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Com duas térmicas a carvão, pequena Candiota está no topo do ranking de emissões

Poluição climática do município de 10 mil habitantes supera a de Belo Horizonte, Fortaleza e Porto Alegre. Brasil aguarda um mapa do caminho para longe dos combustíveis fósseis.

Com duas térmicas a carvão, pequena Candiota está no topo do ranking de emissões
Foto: Juliano Bueno de Araújo (Instituto Arayara) / Setembro, 2021

O Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, posiciona Candiota (RS), cidade com pouco mais de 10 mil moradores, como a 43ª maior poluidora climática do Brasil. O município aparece à frente de Belo Horizonte (MG) e Fortaleza (CE), que possuem mais de 2 milhões de habitantes. Porto Alegre, com uma população de 1,3 milhão de pessoas, aparece na 167ª posição. 

Levando em consideração apenas o setor elétrico, a cidade lidera a poluição climática devido à geração de energia por meio do carvão, de acordo com esta reportagem da Matinal, que faz parte da investigação transfronteiriça e colaborativa As ruínas do carvão. O projeto é liderado pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP) e reúne doze veículos de comunicação sobre o fim da energia a carvão na América Latina.

“O carvão é o pior tipo de combustível fóssil em termos de emissões de gases de efeito estufa”, avaliou Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). “E o carvão brasileiro tem baixo poder calorífico. Não é um carvão bom. Isso significa mais poluição. O Brasil, decididamente, na minha opinião, não foi concebido no planeta Terra para usar carvão”. 

Crédito: CLIP

A posição de Araujo é compartilhada pelo geólogo Rualdo Menegat, que participou ativamente no debate sobre os impactos da construção de uma nova mina na Região Metropolitana de Porto Alegre, a Mina Guaíba – a instalação não foi adiante por pressão popular e de cientistas. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e estudioso da história do carvão no Brasil, Menegat conta que, no início do século 20, o então governador de Santa Catarina Lauro Müller contratou um renomado geólogo para realizar um estudo sobre o potencial das minas brasileiras. 

Após dois anos, o pesquisador publicou o Relatório White com a conclusão: “Isso não é carvão.” White foi enfático em declarar que o carvão brasileiro não prestava para uso comercial e explicou que no Brasil existiam apenas “lâminas de, no máximo, 2 centímetros” de material carbonoso misturadas a muito barro. “Ele descobriu também que as análises anteriores eram tendenciosas, pois os interessados ‘tiravam toda a argila e enviavam só o carvão ao laboratório’”, relatou Menegat. 

Müller, que dá nome a uma cidade na região carbonífera de Santa Catarina atualmente, não se convenceu e enviou o material à Alemanha para descobrir se mesmo assim era possível beneficiá-lo. “A resposta dos alemães foi que sim, dava para beneficiar o carvão brasileiro, usando muita água para tirar os rejeitos. Mas ninguém perguntou que tipo de dano ambiental esse beneficiamento trazia”, disse o geólogo gaúcho. “O beneficiamento do carvão gera uma quantidade massiva de rejeitos tóxicos (com metais pesados e alto teor de enxofre) que causam devastação ambiental sistêmica, como a drenagem ácida de mina. Além de gerar passivos imensos, porque as operações não se sustentam economicamente e acabam sendo deixadas para trás.”

Por que o carvão é o mais poluente

O 5º Inventário de Emissões Atmosféricas em Usinas Termelétricas, publicação do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) de 2025 com os dados de 2024, mostra que Candiota está no topo do ranking das emissões devido às usinas termelétricas instaladas na cidade (Pampa Sul e Candiota III) e às características do carvão.  

“Esse combustível tem um fator de emissão mais alto, ou seja, libera mais CO₂ [dióxido de carbono] por quantidade de combustível queimado quando comparado a alternativas como o gás natural. Além disso, no caso de Candiota, o carvão possui baixo poder calorífico, o que significa que é preciso queimar mais combustível para gerar a energia necessária à produção de eletricidade”, analisou Raissa Silva, pesquisadora do IEMA.   

Na prática, segundo Silva, essa combinação faz com que as usinas emitam mais CO₂ por unidade de energia gerada. “Por isso, mesmo sendo apenas o 5º município em geração, com menos da metade da produção de Santo Antônio dos Lopes, sede do Complexo Parnaíba, Candiota tem emissões cerca de 36% maiores, chegando a aproximadamente 4 milhões de tCO₂e [toneladas de dióxido de carbono equivalente]”, explicou.  

