Confira todos os textos da edição #334
- Beatriz Besen: “O engano está justamente na ideia de que a perspectiva política das pessoas sempre forma um todo coerente”, por Luísa Kiefer
- MPB: música parodiada brasileira – Parte I, por Breno Serafini
- Leitura, autoridade e mediação na era dos algoritmos, por Marcelo Santos
- Doutor, minha vitamina B12 está baixa!, por Enrique Falceto de Barros
- As missões e o arquipélago Guarani, por Artur Barcelos
- O rock gaúcho – Parte XV, por Arthur de Faria
- Dedos de sonhador, por Juremir Machado da Silva
- Calçola à mostra, por Claudia Tajes
- Sussuarana – Capítulo IV: 2019, por Alice Elnecave Xavier
- Antônio II: enfim chegamos ao novo sem abandonar o melhor da MPB, por Luciano Mello
- O prazer, para as seis cordas: resenha-ensaio sobre o show de Vitor Ramil em Florianópolis, por Diogo Araujo
- Cordel do Corte Raso – Capítulo 13, por Gonçalo Ferraz
Falemos agora da banda que fez a ponte entre os anos 1970 e os 1980: o Taranatiriça (originalmente Tara na Tiriça – algo como “muito, muito tesão”).
O Tara original, fundado em 1979, tinha, nas teclas, Carlos Eduardo Miranda (Porto Alegre, 21/03 1962 – São Paulo, 22/03/2018); na guitarra, Marcelo Truda (Marcelo Lopes Truda, 14/04/1961); no baixo, o futuro homem de televisão Valério Azevedo (substituído já no ano seguinte por Flávio Santos). Na bateria, Cau Hafner (futuro Cidadão Quem, Porto Alegre, 10/07/1959 – Montenegro, 09/07/1999, morto prematuramente aos 39 anos pulando de paraquedas).

Duca Leindecker, 2026:
O primeiro show que eu vi de rock foi no Araújo Vianna, Taranatiriça com abertura do Garotos da Rua. Eu tinha 11 anos. Foi muito por causa desse show que eu comecei a tocar guitarra. Até então eu tocava violão, tocava bossa nova.
Tudo começara quando Cau convidou o ainda adolescente Miranda para tocarem uma música no Festival do Colégio Anchieta. Miranda definiu a cena numa hilária entrevista dada para o radialista Mauro Borba, e que está num livro de Mauro, Prezados Ouvintes:
Ninguém respeitava a gente porque era um bando de moleque fazendo rock.
E na época havia uma espécie de limbo no rock gaúcho.
Começaram fazendo rock instrumental, metidos numa cena de grupos basicamente instrumentais que apareciam no momento, como o Raiz de Pedra – que, na época, ainda cantava – e o Cheiro de Vida. O show de estreia do Taranatiriça, não por acaso, foi junto com o Raiz e o Cheiro, no teatro do IPA, Instituto Porto Alegre.
Só que, ao contrário do que acontecia nas outras duas bandas, só quem realmente tocava bem ali eram Truda e Cau. Para compensar, já abusavam da performance e usavam alguns dos efeitos especiais que sofisticariam com o tempo: projeção de slides, fumaça, balões soltos no palco, explosões de pólvora...
Paulo Mello, que entrará no lugar de Flávio, deu um longo depoimento pra este futuro livro, no longínquo 2002:
O diferencial do Tara era a produção cuidada. O som era sempre o mesmo (o Cau era dono da Auê Sonorização) e a luz era contratada sempre por nós e a melhor possível.
Íamos para o interior com um ônibus e um caminhão, sempre levando som e luz. O show era sempre o mesmo e as explosões eram marca registrada. Desenvolvido pelo Cau, o sistema usava como detonador um curto-circuito que seguidamente apagava as luzes e som, por décimos de segundo, mas era bala.
Em 1982, gravam uma fita demo com o rockão instrumental Reverber (Miranda), incendiado pela furiosa e virtuosa guitarra de Truda. A música tocaria adoidado na Bandeirantes FM através do radialista Ricardo Barão, e seria o tema de abertura do programa que era o porta-voz da juventude gaúcha: o Pra Começo de Conversa, da TVE.
Mas aí em 1983 a banda implode: Truda e Cau queriam rumar para um lance mais hard-rock’n’roll, Miranda queria enlouquecer, Flu viajou pra Europa.
