio climático do planeta.

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Esta reportagem integra a newsletter Climática, que tem o apoio do Instituto Serrapilheira e visa ampliar a compreensão sobre a emergência climática. A iniciativa inclui também o podcast O Fim do Futuro, podcast produzido pela Matinal em parceria com a Vós Social, que investiga como Porto Alegre mudou – ou não – um ano após a enchente de maio de 2024. 

Ricardo Romanoff

Repórter e editor de Cultura na Matinal. Também é tradutor, com foco em artes e meio ambiente, além de trompetista de fanfarra nas horas vagas. Contato: ricardo@matinal.org

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