Ao analisar o total de emissões, a usina Pampa Sul – pertencente às gestoras de investimentos brasileiras Starboard Asset e Perfin – foi a maior poluidora climática entre as termelétricas estudadas. Candiota III, operada pela Âmbar Energia e propriedade da J&F S.A. dos irmãos Joesley e Wesley Batista, ficou em quarto lugar. Isso ocorreu porque a primeira gerou mais que o dobro de eletricidade da usina vizinha. Já ao considerar a taxa de emissões, isto é, quanto a termelétrica emite para cada unidade de eletricidade gerada, Candiota III é a segunda colocada, enquanto Pampa Sul é a terceira.

As duas usinas só não lideraram o ranking por causa da UTE Figueira, no Paraná, que teve a operação comercial suspensa. Segundo Silva, a termelétrica paranaense operou com cerca de 1,5% do seu potencial. Como a medição é feita por unidade de energia gerada, e a usina produziu muito pouco no período, o indicador ficou distorcido. “Ou seja, não se trata de uma usina intensiva em emissões em operação regular, mas de um efeito da baixa utilização”, explicou Silva. 

A reportagem solicitou informações e avaliações sobre o tema às empresas responsáveis por Pampa Sul, desde 8 de maio, e por Candiota III, desde 29 de abril. A primeira não respondeu, enquanto a J&F enviou uma nota destacando uma iniciativa liderada pela Âmbar Energia, chamada de Projeto H2V Candiota, voltada para produzir hidrogênio verde (H₂V) na termelétrica.   

“A iniciativa prevê a implantação de uma planta de hidrogênio verde para substituir o hidrogênio cinza atualmente utilizado no sistema de resfriamento do gerador da usina. A produção será realizada por eletrólise, com energia proveniente da planta fotovoltaica associada a um sistema de baterias que ampliará o período diário de operação”, afirmou a empresa. 

Segundo a nota, “o excedente de hidrogênio produzido será comprimido e armazenado, contribuindo para a segurança operacional da usina e criando oportunidades futuras de fornecimento para indústrias da região. Com a implementação, a Âmbar Energia estima reduzir aproximadamente 50 toneladas de emissões de CO₂ por ano.” O projeto foi selecionado no Edital de Desenvolvimento da Cadeia do Hidrogênio Verde (H₂V-RS) do governo gaúcho. 

Rede ambientalista pede fim das térmicas a carvão  

Na análise da pesquisadora Raissa Silva, do IEMA, há medidas que podem reduzir tanto as emissões de gases de efeito estufa, os responsáveis pela crise climática global, quanto a poluição do ar em Candiota. “No curto prazo, melhorias operacionais e o aprimoramento dos sistemas de controle podem diminuir a emissão de poluentes locais, como material particulado e óxidos de nitrogênio. No entanto, a redução estrutural das emissões depende da substituição gradual da geração a carvão por fontes de menor intensidade de carbono. Nesse sentido, decisões recentes de política energética caminham na direção oposta.”  

Entre as leis às quais Silva se referiu estão a 14.299/2022 e a 15.269/2025, que possibilitaram estender os contratos do governo federal com o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, em Santa Catarina, e Candiota III, no Rio Grande do Sul, até 2040. Como mostra esta reportagem do Matinal, elas foram frutos de lobby e pressão política.   

Essas leis, no entanto, segundo o Observatório do Clima, não definiram “diretrizes para a recuperação ambiental dos passivos decorrentes da mineração e da queima do carvão mineral, tampouco para a redução das emissões de GEE [Gases do Efeito Estufa] desses empreendimentos fósseis, que contam com garantia de contratação até o horizonte de 2040.”

A rede, que conta com mais de 130 organizações ambientalistas, pediu ao governo federal que reveja a contratação dessas usinas. Além da questão ambiental, criticou as leis por não incluírem “diretrizes e procedimentos para a aposentadoria compulsória dos profissionais ou para a sua requalificação em empregos verdes, em caso de fechamento das usinas.” 

O pedido foi apresentado como contribuição ao Mapa do Caminho para uma transição energética justa e planejada, iniciativa lançada pelo governo federal após a COP de Belém no final de 2025. O objetivo do mapa é planejar uma redução gradativa da dependência de combustíveis fósseis e propor mecanismos de financiamento para a transição. Ainda não há prazo para o plano sair do papel.   