Depois de uma tentativa frustrada de uma nova formação cheia de integrantes, Truda resolve recomeçar do zero e chama para o baixo Paulo Mello, seu colega na banda de apoio do cantor, compositor e pianista Léo Ferlauto.
Paulo:
Em 1983 enquanto gravávamos o disco independente do Léo (Sonho Solto), o Truda me disse que a tentativa de refazer o Tara como uma superbanda de vários integrantes tinha só dado confusão, por que era muita cabeça pensando cada um para um lado. Aí, ele resolveu fazer um power trio (Truda, Cau e eu).
O primeiro show do novo Tara foi no Rocket 88, do Mutuca, numa festa da TVE, e já foi um sucesso violento, por que tinha o lance da música Reverber que era a abertura do programa Pra Começo de Conversa (TVE) produzido pelo Valério (que foi do Tara) e com apresentação do Cunha Junior. A maioria das músicas, porém, eram novas e com letra.
O Rocket 88 nunca tinha lotado tanto com a banda da casa, que viria a ser batizada em seguida de Garotos da Rua - mas ainda não era bem divulgada. Acho que aí começou a rivalidade que acompanhou a história das duas bandas.
Neste show foi que conhecemos o Alemão Ronaldo, que foi lá para ajudar o pessoal do som e era o baterista da Bandaliera.
Mais tarde ele entrou para o Tara, pois cantava melhor que todos nós.

Em 1984, como vimos, a versão da banda para Rockinho (Fugheti Luz, até então inédita em disco) é um dos destaques do LP Rock Garagem. Seria a única gravação dessa primeira fase da formação mas lembrada da banda: Alemão Ronaldo, Marcelo Truda, Paulo Mello e Cau Hafner.
Paulo:
A ACIT chamou para gravar um LP. A gravação do LP ficou marcada para 1985.
No final de 1984 fizemos o famoso show no Teatro Presidente. Mais uma vez o cuidado com a produção reverteu no sucesso do show: reservamos três datas para dois shows. Na manhã do primeiro dia já chegou todo o equipamento e na noite ensaiamos o show inteiro no teatro, com som e luz. Ninguém fazia isto na época, e agora muito menos (na verdade, acho que o Léo Ferlauto tem influência nisto, pois os shows dele, tanto o "Sonho Solto" e o seguinte, "Alegria", foram muito bem-produzidos e pensados de formal teatral).
Neste show lançamos a música Fazê um Bolo (de minha lavra), que nunca tinha sido tocada. Sei lá como, todo mundo cantou o refrão: numa confeitaria, numa danceteria, ou na bilheteria do cinema, pra ver um filme de rock.
Até hoje descubro músicos mais novos que me dizem "aquele show mudou a minha vida" ou algo parecido. Por exemplo, o Nando e Fredi Endres da Comunidade Nin-jitsu, levados pelo pai.
Fredi, em 2026:
Cara, foi inesquecível esse show. Sério! Eu tinha nove anos! A batera do Cau andando pra frente, Marcelo Truda com influências de Eddie Van Halen, o Alemão Ronaldo se não tava de calça deandê – aquelas listradas tipo Obelix – tava com uma boca-de-sino... Ali eu pensei: “eu quero ter uma banda, um dia”.
Nando, em 2026:
A gente curtia a parada que era mais distorcidona, mais próxima do heavy metal: a gente era metaleirinho, os pequenos metaleiros! Me lembro que a gente ficou meio assombrado, meio apavorado com o Alemão Ronaldo. Foi um marco na nossa história. Foi o primeiro show de rock pesado que a gente viu.
Também são apontados por muita gente como um dos melhores shows do festival Atlantida Rock Sul Concert, dividindo a noite com Urubu Rei, Ira!, Legião Urbana e Ultraje a Rigor, num Gigantinho lotado. Logo em seguida emendam uma turnê pelo interior do Rio Grande do Sul, com o Legião como banda de abertura.
Tudo ia bem, muito bem.
Até que...
Paulo:
Num show na praia de Capão da Canoa, no verão de 1985, num circo administrado pelo Sid (o magnífico, da Sombrero Luminoso), o Alemão resolveu pegar no pé do operador de som (um dos melhores que houve aqui no RS), o Cau acabou brigando com ele e Alemão acabou dizendo que ia sair da banda.
Passei a noite tentando convencê-lo a pensar melhor, mas não adiantou - e o Cau também não queria ceder. Assim, fizemos vários shows de trio no verão de 1985, novamente revezando o vocal. Na volta acabamos chamando o Perna para gravar o disco.
