Elites
Sou guardador de coisas. Não chego ao ponto da loucura, mas admito que tenho objetos em demasia. Objetos chamados livros, basicamente. Mas no tempo do jornal e da revista em papel, eu colecionei muitos recortes. Muitos. E separava por categorias, inclusive.
No começo da minha vida profissional, professor de ensino médio, eu tive, por uns anos, o capricho de levar para a sala de aula (era uma escola de elite em Porto Alegre, e eu dispunha de sala específica para as aulas de literatura, os alunos é que iam e vinham) alguns desses recortes, que eu colava numa parede que ficava diante dos olhos de todos os alunos que entravam ou saíam. Era uma forma de distribuir a palavra – a palavra da imprensa.
Por exemplo, na Guerra das Malvinas. Eu dando aula, já adulto, e sabendo que era contemporâneo e mais ou menos vizinho de uma guerra real, uma guerra absurda como toda guerra, mas ali mais ainda, dada a situação da Argentina, sob ditadura militar sangrenta. Sim, era também o tempo em que eu comprava jornais do centro do Brasil e de Buenos Aires a cada fim de semana. Excelentes tempos para a imprensa.
Uma das pastas em que eu guardava recortes se chamava “Os projetos todos tolos combinados”. Era um cemitério, para dizer de modo dramático: ali eu depositava recortes alusivos a ideias, a projetos, a desejos que eu em algum ponto da vida tinha concebido e que tinham parado, sem encontrar caminho, por falta de tempo, de talento, de dinheiro.
Era um verso de canção que a Elis cantava, obra de Renato Teixeira, chamada Sentimental eu fico. “Os projetos todos tolos combinados perecerão nas margens da manhã”, dizia, fazendo um retrato da noite em um bar, a cuja mesa os amigos resolvem os destinos da humanidade em fantasia. Ainda há conversas assim em mesa de bar? Estimo que sim, espero que sim.
E as elites com isso?
Minha geração, e uma antes da minha (e outras depois), dos anos 1960 em diante (até talvez hoje), se criou abominando as elites em geral. No Brasil, elites eram os milicos no poder, a casta que os cercava e os cevava, empresários satisfeitos com a posição subordinada do país no cenário regional e mundial, felizes com o esquema que os beneficiava. Elite era vocalizada por Delfim Netto, que mandava esperar o bolo crescer para depois repartir.
A oposição de centro contava com alguns empresários com certa altivez (vide Ainda estamos aqui), e quase nunca aparecia algum militar com coragem suficiente para dizer que era preciso mudar. As elites intelectuais e acadêmicas, em imensa maioria, prestigiavam a altivez nacional, queriam distribuição de renda e democracia, tinham a ciência e a crítica como centro da desejada mudança.
Na extrema esquerda, fração minoritária achava que todas as elites deveriam acabar. Então e até hoje, essa franja sonha com um igualitarismo que prevê o fim de toda e qualquer elite. Uma tolice e um desserviço à democracia.
Elites.
Minha desolação atual, que vem de muitos anos já, é olhar para o mundo das elites. Aqui na cidade, elites empresariais aclamaram o autodenominado Véio da Havan num evento que se apresenta como um momento de reflexão sobre os destinos do liberalismo. Elites políticas acabam de fazer passar essa Lei de Uso e Ocupação do Solo. No contexto dela, edifícios poderão subir até 130 metros – cerca de 42 andares –, imitando cidades patéticas, e liberou toda uma zona, no Quarto Distrito, de reservar qualquer metrinho quadrado do terreno para uma grama, um jardim.
Enquanto isso, na elite bancária brasileira são repassadas umas dezenas de milhões a pedido de um senador famoso pelas rachadinhas, senador que se candidata à Presidência.
E muitas elites locais continuam a apoiá-lo.
Luís Augusto Fischer
Nesta edição
A começar pelas artes visuais: a partir de uma cidade que não dorme, Daisson Flach mostra em ensaio fotográfico o cotidiano daqueles que, com mãos hábeis e vigorosas, dão forma ao ferro. Com o início da 61° Bienal de Veneza, Samantha Buglione reflete sobre a presença do Sul Global na exposição, que pode parecer significativa em números, mas, afinal, o objetivo nunca foi apenas aparecer.
Na série em celebração ao centenário de Milton Santos, Wagner Nabarro e Natalia Sá Britto destacam duas obras do geógrafo que buscaram compreender a sociedade, entre o espaço, o tempo e a técnica, ferramentas que os autores também utilizam para analisar a realidade gaúcha. E Artur Barcelos continua a sequência de matérias sobre a história das Missões Jesuíticas Guaranis.
Na seção Nossos Mortos, Arthur de Faria presta homenagem a Tasso Bangel, compositor taquarense que marcou a música gaúcha como integrante do Conjunto Farroupilha.
Marília Kosby relata, em crônica, suas vivências ao dirigir um grupo de reflexão com homens que infringiram a Lei Maria da Penha. Também vale a pena ler a crônica Do lado de cá do arroio, em que Evandro Machado Luciano narra experiências com o racismo estrutural – o conteúdo foi publicado na Matinal News durante a última semana.
Encerrando, Gonçalo Ferraz apresenta um novo capítulo do Cordel do Corte Raso, com versão musicada em áudio também disponível, e o folhetim de Marlon Pires Ramos, Entre o Mundo e Eu, chega ao seu sexto capítulo.
Boas leituras!