O Observatório do Clima também recomendou “zerar a produção de carvão para uso em eletricidade ainda nesta década, mantendo o uso industrial por curto período de tempo.” Segundo Suely Araújo, no setor industrial, o uso do mineral ainda poderia persistir por mais tempo, por ser um desafio maior. “No sistema elétrico, o carvão não significa nada. Se a gente desligasse as térmicas a carvão, isso não mudaria estruturalmente o sistema interligado.” 

Segundo o Balanço Energético Nacional 2025, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia (MME), a participação do carvão na matriz elétrica brasileira foi de 1,9% em 2023 e 2024. 

Aposta na reciclagem do carbono 

Na análise de Fernando Luiz Zancan, presidente da Associação Brasileira do Carbono Sustentável (ABCS), entidade que representa os interesses do setor, o problema do carvão está justamente na emissão de gás carbônico (CO₂). “Se você resolver o problema da emissão, por que não usar carvão?”, questionou. 

De acordo com Zancan, a renovação dos contratos abre espaço para encontrar soluções. “Que tecnologias estão em desenvolvimento? Você vai aplicar qual delas? Você não sabe qual é a tecnologia vencedora. Tem plantas de demonstração no Canadá, tem planta de demonstração nos Estados Unidos, tem várias plantas na China. Tem um desenvolvimento de tecnologia que está sendo feito. A planta funciona com captura? Funciona, mas ainda é caro. Então, você tem que fazer uma, duas, três, quatro, cinco (tentativas).” 

Há duas possibilidades, segundo Zancan, para essa “reciclagem do carbono”. Usar os gases para fazer subprodutos, como metanol ou fertilizantes, projeto que está em desenvolvimento na China, por exemplo, ou injetar o CO₂ na terra. “Você injeta o CO₂ em algum lugar e deixa lá embaixo, como é feito há mais de 30 anos no mar do Norte – e a própria Petrobras faz aqui no Brasil. A reciclagem de carbono é o tema do futuro.”     

Apesar de reconhecerem os impactos das mudanças climáticas, os mineiros de Candiota consideram uma desinformação colocar o carvão como o vilão das emissões de gases do efeito estufa. “As emissões das usinas a carvão representam muito pouco. A agropecuária e o desmatamento são muito mais agressivos”, afirmou o engenheiro de minas Hermelindo da Trindade Ferreira, um dos diretores do Sindicato dos Mineiros de Candiota, fundado em 1991. 

De fato, em 2024, segundo o SEEG, as térmicas a carvão geraram cerca de 10 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (tCO₂e), representando 0,49% das emissões do país. A maior parte das emissões vem das mudanças de uso da terra e floresta e agropecuária, representando pouco mais de 71%. No entanto, dentro da geração de eletricidade, ainda segundo SEEG, a geração a carvão responde por 23,9% da poluição climática.

Segundo Ferreira, o problema estaria mais concentrado na queima do carvão, que emite uma mistura de gases tóxicos, entre eles o dióxido de carbono. A solução para o ex-presidente do sindicato seria dar outros usos ao minério, como a gaseificação e a produção de cimento e de fertilizantes a partir das cinzas. “Temos mais 200 anos de carvão. Temos é de pensar em soluções para a descarbonização para alcançar o NET Zero (zerar as emissões líquidas de carbono)”, afirmou. A preocupação central é gerar novas oportunidades de empregos até lá, para não deixar desamparados os trabalhadores. 

As contradições do carvão 

Como parte do Acordo de Paris, o Brasil apresentou a revisão de suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês) em 2024. O objetivo é reduzir entre 59% e 67% as emissões de gases do efeito estufa até 2035, em comparação com os níveis de 2005. 

Em uma análise das metas brasileiras, o Climate Action Tracker, iniciativa independente que avalia as metas climáticas e políticas de países, classificou as metas brasileiras como insuficientes. “A classificação ‘Insuficiente’ indica que as políticas e os compromissos climáticos do Brasil precisam de melhorias substanciais para serem consistentes com o limite de temperatura de 1,5°C do Acordo de Paris,” diz o projeto científico liderado pelos centros de pesquisa Climate Analytics e NewClimate Institute. 