Ele nunca tinha cantado de verdade. O resultado mesmo assim foi bom, a música de trabalho, Fazê um Bolo, emplacou nas rádios e toca até hoje (saiu na coletânea da Ipanema em 1999). Aliás, foi gravada pela Bandaliera duas vezes (em 1997, no LP 15 anos e em 2002, ao vivo, para a Revista Atlântida).
O disco Totalmente Rock saindo pela ACIT já daria o que falar pelo simples fato de que, até então sediada em Caxias do Sul, a gravadora era basicamente dedicada ao regionalismo.

Gravado com Perna no vocal, no lugar de Alemão, o LP explode Rockinho e Fazê um Bolo, que imediatamente se tornam hits (hoje clássicos) do rock gaúcho.
Paulo:
Com o lançamento do LP que, dizem, vendeu 25.000 cópias, fizemos muitos shows, mas já não era a mesma coisa sem o Ronaldo. Fizemos o Rock Unificado I, fomos convidados para o disco da RCA (Rock Grande do Sul), mas a ACIT não nos liberou - e nós também ficamos achando que, com um disco recém-lançado pela ACIT, não dava para trocar de gravadora assim no mais.
Como se sabe, Rock Grande do Sul foi um marco absoluto, resultando em discos individuais lançados nacionalmente por todas as bandas que estavam ali.
Ou seja:
Perdemos este barco.
Entram 1986 fazendo muitos shows e sendo contratados pela gravadora paulista Nova Copacabana, que lança em 1987 o segundo LP: Taranatiriça II.
Paulo:
Fizemos a divulgação em SP e Rio, fomos em programas de TV etc. Mas eu não me sentia bem, pois a música de trabalho era a, para mim, nefasta Baralho Voador, que eu relutei em ensaiar, relutei em tocar nos shows, relutei em gravar e a gravadora ainda escolheu como música de trabalho. Relutei ainda em aceitar. (...) Chegávamos nas rádios no Rio e SP para mostrar o disco e para mim era vergonhoso mostrar aquela música - e os comunicadores achavam uma merda mesmo.
Aí começava uma empurração: "tem essa outra, tem essa", mas a merda tava feita. A minha contrariedade e as reclamações que fiz foram tantas que brigamos e eu saí logo depois do lançamento. Mas tudo bem, já tinha ido no Chacrinha (único lugar que eu acho que combinou com o Baralho).
A banda acaba em 1989, com uma longa folha de 10 anos de serviços prestados à difusão do rock gaúcho, tocando em praticamente todos os lugares onde houvesse uma tomada à disposição e levando um profissionalismo muitas vezes inédito a estes mesmos lugares. Literalmente lavraram a estrada do rock no interior do Estado.
Em 1999, 10 anos depois, Cau chamou Truda, Paulo e Alemão Ronaldo para fazerem pelo menos um show e gravarem um disco ao vivo que mostrasse o que fora realmente a banda em cima de um palco. Araújo Vianna reservado, a produção seria grandiosa.
Paulo:
Fizemos um ensaio, por acaso, pois estávamos em um estúdio esperando o (programa da RBS TV) Patrola para falar do novo projeto, (...) pegamos os instrumentos que tinham lá e começamos a tocar. (...) Era uma quarta-feira. Depois o Cau nos deu o convite para o aniversário dele que seria no Dado Bier, no domingo. Fomos para o escritório dele e conversamos um pouco mais. Minha mulher foi me buscar com meus filhos, eles entraram lá para me chamar, fizeram bagunça, o Cau deu uns adesivos da Cidadão Quem para eles, a minha mulher buzinou nos apressando, eu me atucanei e, ao sair, lembro que parei e pensei, "será que eu dei tchau pro Cau"?
E aí o paraquedas do Cau que não abriu, às vésperas do tal aniversário.
Em 2011 o trio Alemão, Truda e Paulo acabou tocando junto por acaso, num show coletivo, com Fábio Musklinho na bateria. No ano seguinte, lançaram um compacto com duas músicas (Trem Fantasma e uma nova versão de Rockinho), reestrearam no festival Morrostock e fizeram um show no Opinião. Gravaram ao vivo pra ser lançado em seguida.
Passa o tempo e só em 2025 lançaram o disco gravado do jeito que queriam quando Cau morreu: Taranatiriça ao Vivo. Pra marcar a data, e por pilha de Duca Leindecker, fizeram um show de lançamento novamente no Opinião. E não pararam de se reunir eventualmente para fazer shows.
