Pular para o conteúdo

PUBLICIDADE

Arquitetura para quê?

Talvez você não saiba dizer o nome do arquiteto que projetou o seu edifício, mas com muito mais facilidade vai poder dizer o nome da construtora

A resposta pode parecer óbvia. Precisamos das casas, escritórios, lojas e tudo o mais que os arquitetos projetam. Entretanto, uma inquietação se instalou em mim quando ouvi o arquiteto Álvaro Siza (autor da Fundação Iberê Camargo), um dos mais famosos do mundo, se queixar da dificuldade de fazer arquitetura hoje: “virou mercadoria”, disse ele.

Tempos depois, preparando a aula A arquitetura faz a cidade para meus alunos da PUCRS, a inquietação virou questionamento ao observar uma imagem da construção mais antiga que a humanidade encontrou até hoje: Göbekli, na Turquia. Um templo construído há doze mil anos atrás, anterior à agricultura portanto.

Por que antes mesmo de fixar residência o ser humano fez um templo? De onde veio essa necessidade do culto? Por que somos os únicos seres vivos que têm consciência de si, fazem perguntas, têm espiritualidade, olham para seus mortos, memorizam, celebram e, fundamentalmente, interagem socialmente? Por que estamos aqui? Quem nos trouxe? Para onde vamos?

As respostas a essas perguntas foram buscadas nas religiões, na filosofia e nas artes – arquitetura incluída –, e passaram a ocupar o centro da vida das cidades quando os humanos finalmente fixaram moradia. E essas se fizeram com marcos, monumentos, templos e palácios carregados de simbolismo.

Foi a Revolução Industrial, milhares de anos depois de Göbekli, que introduziu uma nova finalidade para a cidade. Finalidade que, pouco a pouco, tomou o lugar das outras: ser útil. Útil no sentido econômico, da reprodução do capital.

E para que fosse o mais eficiente possível, foi necessário organizá-la como uma fábrica, classificando, especializando e espacializando geograficamente as rotinas da jornada diária de seus habitantes. A representação simbólica, os monumentos, os templos e até mesmo a arquitetura corriqueira de maior significado passaram a ocupar lugar cada vez mais secundário ou até mesmo inexistente nas novas aglomerações voltadas para a produção e consumo. Pense na silhueta das antigas cidades do Rio Grande do Sul, identificadas pelas torres de suas igrejas, e as mais novas, marcadas por torres residenciais que não expressam nada.

A arquitetura não escapou desse processo de mercantilização, é o que Siza está dizendo. Hoje são raros os edifícios que têm um arquiteto com a liberdade de criar sem a interferência de agentes alheios à arquitetura. E vale lembrar o historiador Ernst Gombrich: não existe arte sem artistas. No caso dos arquitetos, onde eles andam? 

O projeto passou a ser fatiado como qualquer fábrica faz para organizar sua produção. Fornecedores diferentes se ocupam de cada etapa do processo. Cada um trabalha sob orientação do empreendedor e sua assessoria de marketing e vendas, em vez de ter um único arquiteto – ou escritório – responsável.

Por isso talvez você não saiba dizer o nome do arquiteto que projetou o seu edifício, mas com muito mais facilidade vai poder dizer o nome da construtora. Nome da construtora que assumiu a autoria do projeto não com o viés da arquitetura, mas com o de vendas.

Se tudo é regulado pelo mercado, com a arquitetura não poderia ser diferente. Se não vende, não é bom, pois não faz dinheiro. Essa é a nova lei dos nossos tempos. Nada mais lógico que os responsáveis pelas vendas assumissem o desenho do que vai ser vendido.  

O fenômeno não se restringe à arquitetura, invade também outras áreas da cultura, resultando no que chamamos de enlatados. Quem produz fora do mercado, não à toa, é chamado de independente. Sabemos das dificuldades dos que escolhem esse caminho. 

A falta de equipamentos culturais é outro lado dessa mesma moeda. Investir no que não dá lucro é considerado um despropósito para o povo da mercadoria. Qual o retorno de um museu, sala sinfônica ou um bom teatro? Nenhum, responde o povo dessa lúcida expressão que Kopenawa criou para nomear a nossa civilização mercantil.

As opiniões emitidas por colunistas não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.
Flávio Kiefer

Flávio Kiefer

Arquiteto, professor da PUCRS, onde também foi diretor do Instituto de Cultura. Escritor. Autor dos projetos do Espaço Força e Luz, Centro Histórico Vila Santa Thereza em Bagé e, com Joel Gorski, da Casa de Cultura Mário Quintana.

Todos os artigos

Mais em Opinião

Ver tudo

Mais de Flávio Kiefer

Ver tudo
Arquitetura para dançar
/ Disponível apenas para quem tem cadastro

Arquitetura para dançar

/