Minha rebeldia começou nos primeiros anos de vida, pois até os quatro anos não falei. Em silêncio segurava as palavras; era uma reação à casa em que morreu num acidente um irmão de meu pai, aos dez anos. Gerou um tal trauma essa morte que provocou um luto na família e uma pesada convivência. Nem vinte anos após essa morte a casa vivia um clima alegre, tanto que meu pai contava e recontava o acidente à minha irmã mais velha, na década de quarenta. Pelo que contam, meu nascimento despertou uma alegria que conviveu com o peso da tristeza. Minha avó, que passava o dia comigo, dizia que eu iria falar, pois entendia as palavras. Comecei a falar quando a família se mudou de casa, e isso foi um segundo nascimento. Li em Amor dos começos, livro do psicanalista francês J.B. Pontalis, coautor do primeiro dicionário de Psicanálise, que ele também não tinha falado até os quatro anos. Fiquei aliviado, pois tanto ele como eu, entre outros, tivemos esse problema no início da vida. Já é hora de pensar o paradoxo que é a expressão “rebeldia comportada”.