Confira todos os textos da edição #331
- Sem explosões, com transformações, por Luís Augusto Fischer
- Maria Regina Pilla: Existencialista, militante, cidadã do mundo, por Luís Augusto Fischer
- Primeiro, não tomar gol, por Fernando Carvalho
- Minha primeira Copa, por Juremir Machado da Silva
- O rock gaúcho – Parte XII, por Arthur de Faria
- Rebeldia comportada, por Abrão Slavutsky
- Essa terra não tem dono!, por Artur Barcelos
- Sussuarana – Capítulo I, por Alice Elnecave Xavier
- Cordel do Corte Raso – Capítulo 10, por Gonçalo Ferraz
- Grato, Carlo Ginzburg, por Francisco Marshall
- Pedro Brum Santos, entre a literatura e a história, por Lucas Zamberlan
- Uma tristeza medonha, por Karina Lucena
2016
No que aquela água morna empapa minha meia-calça, fico sóbria de novo.
Não me importava a luz branca do banheiro, a condensação nas paredes, nem os espelhos embaçados. Mas aquela poça, o contraste com a lajota fria, o cheiro de mijo velho vindo de todos os lados, tudo se espalhando devagarinho entre a minha pele e as fibras de nylon, aí era demais. Eu devia era enfiar a cabeça da Cecília naquela privada. Em vez disso, apoio suas costas na divisória da cabine e termino de sentá-la entre o porta papel higiênico e a lata de lixo, rezando para que escorregue mais para lá do que para cá caso perca o equilíbrio de novo.
Me levanto, fecho a tampa do vaso, e dou descarga, ainda meio desacostumada com a rapidez com que o cômodo parou de girar ao meu redor. Recolho a bolsinha de camurça atirada em meio à pirâmide de papel higiênico amassado e penduro no gancho atrás da porta. A tia Ângela vai matar ela quando ela chegar em casa. Visto a minha melhor cara de quem sabe o que está fazendo e me agacho até ficar da sua altura.