Segundo a análise do Climate Action Tracker, o Brasil adotou políticas econômicas para apoiar o desenvolvimento sustentável e a geração de empregos. Mas criticou a falta de um cronograma para o fim dos combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão. “Embora essas políticas incluam a transição energética como um de seus principais pilares de ação, o Brasil ainda não possui um cronograma definido para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e continuará a alocar recursos significativos para a produção e o desenvolvimento de petróleo e gás natural na próxima década, o que levanta preocupações sobre a priorização da sustentabilidade e das metas ambientais na agenda de infraestrutura do Brasil.”

Manter uma fonte de energia cara e poluente não é uma questão só do Brasil. O uso do carvão tem gerado um paradoxo tanto aqui como em outros países, como mostrou o relatório Boom and Bust Coal 2026, elaborado pelo Global Energy Monitor, que monitora o setor energético em todo o mundo. O documento revelou que, em 2025, embora a capacidade instalada das térmicas tenha atingido níveis recordes – impulsionada por novos projetos na China e na Índia –, a geração real de eletricidade a partir desse combustível apresentou declínio.  

“À medida que a lacuna entre as usinas de carvão e a energia que elas produzem aumentou, a capacidade de carvão é cada vez mais mantida não como uma fonte primária de geração, mas como uma forma de seguro do sistema, valorizada por sua disponibilidade em tempos de estresse, em vez de seu uso diário”, destacou o relatório. 

O estudo, que teve a participação do Instituto Arayara, também mostrou contradições no Brasil. “Uma série de desenvolvimentos em 2025 e início de 2026 destaca os sinais contraditórios que moldam a trajetória do carvão no Brasil, refletindo uma tensão entre a reputação do país como líder em energia verde – incluindo a conquista efetiva do status de No New Coal (Sem Novo Carvão) – e o apoio político contínuo ao carvão.”

O status No New Coal foi conquistado porque os últimos dois projetos foram arquivados, ambos no Rio Grande do Sul: a Nova Seival (em Candiota e Hulha Negra) e a Ouro Negro (Pedras Altas). Ao mesmo tempo, o estudo criticou a pressão política e o lobby que fizeram com que os contratos de Jorge Lacerda e Candiota III fossem estendidos. 

O apoio político ao carvão, defendeu o estudo, também se refletiu na renovada participação de usinas a carvão no mercado. “Em março de 2026, o Brasil realizou seu primeiro leilão de energia aberto a usinas a carvão desde 2021, com a participação de três usinas no nordeste do Brasil – Itaqui (360 MW), Pecém I (720 MW) e Pecém II (360 MW). Todas as três receberam contratos de 10 anos, garantindo a operação contínua de Pecém I até 2037 e estendendo a vida útil de Itaqui e Pecém II até 2041”, afirmou o estudo. Essas térmicas usam carvão importado.  

A manutenção do carvão no Brasil eleva custos em uma matriz majoritariamente renovável, avaliou o estudo. “Embora o Brasil tenha efetivamente se afastado do desenvolvimento de novos projetos de carvão, decisões políticas e de mercado recentes estão estendendo o papel da capacidade de carvão existente. Com cronogramas de desativação permanecendo incertos e subsídios repassados aos consumidores, o custo de manter a geração a carvão no Brasil continua a crescer em um sistema de outra forma dominado por energia renovável.”

Perguntamos à Suely Araújo, do Observatório do Clima, se ela acredita na transição energética justa no setor de carvão. “Não, a gente não está fazendo. A gente está mantendo a situação até 2040. E vai chegar em 2040 e vão querer adiar. Não basta jogar a questão para frente sem tomar medidas severas de mudança na região. Além desse adiamento, o que foi feito efetivamente para mudar a realidade das regiões carboníferas do sul do país?”.

Las Ruinas del Carbón

As Ruínas do Carvão é um projeto liderado pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP) em parceria com a Agencia Ocote (Guatemala), Baudó Agencia Pública (Colômbia), Concolón (Panamá), Contracorriente (Honduras), La Nación (Argentina), Matinal (Brasil), N+ Focus (México), Raíz Climática (República Dominicana), Reportea (Chile), Climate Tracker América Latina e Mongabay Latam sobre a transição para longe da energia a carvão na América Latina. Revisão jurídica: El Veinte.

Maurício Frighetto

Jornalista e mestre em jornalismo. Tem reportagens publicadas em veículos como Deustche Welle, piauí, Folha de S.Paulo, entre outros.

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